Para Consumo Imediato

Textos fósseis adulterados

Três quartos de hora

A chuva começou de repente naquela tarde de março. Até gosto de me molhar, mas o conteúdo dos meus bolsos não me permite desfrutar tal prazer. As águas sempre caíram sobre homens que não se importavam muito com elas, mas chegou o tempo em que todos são obrigados a andar com as roupas recheadas de documentos, notas de dinheiro e celulares. Certas dádivas do céu são esquecidas com o avanço do que as pessoas costumam chamar de progresso.

Naquela praça sem abrigos, em uma rua sem acolhedoras lojas abertas ou toldos convidativos, escondi-me dos pingos sob um ponto de ônibus. Não era o melhor lugar para quem queria se esconder da chuva, mas achei perfeito. O vento às vezes jogava água lateralmente, respingando sobre meu rosto e pescoço. Após o calor sufocante de horas antes, cada gota que graciosamente se colocava em minha pele era como um pequeno inverno de alívio. No Hades equatorial de Porto Velho, a chuva é como uma concessão de Abraão, inesperadamente cedendo ao clamor do rico perdido.

Fechei os olhos, levantei o queixo, e deixei que as gotículas frias de água me refrescassem mais. Abri os olhos, entretanto, e vi que já não estava sozinho. Havia um homem ao meu lado. Não tinha visto sua aproximação, e pensei que não havia ninguém na rua naquele instante. Um pequeno susto, sem dúvida, já que não entendia como ele podia estar ali após fechar os olhos por tão pouco tempo. Completando a estranheza da situação, ele escrevia em um pequeno caderno já úmido devido aos respingos.

Não sei o motivo, mas resolvi lhe falar. Talvez por achar que era inesperado um encontro sob o mesmo ponto de ônibus àquela hora, sob aquela chuva, daquela forma. Alguns de nós tem impressão que todas as coisas têm uma razão de ser, e isso dita nossos atos certas horas. Acredito que sou uma dessas pessoas, e entendi que o fato de aquele homem estar ali significava que eu devia falar com ele.

– O que está escrevendo? – dispensei saudações e apresentações, buscando algo óbvio para iniciar o diálogo, que, por seu início, prometia ser bastante tosco.

– Sobre a juventude – disse ele olhando para o caderno. – Sobre a juventude perdida, para ser mais exato.

Estranhei bastante a resposta. Mas também passei a estranhar bastante aquele homem. De certos ângulos se diria que ele era um jovem em seus vinte e poucos anos. De outros pontos de vista, parecia ter mais de trinta. Era impossível dizer sua idade.

– Mas você está no auge da juventude! – tentei ser simpático.

– Auge? O que determina a juventude? A data de nascimento? Os aniversários? As roupas? Os acessórios?

Apenas olhei e não respondi. Esperava uma conversa mais superficial. O homem não se preocupou com meu silêncio e estupefação. Neste instante parecia bastante jovem, quase adolescente.

– Jovens são aqueles que vivem seu tempo com intensidade. Eu vivi, digo a você, mas não o meu tempo. Eu vivi tempos remotos, tanto atrás quanto à frente. E os vivi sem entrega, distante. Vi mil anos em vinte, mas em relevância foram como cinco, fracos e pálidos. Formei-me no passado idealizado, e me projetei no futuro utópico. Isso fez de mim pouco mais que um espectro no presente.

Já a esse momento eu me encontrava profundamente incomodado. Queria sair, mas esperei um pouco em silêncio, por educação. Observei por alguns segundos os pingos da chuva movendo a água das poças. Não conseguindo esperar por mais tempo, levantei e me despedi, sem obter resposta. Poucos passos à frente voltei-me para o ponto onde estava. O homem me encarava de uma maneira perturbadora.

– O que eu disse assusta você? – perguntou ele, para minha completa surpresa. Dei mecanicamente um passo para trás, e terminei tropeçando e me desequilibrando, quase indo ao chão. Procurei a pedra que tinha me feito tropeçar, mas não a encontrei. Penso que tropecei em meu próprio assombro. Olhei novamente para ter certeza. Tive a impressão de que conhecia aquele homem mais do que queria.

Com o coração e a respiração acelerados, voltei os olhos para a rua. Alguns vagos pensamentos confusos me ocuparam durante algumas inspirações e expirações. Quando olhei novamente o homem não estava mais sentado no banco do ponto. Não estava caminhando pela calçada ou pela rua. Tinha desaparecido completamente.

