O desprezo de Aluísio Lima e Silva por epitáfios e outras homenagens póstumas
Aluísio contemplava entediado seu corpo morto sobre a maca da enfermaria número sete, se tornando ele mesmo o primeiro a receber a notícia do próprio falecimento, exatamente quatorze minutos antes do enfermeiro de plantão, Ubaldo Otávio Rodrigues que convocou os técnicos em enfermagem Jonas Leal Machado e Hilda Carneiro Gonçalves e suplicou ao médico plantonista Carlos Zaqueu Völler Hertz para tentarem inutilmente a reanimação do ex-paciente, agora já cliente da funerária da noite. A consciência do além de Aluísio bocejava e olhava atento os crachás, decorando rostos e nomes daqueles que declararam sua morte às duas e nove da manhã, cobrindo seu cadáver com a dignidade do lençol branco e verde onde se estampava o logotipo do Hospital Central, um nome pouco criativo e altamente mentiroso, já que o estabelecimento onde se vendia saúde a preços nada salutares nada tinha de central, nem na posição geográfica da cidade nem como reconhecido centro de excelência.
Até por isso Aluísio o escolhera para morrer. Seu plano de saúde permitiria melhores prontos socorros, com melhores equipes de enfermeiros atentos e médicos acordados, mas tal fato poderia resultar no seu indesejado salvamento, adiando seus planos para uma nova crise. Pois Aluísio estava ciente da gravidade de sua situação desde as onze da manhã de onze de julho, que ele achava uma data adequada para morrer, uma terça-feira sem quaisquer novidades ou diferenças em relação ao dia anterior, dez de julho. Embora, de fato, tenha morrido no dia doze de julho, uma quarta-feira igualmente sem ressalvas ou alterações, num destaque irrelevante, já que datas e horários não têm importância central no relato que se inicia.
O certo é que, ao perceber que morreria nas próximas horas, Aluísio fez o que planejara para esse dia, isto é, exatamente a mesma coisa que fazia todos os dias. Esperou até o meio dia e almoçou arroz, feijão, macarrão ao alho e óleo, tomate, pimentão, alface e carne de panela, acompanhado de Coca-Cola, um almoço que continha pelo menos quatro ingredientes proibidos por sua nutricionista já há doze anos. Passou a meia hora seguinte lendo notícias no celular ainda na mesa do restaurante, como fazia sempre em dias de expediente. Olhou a previsão do tempo para o dia seguinte, em uma ironia que lhe passou despercebida, afinal admitia, por honestidade intelectual, que poderia estar errado. De volta ao trabalho, cumpriu com suas funções até às dezoito horas. Dirigiu para casa, parando no caminho para encher o tanque do carro, em mais uma prova que admitia sinceramente que poderia ter se enganado.
Após tomar um banho completo, vestiu uma camiseta simples e uma calça jeans que achava confortável. Calçou um tênis leve, passou hidratante na espessa barba já com pelos brancos às dezenas e, sem dizer nada a ninguém, rumou para o Hospital Central para morrer em ambiente controlado. Ria no caminho pensando nas vezes em que no passado fora comparado a um gato dada uma série de comportamentos felinos que lhe atribuíam. Ninguém sabia, mas planejara morrer como um gato velho, que desaparece da vista dos donos, deixando saudades e incertezas. Aluísio sabia que era gato apenas no método, e que não deixaria saudades e muito menos incertezas. Gatos velhos, que sobreviveram às doenças agudas, às brigas de telhado, aos cachorros, aos veículos na rua e aos humanos violentos, se prestam a desaparecerem dignamente, mas pessoas humanas precisam deixar registros e atestados, certezas cartoriais necessárias mesmo para um homem solitário de quarenta e dois anos que, se deixaria suas certidões finais para fins de espólio e procedimentos post mortem, pelo menos sabia não deixar alguém chorando atrás de si por sentir sua falta.
Não que ninguém o conhecesse. Mal sabia, mas Tadeu Hilário Machado, pessoa completamente sem relação ao técnico de enfermagem Jonas, o profissional que aplicara o último soro na veia do braço esquerdo de Aluísio, sentiria sua falta por vários anos. Tadeu era dono do apartamento onde Aluísio vivera por cinco anos de aluguel pago maquinalmente em dia, um cliente de tipo raro, um tipo que não voltou a alugar o imóvel no sexto andar do Moradas da Alvorada, um prédio de nome pomposo onde moravam estudantes, servidores públicos solteiros, aposentados e pragas urbanas, estas últimas em uma função inversamente linear do andar.
