Para Consumo Imediato

Textos fósseis adulterados

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Consigo concluir o texto após a terceira frase de efeito

Eu meio que sempre tinha algo a dizer, seja escrevendo, seja falando. Muita gente dizia que eu era uma pessoa quieta, o que eu não entendia. Às vezes falava tanto que o som da minha voz passava a me incomodar. Em algum ponto eu caía em mim e percebia que já emprestara os ouvidos da pessoa interlocutora mais do que deveria. Eu deixava as palavras saírem, primeiramente com os filtros dos freios sociais e da estética, mas depois era simplesmente uma corrente ininterrupta de dados comprimidos em gramática coloquial.

Como podiam dizer que eu era calado? E essa foi uma das primeiras constatações sociais que eu ouvi a meu próprio respeito. Logo nas primeiras horas do meu primeiro dia de escola, meus descuidados colegas da primeira série cochichavam estrondos nos ouvidos uns dos outros, não sei se sinceramente acreditando que ninguém ouvia ou se não se importando: “ele é bem quietinho”. E assim permaneceu meu patamar retórico perante meus pares nas décadas que se seguiram: o Teo é uma pessoa quieta, calada, na dele, reservado, de poucas palavras.

De todas as concepções erradas a meu respeito, essa é uma que nunca deixa de me surpreender. Não sei como tanta gente pode estar tão enganada sobre mim. Obviamente, me questiono ocasionalmente se não sou eu o errado, aquela velha história de limpar o próprio bigode se todo mundo cheirar mal. Mas já conferi, sim, os pelos abaixo do meu nariz e afirmo com convicção: eu falo demais, mais do que a média, muito mais do que deveria, mas muito menos do que gostaria.

Sim, eu gosto de falar, e sempre gostei. Aproveitei quase todas as oportunidades que tive de falar em público, para surpresa daqueles que colocaram em mim a (correta) pecha de tímido. Sim, sempre fui tímido para abordar uma pessoa, no um a um. Ou um contra um, como eu encarava: uma batalha na qual eu começava todas as vezes em desvantagem. E talvez venha daí o erro de análise dos meus amigos, mais um dos muitos erros de análise dos meus amigos, cujo primeiro costuma achar que ser meu amigo é uma boa ideia. Vendo-me gotejar palavras encarando o chão, tocando o rosto, suando e com um sorriso terrível entre lábios grossos e dentes tortos, tomaram minha timidez por silêncio. E essa imagem patética colou nas mentes simples apegadas a primeiras impressões.

Quando me colocaram para falar não para (contra) um mas para dez, cinquenta ou cem, as coisas mudaram. Obviamente eu tremia e ficava nervoso, obviamente eu suava, mas isso é algo inerente ao ato. A maioria das pessoas fica assim. Porém, nesse cenário, as palavras não saíam em engasgos, mas em vômitos. Sim, as analogias com cacoetes e fluidos corporais repulsivos não são por acaso, não quero dar a entender que minha fala era agradável, ou que eu dizia algo que prestasse, apenas que havia volume. Se era um pesadelo perguntar as horas para uma mulher passando despreocupada por mim, fazer um discurso era um desafio, mas algo que eu vencia com mais desenvoltura.

E o problema desse gingado de bancada é o poder de ser usado para qualquer patifaria. Falei de religião, muitas vezes coisas lamentáveis. Fiz piadas que merecem o esquecimento. Constrangi pessoas. Uma tentativa amaldiçoada de alcançar mais projeção social, dada minha incapacidade na relação interpessoal direta. Minha defesa contra o isolamento foi usar essa habilidade com um ocasional viés horrendo, e falo isso não como apologia, apenas como constatação. Quem puder me perdoar que me perdoe, é tudo que eu posso pedir.