Parei por um tempo pensando em tudo o que tinha acontecido. Notei, entretanto, que ainda chovia. Esquecendo-me do que tinha presenciado, do telefone celular em meu bolso e dos documentos que portava, segui até minha casa, completamente molhado e sentindo as gotas caindo sobre a cabeça e ombros. Alegrei-me ao ver o Sol deslizar para o oeste a partir das nuvens de chuva ainda no céu. As luzes daquele fim de tarde tornavam impressionantes as cores das folhas encharcadas das árvores, tornando os verdes mais vivos e brilhantes.

Vivi um pôr-do-sol de fato, e uma chuva por completo. E tudo pareceu muito mais que três quartos de hora.

Aguarde Sua Vez

– A morte precisa ter estilo – ensinava João a um desconhecido que, como ele, subia as escadas do prédio VI do Brasil Shining Sunset Palace, um condomínio muito bem localizado, com uma vista interessante para quem quer ver algo pela última vez, como se dizia por lá.

O prédio tinha vinte e cinco andares e era muito bem acabado. Os elevadores funcionavam perfeitamente, mas João preferiu subir as escadas para aproveitar o momento especial. No quarto andar desistiu da ideia e solicitou um elevador, que não demorou a chegar. Queria morrer, mas espatifado no chão, não de ataque cardíaco ou cansaço.

– Morte sem sangue é para mocinhas – ensinou em sua segunda lição, que foi mais curta, já que o elevador não fez paradas. Desceu no vigésimo quinto andar e subiu resmungando o último lance de escadas até o terraço.

Uma fila enorme começava próxima à porta do terraço e serpenteava até uma borda que dava para o oeste. Ninguém queria ver o pôr-do-sol: era nove da manhã, e a fila se dispôs assim porque ninguém quis ter o sol no rosto, apesar dos ótimos óculos escuros presentes nas faces. O desconhecido que acompanhou João na subida passou à sua frente e tomou um lugar na fila. Apesar dos olhares repreensivos em protesto, o homem sequer corou, e João conformou-se com seu último lugar. Não demorou, entretanto, para mais gente chegar e entrar na espera.

No final da fila estavam um padre e um pastor, um à esquerda e outro à direita. Na sua vez, cada um solicitava os serviços de um dos ministros, recebia uma bênção e uma advertência sobre o inferno, depositavam uma quantia em uma caixa próxima e pulavam. Sem qualquer afetação dos presentes, passava-se ao próximo da fila.

Após seis ou sete pulos começou uma murmuração entre os que aguardavam. Ricardo, que se identificou como ateu, exigia o direito de não ser atendido por um padre ou pastor ao final da fila.

– Ninguém é obrigado a ser atendido. Ao chegar aqui, nos ignore e faça como achar melhor – disse o padre.

– A presença de vocês aí é constrangedora – replicou Ricardo. Nós somos livres em nossas convicções, ou pelo menos deveríamos ser. Ter sacerdotes no final desta fila fere a igualdade de direitos e de crença. Exijo uma palavra com o responsável da fila.

Um olhava para o outro, e ninguém lembrava da existência de um responsável pela fila. Alguém sugeriu eleger um, e como Ricardo tinha levantado sua voz e sido o mais notado por todos, acabou sendo eleito por uma apertada diferença. Sua primeira determinação como responsável pela fila foi criar uma fila nova para os ateus e mover a remanescente para um canto escondido, onde os ministros não seriam vistos pela maioria, impedindo possíveis constrangimentos.

A fila dos religiosos continuou enorme, mas agora terminava atrás de uma antena, em um lugar bem escondido. A fila dos ateus só contava com Ricardo, que exaltou a própria liberdade um pouco antes de pular.

Entre os que permaneceram na fila original começaram outras reclamações. Um muçulmano exigiu uma fila de atendimento exclusivo para sua fé. O responsável pela fila, Ricardo, já estava vinte e cinco andares abaixo, em pedaços, então tiveram que eleger outro, que após barganhar algumas posições na fila com os eleitores, conseguiu criar uma fila atendida por um sacerdote islâmico.

Seguiu-se uma série de pedidos de fila com atendimento exclusivo. Foram criadas dezenas de filas, umas com dois ou três na espera, outras com dez ou até quinze, cada uma com um ministro. Um cristão bastante esclarecido pleiteou o direito de restaurar a fila dos ateus, baseado nos ideais de Ricardo. O espaço para a fila foi reservado, mas ninguém o preencheu definitivamente. Vez ou outra alguém aparecia e pulava naquele espaço, geralmente por ter errado a fila que lhe cabia.