Também deixou escapar uma lágrima avulsa Matias Gobbi Feitosa, vizinho de mesa no setor de Aluísio. Matias era um servidor público audaz, embora apenas quando não estava no trabalho. Motociclista convicto, fã inamovível de Deep Purple e The Doors, montava nos fins de semana em sua Honda Shadow para tradicionais trezentos quilômetros de rumo ignorado, massacrado pelo Sol, um objeto astronômico que não via no colete de couro de Matias impedimentos para brilhar forte. Também montava durante a semana, nesse caso no trabalho lento e meticuloso de Aluísio, que preferia fazer o serviço de ambos que ter que fazer o seu e refazer o de Matias logo depois. Não eram amigos, mas conversavam constantemente sobre assuntos que Aluísio fingia entender. A lágrima unigênita não revelou a que veio, se lamentar pelo colega ou pelo volume de trabalho acumulado.
Aluísio não lembrava do trabalho, e aparentemente esquecera até o nome do órgão em que trabalhava. Seu espírito, agora já saindo pela recepção do hospital, onde Simone Farias Toledo Munhoz preenchia formulários eletrônicos no computador, não sabia se momentos antes, quando ainda estava vivo, tinha esquecido seu próprio local de trabalho, ou se informações irrelevantes eram deixadas pra trás no momento da morte. Dali planejava sair para a funerária de plantão, mas imaginou que o transporte do corpo levaria algumas horas, então não havia pressa. Sentou, não porque espíritos se cansem, mas porque mesmo no além o ato de contemplar pede esta posição onde pernas e razões se cruzam para chegar a um veredito na maior parte das vezes precipitado e irracional. Procurava um lugar para ir enquanto esperava seu corpo. Não se lembrava onde morava, ou seja, era irrelevante procurar sua casa e assim o primeiro local que sua mente etérea imaginou foi o apartamento de Lorena Barbosa da Costa.
E aqui se descreveria a cidade de Aluísio, suas ruas, praças, prédios e parques, seus becos e personagens da madrugada dos dias de semana, quer-se dizer, pelas práticas ocultas dos contistas, a aldeia idealizada de quem conta. Mas isso seria se Aluísio estivesse vivo, e como a primeira coisa que este vil e pequeno Brás Cubas fez foi morrer em sua própria história, não estava preso às limitações de rotas de seus pares viventes. Pois Aluísio abandonou suas travas éticas de vivo, ignorou as ruas e paredes, e fez uma linha reta até a casa de Lorena, passando por dentro das edificações no caminho. A maior parte de seu trecho foi em quintais, e em nenhum deles, contrariando o senso comum, foi percebido ou incomodado pelos cachorros domésticos. Os vira-latas nas ruas também pareciam não o enxergar ou farejar. Gatos passavam diretamente por ele e não alteravam a posição de nenhum pelo.
Embora fosse uma atitude antiética, Aluísio não fazia questão de bisbilhotar. Passou pela sala de um velho acordado, por cima da cama de um casal fazendo sexo, por uma moça que fazia maratona de um seriado na TV, por uma cozinha cheirando mal de louças sujas, o que o fez perceber que ainda tinha olfato. Imaginou se ainda teria paladar, mas decidiu não fazer tal teste naquela cozinha. Não convém mencionar a quantidade de quartos que passou onde gente dormia, e se alguém se assusta com essa possibilidade, de um espírito de passagem rumo à casa de uma ex-namorada estar à espreita no quarto escuro, já de antemão trato de tranquilizar a inquietude: Aluísio não tinha a menor intenção de se comunicar com qualquer pessoa, e não parecia ter qualquer habilidade para tal, já que os acordados não se alteraram minimamente com sua passagem.
Enquanto subia as escadarias do prédio de Lorena, já que não era capaz de chamar o elevador, lhe ocorreu se podia voar. E podia, pelo que atravessou as lajes até a sala do apartamento 402. Não ousava ir direto ao quarto, num lampejo de respeito ao espaço alheio que lhe faltara nos últimos vinte e três minutos. Entrou devagar no quarto, num inútil esforço para não fazer barulho. Lorena dormia ao lado de César Medina, e só ao ver o casal em tranquilo sono Aluísio pensou por que rumara para lá. Namorou nove vezes, a última delas seis anos antes. Lorena era a terceira namorada, um relacionamento que durou dos vinte e três aos vinte e cinco anos de Aluísio. Quase duas décadas antes, e um namoro comum, com um beijo mediano e um sexo semanal mediano. Então por que estava ali? Não tinha sentimentos por Lorena, arrependimentos pelo término nem grandes lembranças. Pelo romance poderia ter visitado Gabriela de Souza Moraes, uma relação intensa e tórrida no início de seus trinta anos. Pelo afeto talvez Sílvia Martins de Oliveira ou Luana Tavares Palermo, respectivamente a primeira paixão da adolescência ou seu primeiro amor maduro, no final dos vinte e muitos anos.