Esse turbilhão eloquente também se manifestava na escrita, onde a calma e a paciência de poder redigir o texto e o corrigir em segredo antes que outras pessoas lessem me permitiu produzir coisas superiores a meu discurso falado corriqueiro. Escrevi coisas no final da adolescência que gosto até hoje, textos que considero melhores que as coisas que escrevo atualmente. Outras foram lixo desde o gênese, obviamente, mas bem, este registro é menos sobre qualidade e mais sobre o número. Originalmente, este texto constava em meu diário de desgraças genéricas do entorno. Este parágrafo modificado começa na palavra de número 30.611 naquele arquivo digital. Não que signifique algo relevante: do primeiro registro em 11 de dezembro de 2019 até a data original do texto não modificado, 27 de fevereiro de 2023, se passaram 1175 dias. Isso significa que, em média, escrevi 26 palavras por dia.

Parêntese. Aqui vão vinte e seis palavras: “eminências de sombria pedra e a vegetação selvática debruçavam sobre o edifício um crepúsculo de melancolia, resistente ao próprio sol a pino dos meios-dias de novembro”. Trata-se de um trecho incrustado no meio de O Ateneu, em um princípio de descrição do colégio que nomeia o romance.

Seguem agora, também, vinte e seis palavras: Não vou deixar me abalar/Mais uma noite, carnaval/ No Brasil, só na moral/Diga lá então/Na moral, na moral, só na moral/Na moral, escritas por, tive que conferir, Paulo Alexandre Amado Fonseca, Rogerio Oliveira De Oliveira, Marcio Tulio Marques Buzelin, Gerson Raimundo Pires Rodrigues, Paulo Roberto Diniz Junior, Marco Tulio De Oliveira Lara, Wilson da Silveira Oliveira Júnior. Um notório esforço coletivo de sete pessoas que certamente rendeu mais dinheiro do que Raul Pompeia ganhou com seu livro peculiar.

Fecha parêntese. Tudo se resolve com números hoje em dia (e talvez se resolvia assim também antes, as pessoas só sabiam menos disso), mas eu não tenho quantificações pra fazer. A constatação é simples, eu escrevia mais e falava mais, e também era mais tímido. Hoje consigo falar bem mais com as pessoas na modalidade duelo. E como isso não é mais um fardo a se carregar, mas uma atividade corriqueira, posso talvez abandonar as figuras bélicas de linguagem. O que constato pra terminar é que nada é de graça. A timidez se foi e levou com ela uma bagagem cheia de palavras, em papeis impressos e sons, em ideias e em formas prontas. Melhorei como pessoa, objetivamente, não me custa admitir, às custas de piorar como, bem, por extensão, artista.

Por certo, acredito que ninguém vai reclamar disso. Não que eu acredite em alguma coisa dessas, é importante ressaltar, uso apenas como recurso estético, deixando as palavras saírem no teclado, algumas que não foram junto na mudança da timidez (eu já disse, não acredito nisso). Mas eu perdi a chance de terminar esse texto com uma boa frase em “Por certo, acredito que ninguém vai reclamar disso” apenas para fazer essa nada importante ressalva, agora preciso de outra pra terminar.

Sim, essa: é bom usar um diário para fazer um registro normal de vez em quando, não como o diário de bordo de uma nave fascista desgovernada. Evidentemente, a outra era melhor, eu sei, essa é até meio deslocada desse texto específico, embora funcione no contexto geral do caderno digital que guardo oculto, e assim permanecerá. E lá se vai outra chance de terminar esse texto. Talvez eu nem queira terminar agora que eu achei essas palavras caídas aqui, deixadas pra trás para que eu as jogasse em algum espaço vazio e fizesse daquele canto sem graça um altar decorado.

É, eu sei, um altar pra mim mesmo, só se for.

Bem, consegui.