Com as filas em pleno funcionamento, um grupo de homossexuais subiu ao terraço, e exigiu o direito de ter seus membros atendidos pelos ministros de qualquer religião. Gays e mulheres grávidas se uniram, já que havia recusa em se permitir que mulheres pulassem com a criança. O pastor, o padre e o sacerdote islâmico negaram o pedido dos dois grupos,e acabaram empurrados do terraço. Foram substituídos por líderes progressistas, tão à frente de seu tempo e das pessoas ali presentes que se jogaram antes de todos. Houve caos, e ninguém ouviu os deficientes exigindo atendimento preferencial.

Após a confusão, todos se jogaram aleatoriamente, se espatifando no chão ou em cima dos outros cadáveres. Quando não restava mais ninguém no terraço, um oficial de justiça afixou na porta e em uma parede próxima uma ordem judicial suspendendo as atividades do local por irregularidades no atendimento ao público. Uma equipe de TV chegou para gravar um documentário sobre a luta contra a intolerância. O jornal local publicou no dia seguinte que o Nacional Essence Wood Boulevard era um lugar mais adequado ao suicídio. Entrevistaram João, que não tinha conseguido se jogar porque esqueceu o dinheiro da taxa que deveria ser depositada na caixinha.

Geni, A Prova Viva

Durante duas semanas inteiras os canais de televisão brasileiros transmitiram a intervalos irregulares trechos da vida e sofrimento de uma jovem estudante de Direito de uma grande cidade do país. A moça se chamava Geni, e tinha sido apedrejada no campus de uma universidade por um grupo de estudantes de História da Arte, auxiliados por alguns mestrandos em sociologia, que se encarregaram de jogar estrume em apoio às pedras.

Todos foram conduzidos para delegacia, exceto Geni, levada em coma para o hospital. Ninguém ficou preso por muito tempo, entretanto. O advogado do líder do grupo argumentou em juízo que os estudantes agiram orientados por uma música popular, reprentando dramaticamente um conhecidíssimo refrão, propagando a cultura em rede nacional, expondo a dor e humilhação das mulheres que dão para qualquer homem. Um juiz inocentou o grupo baseado em tal argumento, mas condenou o advogado e os rapazes a prestar serviços sociais por chamar a obra de Chico Buarque de “popular”, vulgarizando-a. Geni, virgem, morreu no hospital pouco tempo depois.

Geni nasceu normalmente na primeira década do século XXI, filha de Relair, um inteligente engenheiro e colunista político no tempo livre. Relair era um homem de raciocínio rápido e incisivo nas palavras, sendo bastante citado – a maioria das vezes negativamente, dada sua fama de “reacionário”.

Tinha como inimigos alguns ícones da esquerda, embora a maoiria deles não o conhecesse. Uma parcela, contudo, o conhecia bem e lia o que Relair escrevia, mas fazia questão de parecer o ignorar, além de responder aos pedidos de réplica de leitores em comum com um efetivo e desonesto “Relair quem?”.

Uma decisão importante e absurda da vida de Relair foi o nome de sua filha. Odiava Chico Buarque, e se cansou de ver o artista que tanto desprezva exaltado pela crítica. O engenheiro-colunista decidiu então mostrar para seus leitores e para a sociedade que na verdade Chico não fazia diferença. Batizou Geni sua filha, pretendendo demonstrar que a obra de Chico não tinha eco na vida de qualquer brasileiro. Sua pequena filha seria a prova viva que os “esquerdalóides”, como chamava seus adversários, eram inúteis. A esposa de Relair não se manifestou em contrário. Já não argumentava com o marido há dezesseis anos, e disse para algumas amigas que não quebraria esse tabu por tão pouco.

A primeira evidência que a ousadia de Relair daria resultados imprevistos se deu na escola. Na sexta série sua primeira professora de matérias relacionadas às ciências humanas repararou no nome Geni em suas listas de chamada. Procurou a menina, e pediu que enviasse a seu pai os “cumprimentos por ter a coragem de homenagear um artista brasileiro de tamanho quilate, ainda mais com um nome tão ousado, tendo em vista a subversão lirista do Grande Poeta na criação da personagem em questão”. Tais cumprimentos foram enviados em um bilhete, e copiados aqui ipsis litteris, incluindo a capitalização.

