Durante duas semanas inteiras os canais de televisão brasileiros transmitiram a intervalos irregulares trechos da vida e sofrimento de uma jovem estudante de Direito de uma grande cidade do país. A moça se chamava Geni, e tinha sido apedrejada no campus de uma universidade por um grupo de estudantes de História da Arte, auxiliados por alguns mestrandos em sociologia, que se encarregaram de jogar estrume em apoio às pedras.
Todos foram conduzidos para delegacia, exceto Geni, levada em coma para o hospital. Ninguém ficou preso por muito tempo, entretanto. O advogado do líder do grupo argumentou em juízo que os estudantes agiram orientados por uma música popular, reprentando dramaticamente um conhecidíssimo refrão, propagando a cultura em rede nacional, expondo a dor e humilhação das mulheres que dão para qualquer homem. Um juiz inocentou o grupo baseado em tal argumento, mas condenou o advogado e os rapazes a prestar serviços sociais por chamar a obra de Chico Buarque de “popular”, vulgarizando-a. Geni, virgem, morreu no hospital pouco tempo depois.
Geni nasceu normalmente na primeira década do século XXI, filha de Relair, um inteligente engenheiro e colunista político no tempo livre. Relair era um homem de raciocínio rápido e incisivo nas palavras, sendo bastante citado – a maioria das vezes negativamente, dada sua fama de “reacionário”.
Tinha como inimigos alguns ícones da esquerda, embora a maoiria deles não o conhecesse. Uma parcela, contudo, o conhecia bem e lia o que Relair escrevia, mas fazia questão de parecer o ignorar, além de responder aos pedidos de réplica de leitores em comum com um efetivo e desonesto “Relair quem?”.
Uma decisão importante e absurda da vida de Relair foi o nome de sua filha. Odiava Chico Buarque, e se cansou de ver o artista que tanto desprezva exaltado pela crítica. O engenheiro-colunista decidiu então mostrar para seus leitores e para a sociedade que na verdade Chico não fazia diferença. Batizou Geni sua filha, pretendendo demonstrar que a obra de Chico não tinha eco na vida de qualquer brasileiro. Sua pequena filha seria a prova viva que os “esquerdalóides”, como chamava seus adversários, eram inúteis. A esposa de Relair não se manifestou em contrário. Já não argumentava com o marido há dezesseis anos, e disse para algumas amigas que não quebraria esse tabu por tão pouco.
A primeira evidência que a ousadia de Relair daria resultados imprevistos se deu na escola. Na sexta série sua primeira professora de matérias relacionadas às ciências humanas repararou no nome Geni em suas listas de chamada. Procurou a menina, e pediu que enviasse a seu pai os “cumprimentos por ter a coragem de homenagear um artista brasileiro de tamanho quilate, ainda mais com um nome tão ousado, tendo em vista a subversão lirista do Grande Poeta na criação da personagem em questão”. Tais cumprimentos foram enviados em um bilhete, e copiados aqui ipsis litteris, incluindo a capitalização.
Geni gozava de prestígio nas aulas de filosofia, sociologia, história e geografia. Suas redações eram sempre lidas com destaque na aula de literatura. A essa altura Geni gostava dos benefícios que seu nome lhe trazia, ainda ignorando o motivo. Mas algo mudou profundamente após um evento em sua escola, em que participaram professores e pais. Relair compareceu, deixando bem claro que era Relair e porque era conhecido. Discutiu com todo o corpo docente, questionando sobre coisas que sua filha aprendia e vociferando contra o que entendia ser “doutrinação de crianças no seio da educação básica nacional”.
Ao identificarem o pai de Geni o tratatamento dado à moça pelos professores mudou. Agora a tratavam com frieza, e a chamavam entre si de “cria do reaça”. A animosidade começou a aparecer durantes as aulas, e os outros alunos absorveram a hostilidade dos professores, em um processo bastante comum nas escolas.
Em uma aula de literatura no último ano de Geni no ensino médio, a professora apresentou Geni e o Zepelim para uma análise poética, ciente da possível confusão que desencadearia. A aula não demorou a evoluir para a prática. Foi a primeira vez que jogaram pedra na Geni. Pedras simbólicas, evidentemente, representadas para alívio da vítima por bolas de papel amassado. A partir da explicação de seu pai e do delegado de plantão horas depois, Geni aprendeu o significado do termo bullying naquele dia, antes de entender a diferença política entre esquerda e direita e também sobre o que trata Geni e o Zepelim.
Eventos semelhantes aconteciam esporadicamente durante a carreira acadêmica de Geni que, amaldiçoada pelas próprias escolhas, contrariou o pai e entrou no curso de Direito de uma universidade federal. O trágico apedrejamento se deu em seu segundo ano de faculdade.
Relair viu sua prova viva morrer no hospital, desfigurada e com vários ossos quebrados. Mudou-se do país, dizendo-se perseguido, acusando a esquerda de ter matado sua filha para o calar. Mas nunca falou tanto como desde então.