O Bruxo

Insone e imóvel na cama, vi luzes entrando pelas frestas da janela, e ouvi muitos passos e murmúrios abafados do lado de fora. Permaneci como estava, achando que terrores noturnos vieram fazer companhia, pois há solidões tão densas que até a companhia de uma assombração é tolerável e dispersante. Há um estágio do ódio a si em que me agradaria mais um fantasma meio hostil que eu mesmo como companheiro para passar a noite. Mas quando as assombrações começaram a gritar ofensas e acusações implausíveis, daquelas que só humanos encarnados e em grupo têm audácia de lançar aos berros na noite, resolvi espiar pelo canto da cortina, descobrindo uma multidão com tochas e porretes cercando minha casa, exigindo a minha rendição “enquanto bruxo”.

Contrariando o manual de ação dos bruxos reais, um documento tão legítimo quanto minha magia, abri a janela para confrontar os invasores do meu quintal. Tão logo minha cara brilhou à luz do fogo, uma pedra completou sua parábola na minha sobrancelha esquerda. Senti, entre dores e luzes confusas, um fio de sangue descer pela minha bochecha. Outras pedras voaram errando o alvo, me dando chance de fechar uma das folhas de madeira e me abrigar atrás dela. Por uma fresta consegui olhar lá fora e identificar a cidade inteira pisoteando minha grama. Até a Lua se mobilizou e apareceu uma hora mais tarde que no dia anterior, e com um pedaço a menos, que talvez fosse aquela rocha que por pouco errou meu olho e que a cretina arrancou de si mesma para me acertar.

E que digníssimo bruxo era eu, abrigado atrás de um brise, sangrando pela testa, tonto e com dor de cabeça, há três noites sem dormir, assustado pelo prefeito, pelo padeiro novo, pelo frentista velho, pela advogada e pela Lua, os líderes da turba, pelas tochas e pelas pedras que às vezes entravam pela metade aberta da janela e acertavam algum item de mobília. Os pensamentos que circulavam atrás da concussão me diziam que não podia tanta gente corriqueira, honesta e de autoridade estar tão errada, e que possivelmente eu conseguiria explicar, fosse lá que diabos estivesse na minha conta. Como um sensato e poderoso bruxo de minha experiência e classe, conjurei um feitiço chamado Rendição e saí pela porta da frente com as mãos para cima.

“Abaixe as mãos!”, comandou o gerente do supermercado me apontando um porrete. Um estranho comando para um rendido, que geralmente levanta as mãos para indicar que não há ameaças ocultas. “Abaixe as mãos, não vou deixar você nos amaldiçoar”, comandou novamente, se fazendo entendido. Abaixei as mãos ao longo do corpo, deixando as palmas voltadas para o chão, como quem pede calma. “Não diga nada, não vá lançar nenhum feitiço”. Eu estava exposto, apenas de calção, tremendo de frio, mas obedeci e não lancei nenhum feitiço, exceto um bastante conhecido da minha escola arcana, o Feição Interrogativa.

O prefeito, porém, conjurou “amarre as mãos e tape a boca dele”, e pela magia da subserviência seu assessor me atou as mãos e pôs uma mordaça em minha boca, com ajuda do investigador e do diretor do fórum. Empurrado pelo caminho que levava ao centro da cidade, fui sendo feito de alvo, e repentinamente na cidade todos se tornaram precisos na pontaria, me acertando frutas e legumes podres, cuspe e dolorosos xingamentos. A Lua subia no céu, acompanhando o cortejo, escondendo as estrelas à sua volta, talvez minhas únicas amigas, que se abrigaram para não ver a vergonha do meu estado.

Na praça central o secretário de obras supervisionava a fixação de um poste em um canteiro. Eu passei pela praça à tarde, e o poste não estava lá, o que me fez parar de questionar a incompetência de quem demorava meses para fechar os buracos nas ruas. Ora essa, não faltava poder ou capacidade, apenas vontade. Braços sem rosto me empurravam em direção ao poste, apenas um pedaço de madeira, mas contextualmente sombrio como a morte, como era de se esperar.