Geni gozava de prestígio nas aulas de filosofia, sociologia, história e geografia. Suas redações eram sempre lidas com destaque na aula de literatura. A essa altura Geni gostava dos benefícios que seu nome lhe trazia, ainda ignorando o motivo. Mas algo mudou profundamente após um evento em sua escola, em que participaram professores e pais. Relair compareceu, deixando bem claro que era Relair e porque era conhecido. Discutiu com todo o corpo docente, questionando sobre coisas que sua filha aprendia e vociferando contra o que entendia ser “doutrinação de crianças no seio da educação básica nacional”.

Ao identificarem o pai de Geni o tratatamento dado à moça pelos professores mudou. Agora a tratavam com frieza, e a chamavam entre si de “cria do reaça”. A animosidade começou a aparecer durantes as aulas, e os outros alunos absorveram a hostilidade dos professores, em um processo bastante comum nas escolas.

Em uma aula de literatura no último ano de Geni no ensino médio, a professora apresentou Geni e o Zepelim para uma análise poética, ciente da possível confusão que desencadearia. A aula não demorou a evoluir para a prática. Foi a primeira vez que jogaram pedra na Geni. Pedras simbólicas, evidentemente, representadas para alívio da vítima por bolas de papel amassado. A partir da explicação de seu pai e do delegado de plantão horas depois, Geni aprendeu o significado do termo bullying naquele dia, antes de entender a diferença política entre esquerda e direita e também sobre o que trata Geni e o Zepelim.

Eventos semelhantes aconteciam esporadicamente durante a carreira acadêmica de Geni que, amaldiçoada pelas próprias escolhas, contrariou o pai e entrou no curso de Direito de uma universidade federal. O trágico apedrejamento se deu em seu segundo ano de faculdade.

Relair viu sua prova viva morrer no hospital, desfigurada e com vários ossos quebrados. Mudou-se do país, dizendo-se perseguido, acusando a esquerda de ter matado sua filha para o calar. Mas nunca falou tanto como desde então.

Durante duas semanas inteiras os canais de televisão brasileiros transmitiram a intervalos irregulares trechos da vida e sofrimento de uma jovem estudante de Direito de uma grande cidade do país. A moça se chamava Geni, e tinha sido apedrejada no campus de uma universidade por um grupo de estudantes de História da Arte, auxiliados por alguns mestrandos em sociologia, que se encarregaram de jogar estrume em apoio às pedras.

Todos foram conduzidos para delegacia, exceto Geni, levada em coma para o hospital. Ninguém ficou preso por muito tempo, entretanto. O advogado do líder do grupo argumentou em juízo que os estudantes agiram orientados por uma música popular, reprentando dramaticamente um conhecidíssimo refrão, propagando a cultura em rede nacional, expondo a dor e humilhação das mulheres que dão para qualquer homem. Um juiz inocentou o grupo baseado em tal argumento, mas condenou o advogado e os rapazes a prestar serviços sociais por chamar a obra de Chico Buarque de “popular”, vulgarizando-a. Geni, virgem, morreu no hospital pouco tempo depois.

Geni nasceu normalmente na primeira década do século XXI, filha de Relair, um inteligente engenheiro e colunista político no tempo livre. Relair era um homem de raciocínio rápido e incisivo nas palavras, sendo bastante citado – a maioria das vezes negativamente, dada sua fama de “reacionário”.

Tinha como inimigos alguns ícones da esquerda, embora a maoiria deles não o conhecesse. Uma parcela, contudo, o conhecia bem e lia o que Relair escrevia, mas fazia questão de parecer o ignorar, além de responder aos pedidos de réplica de leitores em comum com um efetivo e desonesto “Relair quem?”.

Uma decisão importante e absurda da vida de Relair foi o nome de sua filha. Odiava Chico Buarque, e se cansou de ver o artista que tanto desprezva exaltado pela crítica. O engenheiro-colunista decidiu então mostrar para seus leitores e para a sociedade que na verdade Chico não fazia diferença. Batizou Geni sua filha, pretendendo demonstrar que a obra de Chico não tinha eco na vida de qualquer brasileiro. Sua pequena filha seria a prova viva que os “esquerdalóides”, como chamava seus adversários, eram inúteis. A esposa de Relair não se manifestou em contrário. Já não argumentava com o marido há dezesseis anos, e disse para algumas amigas que não quebraria esse tabu por tão pouco.