Durante duas semanas inteiras os canais de televisão brasileiros transmitiram a intervalos irregulares trechos da vida e sofrimento de uma jovem estudante de Direito de uma grande cidade do país. A moça se chamava Geni, e tinha sido apedrejada no campus de uma universidade por um grupo de estudantes de História da Arte, auxiliados por alguns mestrandos em sociologia, que se encarregaram de jogar estrume em apoio às pedras.
Todos foram conduzidos para delegacia, exceto Geni, levada em coma para o hospital. Ninguém ficou preso por muito tempo, entretanto. O advogado do líder do grupo argumentou em juízo que os estudantes agiram orientados por uma música popular, reprentando dramaticamente um conhecidíssimo refrão, propagando a cultura em rede nacional, expondo a dor e humilhação das mulheres que dão para qualquer homem. Um juiz inocentou o grupo baseado em tal argumento, mas condenou o advogado e os rapazes a prestar serviços sociais por chamar a obra de Chico Buarque de “popular”, vulgarizando-a. Geni, virgem, morreu no hospital pouco tempo depois.
Geni nasceu normalmente na primeira década do século XXI, filha de Relair, um inteligente engenheiro e colunista político no tempo livre. Relair era um homem de raciocínio rápido e incisivo nas palavras, sendo bastante citado – a maioria das vezes negativamente, dada sua fama de “reacionário”.
Tinha como inimigos alguns ícones da esquerda, embora a maoiria deles não o conhecesse. Uma parcela, contudo, o conhecia bem e lia o que Relair escrevia, mas fazia questão de parecer o ignorar, além de responder aos pedidos de réplica de leitores em comum com um efetivo e desonesto “Relair quem?”.
Uma decisão importante e absurda da vida de Relair foi o nome de sua filha. Odiava Chico Buarque, e se cansou de ver o artista que tanto desprezva exaltado pela crítica. O engenheiro-colunista decidiu então mostrar para seus leitores e para a sociedade que na verdade Chico não fazia diferença. Batizou Geni sua filha, pretendendo demonstrar que a obra de Chico não tinha eco na vida de qualquer brasileiro. Sua pequena filha seria a prova viva que os “esquerdalóides”, como chamava seus adversários, eram inúteis. A esposa de Relair não se manifestou em contrário. Já não argumentava com o marido há dezesseis anos, e disse para algumas amigas que não quebraria esse tabu por tão pouco.
A primeira evidência que a ousadia de Relair daria resultados imprevistos se deu na escola. Na sexta série sua primeira professora de matérias relacionadas às ciências humanas repararou no nome Geni em suas listas de chamada. Procurou a menina, e pediu que enviasse a seu pai os “cumprimentos por ter a coragem de homenagear um artista brasileiro de tamanho quilate, ainda mais com um nome tão ousado, tendo em vista a subversão lirista do Grande Poeta na criação da personagem em questão”. Tais cumprimentos foram enviados em um bilhete, e copiados aqui ipsis literis, incluindo a capitalização.
Geni gozava de prestígio nas aulas de filosofia, sociologia, história e geografia. Suas redações eram sempre lidas com destaque na aula de literatura. A essa altura Geni gostava dos benefícios que seu nome lhe trazia, ainda ignorando o motivo. Mas algo mudou profundamente após um evento em sua escola, em que participaram professores e pais. Relair compareceu, deixando bem claro que era Relair e porque era conhecido. Discutiu com todo o corpo docente, questionando sobre coisas que sua filha aprendia e vociferando contra o que entendia ser “doutrinação de crianças no seio da educação básica nacional”.
Ao identificarem o pai de Geni o tratatamento dado à moça pelos professores mudou. Agora a tratavam com frieza, e a chamavam entre si de “cria do reaça”. A animosidade começou a aparecer durantes as aulas, e os outros alunos absorveram a hostilidade dos professores, em um processo bastante comum nas escolas.
Em uma aula de literatura no último ano de Geni no ensino médio, a professora apresentou Geni e o Zepelin para uma análise poética, ciente da possível confusão que desencadearia. A aula não demorou a evoluir para a prática. Foi a primeira vez que jogaram pedra na Geni. Pedras simbólicas, evidentemente, representadas para alívio da vítima por bolas de papel amassado. A partir da explicação de seu pai e do delegado de plantão horas depois, Geni aprendeu o significado do termo bullying naquele dia, antes de entender a diferença política entre esquerda e direita e também sobre o que trata Geni e o Zepelin.
Eventos semelhantes aconteciam esporadicamente durante a carreira acadêmica de Geni que, amaldiçoada pelas próprias escolhas, contrariou o pai e entrou no curso de Direito de uma universidade federal. O trágico apedrejamento se deu em seu segundo ano de faculdade.
Relair viu sua prova viva morrer no hospital, desfigurada e com vários ossos quebrados. Mudou-se do país, dizendo-se perseguido, acusando a esquerda de ter matado sua filha para o calar. Mas nunca falou tanto como desde então.