E lá me amarraram, bem apertado, com os braços para trás. Incrédulo assisti a crianças trazendo feixes de gravetos secos e depositando ao meu pé. Concordei comigo mesmo que aquele era meu pior momento da noite, e também assenti com a minha própria pessoa que ele assim permaneceria na liderança até que as chamas subissem pela madeira e tocassem a minha pele. Estranhamente, acabei salvo pelo fogo, já que alguns jovens protestaram contra a ideia de fazer uma fogueira e estragar o gramado da praça, que tão verde estava devido às últimas chuvas, e tão bem aparado. Outros ainda lembraram que os gritos poderiam assustar as crianças, e o cheiro de carne queimada seria perturbador.

A menção a carne até me lembrou que estava com fome. Um calafrio se seguiu ao pensamento. Ter fome diante da sugestão da própria carne queimada era uma ideia de bruxo? Minha execução, se não justa, pelo menos se sustentaria em acusações verdadeiras? Ora essa, os habitantes de uma pequena cidade da Amazônia brasileira no início do século XXI me amarraram a um poste e estavam prestes a me queimar como praticante das artes mágicas, eu podia me permitir o luxo de ter divagações confusas.

Após os protestos contra o fogo, foi consenso, para meu alívio, que era melhor que eu fosse enforcado. Poucas pessoas sentirão a graça deliciosa de estar amarrado ao poste com os pés na lenha seca apenas para descobrir em seguida que será pendurado pelo pescoço a uma corda. Há mortes e mortes, bruxos sabem muito bem. Mas novo impasse se estabeleceu. Enforcar-me onde? O poste não era um suporte adequado para meu pescoço amaldiçoado, inadequado para se pendurar um ser humano por uma corda. O secretário de obras saiu com dois funcionários da prefeitura e o dono de um depósito de madeiras. Voltaram meia hora depois com três longas vigas, e umas tábuas menores.

Paciente, conformado por não ser queimado, assisti o lento trabalho das pessoas levantando os dois postes que sustentariam a viga que me suportaria. Novo atraso se estabeleceu pois ninguém lembrou de trazer uma ferramenta para cavar os buracos onde se posicionaria os postes. E mais um protesto, pois a médica do posto de saúde não queria esburacar a grama que se evitara queimar. Fazia todo o sentido, e resolveram construir a forca numa área arenosa da praça, onde já se jogou vôlei de areia, lugar onde agora crianças brincavam umas com as outras e com bichos geográficos.

Conseguiram fixar os dois postes nos buracos quase às quatro e cinquenta da manhã. Sabia das horas, pois o guarda da escola a todo instante perguntava as horas para um lojista ao seu lado, e ambos estavam bem próximos de mim. O guarda estava obviamente impaciente para ir embora, já que um bruxo na cidade é um incômodo muito menor que um plantão noturno. Quando fixaram as tábuas nos ângulos entre as vigas para melhor sustentação do meu corpo, já era dia e as pessoas começaram a se retirar da praça e ir para suas casas. Isso não me surpreendeu, mas estranhei que tenham me deixado lá amarrado, e que três horas depois voltassem a circular para a cidade, ignorando a forca, ignorando-me amarrado a um poste, como se nada se passasse.

Lá pelas nove horas da manhã senti mexerem na corda atrás de mim. Notei as mãos mais livres e me desvencilhei da corda, com pressa, mas sem conseguir velocidade. Demorei a me livrar completamente, ainda com medo que alguém corresse e me impedisse. Não vi ninguém suspeito de me libertar quando enfim me virei. Todos continuavam agindo com se nada acontecesse. Tomei o rumo de casa, passando por dezenas de pessoas que me conduziram como condenado à morte pelas ruas da cidade. Algumas nem olharam pra mim, ou deram atenção à minha passagem. Outras até me acenaram um cumprimento, e ainda outras, sem qualquer afetação, me desejaram bom dia. Não querendo contrariar executores vorazes (embora, é verdade, um pouco burocráticos e indecisos), respondi cordialmente.