A primeira evidência que a ousadia de Relair daria resultados imprevistos se deu na escola. Na sexta série sua primeira professora de matérias relacionadas às ciências humanas repararou no nome Geni em suas listas de chamada. Procurou a menina, e pediu que enviasse a seu pai os “cumprimentos por ter a coragem de homenagear um artista brasileiro de tamanho quilate, ainda mais com um nome tão ousado, tendo em vista a subversão lirista do Grande Poeta na criação da personagem em questão”. Tais cumprimentos foram enviados em um bilhete, e copiados aqui ipsis literis, incluindo a capitalização.

Geni gozava de prestígio nas aulas de filosofia, sociologia, história e geografia. Suas redações eram sempre lidas com destaque na aula de literatura. A essa altura Geni gostava dos benefícios que seu nome lhe trazia, ainda ignorando o motivo. Mas algo mudou profundamente após um evento em sua escola, em que participaram professores e pais. Relair compareceu, deixando bem claro que era Relair e porque era conhecido. Discutiu com todo o corpo docente, questionando sobre coisas que sua filha aprendia e vociferando contra o que entendia ser “doutrinação de crianças no seio da educação básica nacional”.

Ao identificarem o pai de Geni o tratatamento dado à moça pelos professores mudou. Agora a tratavam com frieza, e a chamavam entre si de “cria do reaça”. A animosidade começou a aparecer durantes as aulas, e os outros alunos absorveram a hostilidade dos professores, em um processo bastante comum nas escolas.

Em uma aula de literatura no último ano de Geni no ensino médio, a professora apresentou Geni e o Zepelin para uma análise poética, ciente da possível confusão que desencadearia. A aula não demorou a evoluir para a prática. Foi a primeira vez que jogaram pedra na Geni. Pedras simbólicas, evidentemente, representadas para alívio da vítima por bolas de papel amassado. A partir da explicação de seu pai e do delegado de plantão horas depois, Geni aprendeu o significado do termo bullying naquele dia, antes de entender a diferença política entre esquerda e direita e também sobre o que trata Geni e o Zepelin.

Eventos semelhantes aconteciam esporadicamente durante a carreira acadêmica de Geni que, amaldiçoada pelas próprias escolhas, contrariou o pai e entrou no curso de Direito de uma universidade federal. O trágico apedrejamento se deu em seu segundo ano de faculdade.

Relair viu sua prova viva morrer no hospital, desfigurada e com vários ossos quebrados. Mudou-se do país, dizendo-se perseguido, acusando a esquerda de ter matado sua filha para o calar. Mas nunca falou tanto como desde então.

Schadenfreude

Há um estágio do incômodo provocado pela balbúrdia em que os sons não fazem mais nenhum sentido aos ouvidos, e cumprem exclusivamente a função de incomodar. Em um ambiente apropriado a tal extremo, os gemidos repetitivos de dois cantores sertanejos apunhalavam a compreensão de Fausto, enquanto pequenos alfinetes eram inseridos embaixo das unhas de sua paciência por duas vozes femininas que fechavam as duas pontas do arco do qual ele e Nei formavam o centro, em um canto meio escuro do bar. Por vezes Nei, gritando para ser ouvido pelas duas mulheres, acrescentava sua voz aguda e dolorida ao caos.

Em intervalos de tempo aleatórios, Nei e a mulher na outra ponta se entregavam a algum agarramento qualquer, o que geralmente dava a Fausto alguns minutos de alívio parcial, mas parecia incomodar a jovem loira ao seu lado. A loira tentava trocar algumas palavras, mas a conversa geralmente morria em alguma resposta monossilábica. Após o término de um curto período de beijos e conversas ao ouvido um do outro, Nei e a outra mulher notaram a situação e, já um pouco tarde, buscaram intervir.

– Amiga! – a parceira de Nei chamou a atenção loira. – Vá pra cima, acho que você vai ter que dar conta desse menininho tímido! – terminou gargalhando. Fausto irritou-se desproporcionalmente, como ele mesmo admitiria. Pensou em severos insultos à quase desconhecida por semelhante comentário, embora não tenha dado nenhum indicativo externo da sua revolta íntima.

– Esse aqui, minha filha, só se ele cantar em alemão pra mim agora – disse a loira, descendente de alemães e quase falante do idioma de seus avós, fatos que a deixavam bastante orgulhosa. Seu tom era esnobe – calculadamente, como denunciava o leve sorriso.