Assumiu que Lorena era uma média. Nem os fogos de Gabriela, os amores de Luana, nem a apatia de Silvana Maria Ferreira Hübner, sua última namorada. Nem a amizade incondicional de Sílvia nem os conflitos da beligerante Beatriz Loureiro Kapersky. Lorena representava dois anos normais de sua vida, de festas aos fins de semana, boas-noites ao telefone às quintas-feiras, mensagens de bom dia logo pela manhã, afeto porque era necessário, carinho porque calhava e sexo porque a vontade ocasionalmente surgia. Nada para mais, nem para menos, a linha de referência por onde se julgava máximos e mínimos. Um namoro constante, previsível, rotineiro e tedioso, que era, por definição, a imagem de Aluísio. O espírito deixou-se cair para trás, com as mãos sob a cabeça, numa posição que lembrava a de alguém deitado em uma espreguiçadeira, impulsionando-se em direção à parede externa da forma que os espíritos se impulsionam com a força do pensamento. Instintivamente, pelo peso de quarenta e dois anos de prática em aberturas nos tijolos, rumou pela janela, mesmo já tendo atravessado várias paredes e lajes no passado recente.
Flutuava a partir do quarto andar daquele prédio que, embora não se lembrasse, era bem melhor que o seu próprio. Pairava acima da vizinhança olhando para cima, onde a Lua minguante era escoltada por um pelotão de estrelas que formavam constelações que Aluísio conhecia em vida desde quando acompanhou o hobby astronômico de Silvana, mas cujo conhecimento organizado ficou no cérebro em decadência na enfermaria sete do Hospital Central. Decidiu que essa aventura encerrava as visitas, e alinhou o corpo para voltar ao hospital, dessa vez sem violações de privacidade. E diante dos protestos de qualquer pessoa comum que leia que Aluísio se deu por satisfeito por visitar uma ex-namorada pouco relevante em sua vida, se esclarece que seus pais já são falecidos e ele é filho único. Seu parente remanescente é uma tia, Roberta Lima Gonçalves Pereira, distante dois mil e quinhentos quilômetros, que será notificada de seu falecimento e da parte que lhe toca no espólio em momento oportuno, fora do escopo deste relato.
Quanto a melhores amigos, Aluísio só tinha um que podia receber tal título, e já o visitara há instantes, pois era César Medina, embora estivessem distantes nos anos mais recentes, por motivos não relacionados ao casamento de César com Lorena, tendo Aluísio inclusive comparecido à cerimônia, e presenteado o casal com uma bombonière de trezentos reais que, conforme ele verificou de canto de olho, ainda estava sobre a mesa de jantar, com pêssegos decorativos e trufas embaladas provavelmente vencidas há algumas semanas. Por isso, Aluísio já voltava ao hospital, onde, se tivessem sido diligentes os profissionais de saúde, já teriam achado um bilhete com contato de emergência em sua carteira onde constava o telefone celular de Ronaldo Tavares Salgueiro, que atenderia o telefone se apresentando como Doutor Ronaldo, seu advogado, responsável pelos procedimentos funerários e execução de seu testamento.
Se pudesse teria se desculpado com Ronaldo, pois pretendia ter morrido em horário mais conveniente. Mas morrer não era simples, mesmo para um corpo tão maltratado pelo álcool e outros abusos que não mencionarei aqui em respeito ao recém falecido, que na verdade morreu devido a uma doença tão incomum que Aluísio já não saberia declinar nome ou explicar a natureza das dores e demais sintomas. O espírito quieto e resignado não refletia a vontade inconsciente do corpo que buscava sobreviver até cerca de uma hora atrás, tentando resistir com suas travas e mecanismos biológicos involuntários que postergavam a morte certa. E é essa justamente a função dos tais mecanismos, que atrasam a morte certa desde a concepção, às vezes por mais de cem anos em casos cada vez menos raros, tanto que Aluísio não guardava rancor, exceto um pouco de lamento pelo incômodo ao sempre prestativo Ronaldo.