Subindo a rua de minha casa alimentava a profunda esperança que tudo fosse uma alucinação. Havia adições ao meu chá da tarde do dia anterior que podiam ter efeitos um pouco imprevisíveis. Mas as pedras e coisas quebradas no meu quarto davam testemunho de um acontecimento real, assim como o ferimento na testa, que indicava que pessoas desejaram bom dia para minha cara ensanguentada, enquanto eu me encontrava sujo de polpas de frutos podres e terra e apenas de calção, e estavam bem com isso. Tranquei bem as portas e janelas, tomei um banho, cuidei do ferimento, comi uma banana e dormi no sofá da sala, sem me lembrar que sofria de insônia. Arrumaria meu quarto depois de descansar. E como eu precisava descansar. Não entendia como aquelas pessoas sumiram por duas ou três horas depois de passar a noite buscando formas de me matar sem chocar os sentimentos morais e ambientalistas dos moradores e voltaram tão dispostas para a vida.

Meu estômago me acordou com um ronco grave no meio da tarde, exigindo alimento. Não tive a menor intenção de não atender a demanda, mas não queria sair para comer pela cidade. Cozinhei um almoço simples, arroz, ovo, tomates e descongelei uma porção de feijão. Comi e sentei no sofá novamente. Nenhuma ideia sobre o que fazer, ou o que falar, ou com quem falar. Vi vários amigos com pedras na mão à noite. Decidi pelo menos que era melhor montar guarda e preparar uma rota de fuga caso viessem. Não lembrava que horas o relógio marcava quando me levaram. O guarda da escola deveria ter ficado sempre do meu lado. Lembro da Lua nascendo, e talvez a Internet me dissesse que horas a Lua nasceu na noite anterior, mas eu já estava com sono por pensar em montar guarda de madrugada, e logo dormi de novo.

Acordei sobressaltado, após pesadelos confusos, ouvindo o ruído de passos na rua, um som que jamais teria me acordado em situações normais, mas que no meu estado imediato de atenção era um estrondo de muitos trovões. Por uma fresta do meu agora tradicional brise-escudo, observei uma multidão semelhante à da noite anterior subindo a rua, passando à frente de minha casa sem qualquer afetação na direção do meu gramado pisoteado. Uma mulher, entretanto, mais um rosto na multidão que eu achava que já tinha visto em algum lugar, mas não saberia nomear ou lhe atribuir profissão ou local de trabalho, olhou diretamente para a fresta por onde eu espiava e fez um claro movimento com a mão no sentido de “venha você também”.

E para a total incredulidade e assombro do arquimestre fictício da minha inexistente escola de magos, contrariando todos os conselhos que ele poderia ter me dado caso fosse uma pessoa caminhando no mundo real, me vesti e saí à rua. Bem vestido, a propósito, adequado à ocasião, qualquer que fosse, já que a comitiva numerosa que transitava pela rua era, como a do dia anterior, de trajes adequados ao trabalho ou à igreja. Não queria chocar ninguém aparecendo novamente no meu calção amarelo que servia como pijama em noites preguiçosas.

Juntei-me à multidão caminhante e ninguém pareceu dar atenção à minha presença. Identifiquei mais à frente a mulher que me fizera o sinal, mas ela não olhava para trás, nem para os lados. Ninguém dizia nada, e a procissão era até bem organizada, sem encontrões ou pisões nos pés mais desatentos. Não sei o que havia com a memória da cidade, ou se todos eram altamente sensíveis a bruxaria e todos os meus poderes desapareceram desde o nascer do Sol, e eu já não era mais bruxo. Já sentia saudade de minhas habilidades mágicas, foi bom tê-las por uma madrugada insana. Mas agora a vanguarda da comitiva parava em frente a uma casa. Um rito de vozes de comando e pedradas se estabeleceu, uma cópia da noite anterior, mas agora com alvo distinto. Logo ficou claro por uma pequena correria à frente que este bruxo era também ladino, e tentava fugir. Foi agarrado pelo investigador, entre gritos do delegado e do promotor. Logo o guarda da escola chegou em auxílio e segurou o homem para que fosse algemado. O guarda cochichou algo para o investigador, que olhou para o relógio de pulso e respondeu baixinho.