Todos riram. Até Fausto permitiu um movimento suave no canto direito da boca que escondia uma terrível explosão interior. A falta de conversa com a loira não era por desinteresse. Pelo contrário, Fausto estava bastante interessado, só que não queria que a loira não exibisse o mesmo desejo (mesmo que até para olhos pouco atentos, depois soube por Nei, ela realmente demonstrasse insistentemente). Mas as expressões de desdém daquele impecável rosto branco o tiraram ainda mais de seu estado normal. Não aceitou que ela aparentemente o rejeitasse. “Quem esse verme pensa que é para me considerar inferior, esfregando sua suposta ‘europeiazisse’ em cima de mim? Esnoba, rejeita e ainda me propõe desafios!”, pensou, nem tentando imaginar que a brincadeira da jovem pudesse indicar uma intenção inteiramente diferente.

Logo Fausto começou a cantar baixo, entre os dentes. Nenhum dos outros deu uma atenção especial ao fato. Segundos em seguida, as punhaladas de música pop cessaram, e os versos que Fausto cantava se fizeram notar.

… Menschen werden Brüder,
   Wo dein sanfter Flügel weilt.

Os outros três se voltaram pra ele ao mesmo tempo, um pouco incrédulos. A música ambiente não voltou antes que pudessem ouvir ainda uma repetição.

Deine Zauber binden wieder,
  Was die Mode streng getheilt;
Alle Menschen werden Brüder,
  Wo dein sanfter Flügel weilt.

Ao término, a loira arregalou os belíssimos olhos claros, e sorriu.

– Que bonitinho! – disse a loira, com as mãos nas bochechas. – Desculpe se fui grossa. Você me surpreendeu – disse entusiasmada enquanto tomava as mãos de Fausto.

Fausto notou a satisfação na expressão da jovem, e deu seu próprio sorriso de satisfação, mais uma vez de canto de boca. Os olhos e o sorriso da loira por um instante quase fizeram Fausto desistir de seus propósitos. Mas abandonando o instinto, voltou ao que conhecia como razão, aumentou o sorriso, e tirou suas mãos das mãos da loira.

– Sua vez – disse.

– Como? – a loira ainda sorria.

– Sua vez de pagar o preço.

A expressão da loira se tornou de dúvida.

– Ora essa – continuou Fausto com um calculado tom de sarcasmo. – Você me pede para cantar em outro idioma como preço para seu, digamos, carinho… você me fez pagar um preço por você, embora zombando de mim, tendo-me por um qualquer, um mero baladeiro idiota que quer apenas alternar ao longo dos fins de semana a cerveja que causa a ressaca e a mulher que dá prazer. Mas eu ganhei, e me provei acima. Completei seu desafio, e tenho pelo menos um beijo por direito, tendo visto inclusive que agora você estava disposta a tanto. Mas, claro, eu não sou gratuito, já que você não se mostrou gratuita. Cante uma música no idioma de meus ancestrais italianos. Sabe alguma?

A loira fechou a boca e olhou firmente para ele, bastante séria. Fausto a encarou por alguns segundos.

– Não? Veja, facilito pra você. Não precisa cantar, só recite uma estrofe qualquer de uma poesia italiana.

Os olhos da loira brilharam, e era perceptível sua raiva. Nei e a outra mulher assistiam calados e imóveis.

– Reduzo o desafio para meros dois versos – Fausto simbolizou o número dois com o polegar e o indicador. A loira reagiu imediatamente, e levantou, pisando tão duro quanto seu salto permitia.

Entschuldigung – gritou Fausto. A loira parou e escutou, de costas, esperando o anunciado pedido de perdão. Fausto montou uma expressão quase sádica no rosto antes de prosseguir.

– Não sabia que só eu devia pagar. Não sabia que você era esse tipo de mulher. – A loira pensou por um instante, abriu a boca como se fosse responder, mas acabou deixando apenas ar passar pela garganta. Saiu rápido, com uma mão na altura dos olhos, quase correndo. A outra mulher se levantou com pressa e seguiu a amiga.

– Meus parabéns e muito obrigado, retardado. O que você ganha com isso? E não pensou em mim, seu egoísta? Eu estava me dando bem. Agora ferrou pra você e pra mim. – disse Nei, em um tom mais de desânimo que de irritação.

– Mas meu orgulho segue intacto – respondeu Fausto. “Sou desafiado, canto Schiller à Beethoven para essa vadia e ela me diz ‘bonitinho’… pelo menos venci”. De relance, trocou um rápido olhar com a loira ao longe, que desviou o rosto transtornada, e se afastou ainda mais com a amiga. “Schadenfreude“, pensou sozinho, rindo. “Será que ela sabe o que isso significa?”.