Aluísio acompanhou a conversa entre Ronaldo e Carlos Hertz, um rápido e formal diálogo cheio do termo doutor enquanto pronome e poucas informações relevantes. Assinaturas de um lado e de outro, carimbos aqui e ali e o corpo estava liberado para a funerária. Do alto o espírito acompanhava o carro que levava o corpo, um horroroso carro escuro de funerária, acompanhado pelo sedã de Ronaldo. Se teria um cortejo fúnebre, aquele seria todo ele, no máximo. Até agora estava satisfeito com os procedimentos. Apenas os profissionais de saúde o viram, sempre vestido. Sua morte de gato era uma tentativa de dignidade final. Não queria que o encontrasse caído e de olhos abertos uma pessoa qualquer, nem ter a chance de sua imagem final circular em telefones celulares curiosos pela morte alheia. Além da equipe de plantão do hospital, apenas os agentes funerários o veriam, o que era inescapável dadas as condições.
Até pensou em contratar como agentes funerários os vermes naturais, morrendo em algum ponto inacessível e remoto, talvez tendo sua tumba de ermo descoberta apenas anos após, quando restariam apenas ossos, aceitáveis enquanto sinais de morte digna. Desistiu por não conhecer pontos inacessíveis e remotos, nem como chegar a eles, e muito menos como comprovar sua morte sem corpo, atrasando os procedimentos do inventário e demorando a colocar um ponto final na vida que já tinha abandonado em espírito, em um sentido mais amplo e metafórico que o anteriormente usado, que é o da alma consciente.
Dessa forma, esperava que tudo acontecesse como o planejado cuidadosamente. Seria cremado na manhã seguinte, e as cinzas podiam ser “lançadas” no rio. Não tinha nenhum vínculo com o rio, e tinha usado o termo “descartar” na minuta do testamento, mas foi convencido por Ronaldo a usar um termo mais respeitoso com as cinzas de um morto. Aluísio acatou a sugestão, apesar de não respeitar aquele morto em particular, achando graça que Ronaldo corrigisse seu deslize auto depreciativo. A única testemunha da cremação seria Ronaldo, que posteriormente faria chegar a sua tia Roberta a notícia e parte de suas economias até ali. Não se lembrava do valor, mas Ronaldo estava ciente de um não vultoso mas não desprezível montante de seis dígitos de reais. Outra parcela faria jus uma lista de instituições que Aluísio considerava dignas e merecedoras de ajuda. Uma parte era relativa aos honorários do advogado, e outra pequena para as despesas finais com o apartamento e seus pertences, a maioria destinada à doação ou ao lixo, conforme o estado.
E, de fato, foi o que ocorreu no dia seguinte, e teria Aluísio ficado satisfeito se visse que sua vontade fora concretizada sem desvios. Ocorre que uma vez guardado seu corpo na urna funerária correspondente, nada havia a fazer até que a manhã chegasse. Passou então a um despretensioso passeio pelos corredores da agência funerária, uma distração completamente improvável se ainda estivesse em seu corpo com plenas funções. Assim, ouvindo um rumor na capela do estabelecimento, lá foi verificar, por absoluta falta de atividades diversas que lhe passassem na mente. Ali chorava uma senhora de uns sessenta anos, abraçada a uma senhora de uns trinta anos. Também um senhor de uns sessenta anos chorava ao lado de um senhor de uns vinte e cinco anos, que tinha papeis e uma caneta na mão. O jovem explicava isto e aquilo para o idoso. Antes que Aluísio ouvisse o assunto, o homem mais velho assinou o papel e o homem mais novo saiu.
O velho levantou resoluto, puxou o que tinha no nariz para dentro, engoliu o que tinha na boca e em paz com a dignidade do luto não limpou as lágrimas. Tocou o ombro de cada uma das mulheres e acenou um “vamos” com a cabeça. Elas se levantaram ainda abraçadas e saíram pela porta central da capela. O choro de ambas se intensificou quando viram saindo pelo portão da garagem o carro fúnebre, o mesmo que transportara o corpo de Aluísio até a funerária. Após novo toque nos ombros, as mulheres entraram em um carro a comando do velho, que assumiu o volante. Aluísio voltou sua atenção para o carro funerário, e o alcançou quando ele tocava o asfalto e começava a manobrar. Entrou na parte traseira e fitou o caixão. Era daqueles com vidro à altura do rosto do falecido. Ainda estava escuro, difícil de enxergar mesmo para quem não tinha mais olhos de carne. Algumas luzes dos postes entravam pelo pára-brisa e por frestas ocasionais no veículo. Num desses relances Aluísio viu o rosto do seu colega de morte. Era jovem, mais jovem que ele, pelo menos. Devia ter uns trinta anos, um pouco menos talvez, ou não muito mais. O rosto era sereno, guardando uma expressão que parecia cordial e acolhedora mesmo de olhos fechados. Um rosto que não parecia estar em decomposição inexorável naquele exato momento, destinado a deixar de ser daquela forma em alguns dias, e daí para sempre.