Legumes e ovos da feira de duas semanas atrás começaram a voar na direção do detido, que agora, mais próximo, consegui identificar. Era um dos locutores da rádio, peculiarmente o do programa evangélico. O padre estava mais animado que no dia anterior, e liderava algumas ondas de ataques com mangas muito maduras colhidas na mangueira atrás da igreja católica. Descendo a rua e virando a avenida em direção à praça, seguiu a multidão no mesmo caminho em que eu fui conduzido em vergonha vinte e quatro horas antes.

Sendo a minha salvação na noite passada as confusões logísticas, o locutor parecia condenado a uma morte que seria pelo menos rápida agora. A forca ainda estava na quadra de areia, no mesmo lugar onde foi deixada na minha noite de desespero. A Lua só aparecia agora, com uma hora de atraso, e sem mais um pedaço, já nos finalmentes da execução, quando o locutor, chorando e lembrando de Deus, era levado ao alto de um banco de madeira, e alguém subia por trás para passar a corda pelo seu pescoço.

Concentrado nas preliminares de uma morte certa, não notei a mulher do sinal se aproximando. “Não se preocupe, ele não vai morrer”, ela disse. “Eu cuidei disso durante o dia”. Ela deu um sorrisinho que achei meio cretino, e, me custa admitir, me irritei por ter perdido o exato instante em que um cabo da PM chutou o banco. A corda esticou até o limite, a viga cedeu feio em um canto e o homem caiu na areia, pés primeiro, cara depois. Rolou cuspindo terra e alguns aleluias engasgados, agradecendo a Deus pelo livramento. “Não precisa me chamar de Deus”, a mulher do sorriso cretino sussurrou para mim.

O guarda da escola já se preocupava de novo com as horas, e o secretário de obras coçava a cabeça vendo o homem amarrado e a viga quebrada. “Isso aí vai demorar pra resolver”, constatou desanimado. Alguns já iam embora. A sorridente misteriosa se retirava, mas pedi que esperasse. Tentei a segurar pelo braço, mas ela se desvencilhou contrariada. “Não me puxe, não faça nada drástico. Não chame a atenção nessa hora”. E eu só consegui pensar em perguntar “O que está acontecendo afinal?”.

Revelando-me algumas coisas, ela mesma uma bruxa, poderosa e antiga na magia, passei a entender. Tinha ela escapado de uma morte terrível na época da fogueira. Passara a ajudar os bruxos da vez em sua noite de agonia, sempre oculta e jamais agindo como feiticeira. Pois os que chegavam mais rápido à corda agora eram aqueles que tentavam argumentar com os executores. Passei a ajudar no infame trabalho noturno nos primeiros três dias de lua cheia. Por mais duas vezes tive a corda no pescoço, e passei até a aproveitar o passeio. Seguimos assim, recrutando novos bruxos, salvando uns aos outros, e deixando a turba seguir o seu caminho. Claro que não dava para salvar todo mundo. Fizemos o possível para ajudar o saxofonista da Assembleia de Deus, mas ele não ficava quieto, lutava demais, brigava demais, falava em línguas demais. Foi linchado antes de chegar à guilhotina da praça, que já tínhamos sabotado duas vezes naquela lua cheia.

Nosso trabalho era esse, inutilizar o equipamento de execução e acalmar discretamente o bruxo da vez, e de vez em quando ajudar a se livrar de amarras ou cuidar de ferimentos no dia seguinte. “Não lute, deixe o pessoal fazer o quiser, lá na frente vai dar tudo certo” eram as nossas palavras mágicas da noite quando o réu estava muito tenso. Assim, a verdade é que no geral a coisa ficou tão próxima da vida normal que em alguns meses nem notávamos mais a diferença.

Às Cinco

Caminhando às cinco da tarde, mais cedo que o horário de costume, mas protegido da radiação solar por nuvens providencialmente a Oeste, meu fim de tarde se aproximava do pôr-do-sol no ritmo acelerado e entrecortado dos sonhos. Ji-Paraná é uma cidade avessa a pedestres, maltratando-os com suas calçadas desalinhadas ou inexistentes, meios-fios tomados por ervas daninhas ou sujeira deixadas por humanos inescrupulosos ou cães desatentos.

Mas sonhos adequados ao termo não se prendem apenas aos avessos, pois assim seriam pesadelos incômodos. E enquanto caminhava numa ruazinha qualquer da vizinhança, de calçada desprezível, empoeirada, cheia de mato e alinhada com alguma subdivisão entre o Norte e o Leste, entrei, no intervalo entre um passo e outro, em um lugar distinto, embora fosse o mesmo de antes, em compatibilidade com o que se espera dos sonhos.

O Sol ainda estava atrás das mesmas nuvens, o ar era o mesmo, o tempo era o mesmo, mas o chão tinha vias estreitas cortando um gramado, pavimentadas com pedras claras. Árvores ao fundo cobriam o fundo do terreno, e o gramado tinha arbustos e árvores menores podadas em formas simétricas. As vias formavam caminhos que levavam a uma fonte circular no meio do jardim. Ao lado da fonte, trajando um casaco escuro, J. R. R. Tolkien, abrindo um amplo sorriso, acenava para mim com uma mão enquanto segurava o cachimbo com a outra .

Sonhos não têm os cuidados literários de seus portadores despertos, nenhum apego lírico, e nenhum senso estético. Para o deleite de quem vê em cada elemento do sonho um arquétipo ou um significado por interpretar, quis o Oneiro roteirista que eu encontrasse um inglês às cinco da tarde. Mantendo-se no personagem, Tolkien me cumprimentou cordialmente e me lançou o convite:

– Entremos. Aceita chá? – Tolkien me anunciou, completamente em português brasileiro, embora ainda no conhecido tom de voz que recita o poema Namarië em Quenya, a língua dos alto-elfos. Quenya se parece mais com português que com inglês e a voz de Tolkien soou perfeita no idioma falado nas margens do Brasil, tão familiar para mim.

Nos assentamos em sofás confortáveis em uma pequena sala cuja porta dupla dava para o jardim, visível através de pequenos painéis de vidro e por uma janela. Servindo-me do bule que fumegava sobre a mesa de centro, tomei do chá enquanto iniciava a conversa, que não tinha tema definido, nem palavras definidas, para o desconsolo posterior de minha consciência acordada. Mas em um trecho Tolkien se fez compreensível.

– Li o texto que você escreveu… – alcançando um bloco de folhas grampeadas que estava ao seu lado no sofá, Tolkien começou a folheá-las. Ansioso, aguardei que continuasse com sua opinião sobre o que eu escrevia, já em parte satisfeito por Tolkien ter uma cópia consigo em seu sofá.

– Não gostei. Tudo o que você escreveu é pretensioso e chato para ler. – Ri bastante. Contei como tinha tentado escrever fantasia no passado, e como não tinha gostado do resultado.

– É um trabalho para europeus – concluí, sem obter concordância. Tolkien comentou algo que me fez rir mais, e continuou pronunciando algo em sons que não formavam palavras enquanto eu despertava, para minha nova decepção, sem concluir a conversa. Acordei sorrindo, e ri mais vezes ainda antes de voltar a dormir, feliz e realizado. Ora essa, eu tinha falado com Tolkien.