Não demorou até o carro parar. Ademir Soares Menezes, o agente funerário e motorista acumulou a função também de abrir a porta do compartimento traseiro do longo veículo funerário. Com ele surgiram mais sete rostos. quatro choravam, três não. Eram cinco homens e duas mulheres, que em silêncio se coordenaram para carregar o caixão e os suportes de metal que o sustentariam, auxiliados pelo agente motorista carregador da funerária. Aluísio desembarcou e acompanhou o cortejo. Era uma rua simples, pavimentada com blocos de concreto. Umas dez pessoas acompanhavam de perto, a maioria com lágrimas pelo rosto. Um vizinho curioso espiava encostado no canto do portão da casa da frente. Dos mais próximos, alguns chegavam perto do caixão para olhar pelo vidro e renovar o choro. O velho que assinou os papeis na funerária saiu da casa e tomou o lugar do agente funerário entre os carregadores. O agente, movido pela prática nessas situações extremas, auxiliou na distribuição dos suportes de metal e no cuidadoso posicionamento do caixão sobre eles. Sem parar, tratou de rapidamente voltar para o veículo funerário e apanhou candelabros e velas, as quais logo acendeu com um isqueiro, uma placa luminosa onde se lia “LUTO”, que pendurou no portão, e um pedestal de madeira e um livro preto, que abriu ao lado da porta principal da casa, deixando uma caneta entre as folhas. Como últimos atos, abriu a tampa do caixão e espalhou pelo ambiente as flores decorativas, sempre apressado mas sistemático e cuidadoso. Em seguida, recolheu sua expressão grave ao carro e seguiu para lidar com outras mortes.
Dentro da casa havia cerca de quinze pessoas espalhadas pelos cantos. Via-se cabeças baixas e abraços duradouros, com poucos rostos à mostra. Aluísio se aproximou do caixão agora aberto e pode ver melhor o jovem. Demonstrava mesmo serenidade. Era o único rosto transmitindo sentimentos neutros ou positivos naquele lugar onde mais gente chegava a cada minuto, com caras desesperadas e prantos com soluços. O jovem permanecia impassível em sua paz, sua face descansada e despreocupada, deixando até mesmo perceber um leve sorriso nos lábios. Não havia crachás reveladores e ninguém dizia o nome de ninguém. Os que chegavam apenas diziam variações de “não acredito que ele se foi” e “tão jovem, tão jovem”, sendo que os mais aparentemente sábios entre eles nada falavam, na verdade. Não constava nome no livro de presença, que não tinha cabeçalho, apenas nomes em sequência dos que já tinham deixado suas assinaturas como prova final de amizade e respeito. Aluísio teve um impulso para assinar, querendo deixar sua marca naquela cerimônia que, como bem racionalizava, comparecera, mesmo que nas mesmas condições que o velado. Chegou a levar a mão à caneta depositada ao centro do livro, mas se sentiu ridículo ao lembrar que não conseguia manipular o objeto, cedendo a vez para Larissa Tenório de Paula Lemos, que marcou o livro com uma letra regular e firme, apesar da emoção.
Aloísio sentiu-se ridículo por também querer deixar uma marca indelével numa homenagem a alguém que jamais conhecera em vida. O que o levou a outro pensamento de imediato, que não entendia por que demorara a lhe ocorrer. Com sua nova propriedade de atravessar paredes sem usar portas e janelas vasculhou rapidamente todos os cômodos da casa e o quintal. Insatisfeito, buscou no forro, subiu até o telhado, flutuou acima da casa e olhou em volta em todas as direções. Afinal, onde estava o espírito daquele que repousava tão suavemente no caixão? Teria ficado pra trás por não lembrar onde era sua casa também? Mas ele também não estava na funerária. Não quis acompanhar seu corpo? Aluísio não se remoeu em pensamentos de céus, infernos e purgatórios, pois esta era mais uma das coisas que sua mente não trouxera na bagagem, esquecendo no cérebro que seria queimado dali a algumas horas. Sua racionalização se concentrou no sofrimento dos parentes e amigos daquele rapaz, cenas que agora o perturbavam e que ele já começava a achar impalatáveis, tanto que permaneceu flutuando acima das casas, longe das vozes de lamento, da sucção dos narizes e dos soluços.