Longe da Cabeça

Sentindo-se engenheira, construindo sobre a exatidão de um edifício de letras que vibravam na frequência dos sons das últimas sílabas de versos alternados em ritmo definido, a Mão pontuou a última linha de sua construção, onde cada símbolo montava sobre o anterior como elemento mínimo de uma parede orgulhosamente curva e impossível, não como numa palavra que transmitisse uma informação. E não havia mesmo algo a contar no amontoado clássico de métrica e fonética, uma estrutura preenchida apenas pelo prazer de levantar um prédio de rabiscos, empilhando tijolos de consoantes, unidos com argamassa vocálica entre pilares de pontos e vírgulas. Sentindo-se engenheira, agora contratada para demolir o monumento inconveniente e indesejado, a Mão amassou o papel e o descartou, pois não era poeta na forma.

Sobre um papel novo, sentindo-se amante, a Mão escreveu a respeito de si e a respeito dos outros, ainda em versos, mas fugindo da exatidão. Perdeu sua régua e sua calculadora, deixou sílabas vazarem além da métrica e permitiu que as letras formassem palavras, termos escolhidos por intenções inconfessáveis e não pela rima ou comprimento. Antes escrevia com caligrafia impecável, seguindo linhas horizontais e alinhando as sempre maiúsculas iniciais na margem invisível mas óbvia. Agora esquecia-se das maiúsculas, não alinhava, rabiscava, aumentava ou diminuía a letra como queria, escrevia mais suavemente quando suspirava ou quase rasgava a folha em raivas momentâneas. Encheu margens e bordas com substituições, perdeu a ordem dos versos e terminou, contemplando seu interior. E o odiando com o ódio que se reserva a um inimigo sagaz. Sentindo-se traída, rasgou o papel e o descartou, pois não era poeta no espírito.

Começando de novo, sentindo-se importante, a Mão escrevia enquanto cantarolava, tentando encaixar as palavras que surgiam em uma melodia. Escrevia acordes espaçados, prevendo a harmonia que preencheria os espaços vagos da sua expressão limitada na linguagem. Entendeu que talvez precisasse de mais de um idioma para enfim dizer o que precisava, agradando os ouvidos com um e a mente com ambos. Via-se além do trabalho imediato naquele papel, dedilhando cordas para uma plateia agradecida. Ajustou os últimos pontos faltantes, mas a melodia a incomodou, e o texto não fazia sentido sem a música. Tentou mudar os acordes e as notas da linha melódica, apenas piorando o resultado, tanto para as orelhas quanto para a compreensão. Sentindo-se inútil, a Mão jogou o papel para um canto, pois não era compositora.

Diante de outro papel virgem, sentindo-se visível, a Mão riscava, desta vez sem letras, sem música, mas com linhas que moldavam algo. Formas se uniam, montando objetos, que se tornavam sistemas, entre coisas protagonistas e pessoas de cenário. Livre das algemas do idioma, desimpedida das restrições do texto, sentia que sua mente se fotografava no grafite. Fotografias também falham, e a borracha ajudava a corrigir os desvios. Era apenas uma mão, e como ficava longe da cabeça algo sempre se perdia no caminho. E talvez se perdesse demais, pois os rabiscos eram infantis e deselegantes, fortes demais, borrados em excesso, sem nexo e sem propósito. Fotografava sua mente, mas a maldita era nada fotogênica, ou não se rendia à sua incompetência. Sentindo-se espectral, a Mão rasurou sua tela, escondendo a vergonha atrás de uma superfície ampla de desperdício de grafite, pois não era desenhista.

Noutro papel em branco, sentindo-se honesta, a Mão contou uma história. Logo percebeu a superioridade da conveniência, escondeu sua incapacidade sob um tapete estético, e pelo bem da narrativa cortou parágrafos diligentemente verdadeiros. Não era artista, sabia, e continuava insatisfeita, porém conformada. Sentindo-se desonesta, não descartou o papel, pela primeira vez, pois sabia enfim o que era. “Sou assim, que vá assim mesmo”, pensou, mão que é, distante da cabeça.