Passou então a emitir julgamentos a seu respeito, o que era uma novidade desde a morte. E a sentença era a seu favor. Sentiu que tinha acertado na vida ao se isolar. Não gostaria de enxergar ninguém sofrendo por sua causa daquela maneira. Sabia que mesmo morto aos quarenta e dois alguém diria “tão jovem, tão jovem”. Imaginou mulheres novas e homens velhos chorando por sua causa, e achou perturbador. Como fantasma resignado e satisfeito com suas conclusões, decidiu que era hora de voltar à funerária e acompanhar a cremação do seu corpo. Mas é claro, e qualquer pessoa perspicaz notaria, que esse é o momento nas histórias dos vivos em que o protagonista resolve seus conflitos e encontra uma paz que será, como que por força da lei das tragédias, perturbada sobremaneira. Não há evidências confiáveis sobre como são as histórias reais dos mortos, se elas existem, então não há outro meio de tratá-las a não ser por analogia. Assim, de tal julgamento também Aluísio sofre a sentença: que se aplique a ele a trágica lei.
Antes de rumar ao seu destino para acompanhar a cremação, Aluísio desceu um pouco, pela intenção talvez de se despedir daquelas pessoas cuja única lembrança será o sofrimento. Ouviu sobre o horário do enterro, provavelmente no final da tarde. Imaginou que aquele jovem sereno teria uma lápide, com epitáfio, flores e visitas anuais em dois de novembro. Homenagens que ele desprezava, não se lembrava por quê, mas sabia que eram grande parte da causa de ter deixado suas instruções para o advogado. E, apesar do esquecimento, continuava não vendo sentido nelas. Era algo para os vivos, logo entendeu, não para os mortos. E, como morto, ele deveria agir como tal. Antes de sair ainda viu aquela mulher mais nova que estava na funerária mais cedo, sentada sozinha numa cadeira na varanda da casa. Ela olhava para a tela de um celular, com os olhos inundados. Para o espanto de Aluísio, enquanto o dedo da mulher passava pela tela, sem aviso ela soltou o gesto menos esperado para o momento, pelo menos para quem a observava. Um sonoro sorriso, cheio de dentes. Chocado, curioso e sem as travas da ética de sua vida, Aluísio espiou por cima do ombro da mulher e viu que ela repassava fotos com o homem do caixão. Confuso, Aluísio se afastou. Entendia as dores, e percebeu que podia se acostumar com elas, mas aquele sorriso não fazia sentido para ele.
Quando Aluísio se voltou em direção à funerária para voar em seu destino, sentiu o que um vivo descreveria como um arrepio por todo o corpo. E outro vivo perguntaria ao ver o espanto do primeiro “viu um fantasma?”, o que seria uma pergunta inadequada à situação, primeiro porque Aluísio era o que poderíamos, no caso, definir como um fantasma e, segundo, porque ele nada vira. Seu arrepio vinha de dentro, de um pensamento que veio repentinamente, sabe-se lá por qual processo fantasmagórico que rege os pensamentos dos mortos. Aluísio considerou que talvez o jovem morto estivesse ali. Além do corpo, ele pensava, que estivesse na mesma condição que ele, que estivesse vendo todo aquele sofrimento, como ele estava, mas que também estivesse vendo apenas os vivos. Afinal, e os outros mortos? Aluísio achava pouco razoável que ele fosse uma exceção tão gritante numa cidade relativamente grande, isto é, que só ele fosse consciente após a morte parecia um cenário nada plausível.
Faria mais sentido, pensou, que aquilo fosse a morte. Ver os vivos sozinho, sem a companhia dos outros mortos. Cada um em sua realidade, intocáveis e invisíveis, para os vivos e um para o outro. Consciências perdidas, sem poder nenhum exceto a de julgar a si próprio, e enxergar os horrores da vida sem nada fazer a não ser se desesperar. Porque, acabava de descobrir, desespero também acometia mortos. Aluísio se afastou flutuando, deixando-se levar sem rumo, alcançando a rua e passando pelos carros em trânsito, depois subindo sem pensar no que fazia, começando a esperar pela segunda vez uma espécie de morte nova, já que a atual nada mais era que uma vida em pior versão.