Para Consumo Imediato

Textos fósseis adulterados

Categoria: Inéditos

O desprezo de Aluísio Lima e Silva por epitáfios e outras homenagens póstumas

Aluísio contemplava entediado seu corpo morto sobre a maca da enfermaria número sete, se tornando ele mesmo o primeiro a receber a notícia do próprio falecimento, exatamente quatorze minutos antes do enfermeiro de plantão, Ubaldo Otávio Rodrigues que convocou os técnicos em enfermagem Jonas Leal Machado e Hilda Carneiro Gonçalves e suplicou ao médico plantonista Carlos Zaqueu Völler Hertz para tentarem inutilmente a reanimação do ex-paciente, agora já cliente da funerária da noite. A consciência do além de Aluísio bocejava e olhava atento os crachás, decorando rostos e nomes daqueles que declararam sua morte às duas e nove da manhã, cobrindo seu cadáver com a dignidade do lençol branco e verde onde se estampava o logotipo do Hospital Central, um nome pouco criativo e altamente mentiroso, já que o estabelecimento onde se vendia saúde a preços nada salutares nada tinha de central, nem na posição geográfica da cidade nem como reconhecido centro de excelência.

Até por isso Aluísio o escolhera para morrer. Seu plano de saúde permitiria melhores prontos socorros, com melhores equipes de enfermeiros atentos e médicos acordados, mas tal fato poderia resultar no seu indesejado salvamento, adiando seus planos para uma nova crise. Pois Aluísio estava ciente da gravidade de sua situação desde as onze da manhã de onze de julho, que ele achava uma data adequada para morrer, uma terça-feira sem quaisquer novidades ou diferenças em relação ao dia anterior, dez de julho. Embora, de fato, tenha morrido no dia doze de julho, uma quarta-feira igualmente sem ressalvas ou alterações, num destaque irrelevante, já que datas e horários não têm importância central no relato que se inicia.

O certo é que, ao perceber que morreria nas próximas horas, Aluísio fez o que planejara para esse dia, isto é, exatamente a mesma coisa que fazia todos os dias. Esperou até o meio dia e almoçou arroz, feijão, macarrão ao alho e óleo, tomate, pimentão, alface e carne de panela, acompanhado de Coca-Cola, um almoço que continha pelo menos quatro ingredientes proibidos por sua nutricionista já há doze anos. Passou a meia hora seguinte lendo notícias no celular ainda na mesa do restaurante, como fazia sempre em dias de expediente. Olhou a previsão do tempo para o dia seguinte, em uma ironia que lhe passou despercebida, afinal admitia, por honestidade intelectual, que poderia estar errado. De volta ao trabalho, cumpriu com suas funções até às dezoito horas. Dirigiu para casa, parando no caminho para encher o tanque do carro, em mais uma prova que admitia sinceramente que poderia ter se enganado.

Após tomar um banho completo, vestiu uma camiseta simples e uma calça jeans que achava confortável. Calçou um tênis leve, passou hidratante na espessa barba já com pelos brancos às dezenas e, sem dizer nada a ninguém, rumou para o Hospital Central para morrer em ambiente controlado. Ria no caminho pensando nas vezes em que no passado fora comparado a um gato dada uma série de comportamentos felinos que lhe atribuíam. Ninguém sabia, mas planejara morrer como um gato velho, que desaparece da vista dos donos, deixando saudades e incertezas. Aluísio sabia que era gato apenas no método, e que não deixaria saudades e muito menos incertezas. Gatos velhos, que sobreviveram às doenças agudas, às brigas de telhado, aos cachorros, aos veículos na rua e aos humanos violentos, se prestam a desaparecerem dignamente, mas pessoas humanas precisam deixar registros e atestados, certezas cartoriais necessárias mesmo para um homem solitário de quarenta e dois anos que, se deixaria suas certidões finais para fins de espólio e procedimentos post mortem, pelo menos sabia não deixar alguém chorando atrás de si por sentir sua falta.

Não que ninguém o conhecesse. Mal sabia, mas Tadeu Hilário Machado, pessoa completamente sem relação ao técnico de enfermagem Jonas, o profissional que aplicara o último soro na veia do braço esquerdo de Aluísio, sentiria sua falta por vários anos. Tadeu era dono do apartamento onde Aluísio vivera por cinco anos de aluguel pago maquinalmente em dia, um cliente de tipo raro, um tipo que não voltou a alugar o imóvel no sexto andar do Moradas da Alvorada, um prédio de nome pomposo onde moravam estudantes, servidores públicos solteiros, aposentados e pragas urbanas, estas últimas em uma função inversamente linear do andar.

Também deixou escapar uma lágrima avulsa Matias Gobbi Feitosa, vizinho de mesa no setor de Aluísio. Matias era um servidor público audaz, embora apenas quando não estava no trabalho. Motociclista convicto, fã inamovível de Deep Purple e The Doors, montava nos fins de semana em sua Honda Shadow para tradicionais trezentos quilômetros de rumo ignorado, massacrado pelo Sol, um objeto astronômico que não via no colete de couro de Matias impedimentos para brilhar forte. Também montava durante a semana, nesse caso no trabalho lento e meticuloso de Aluísio, que preferia fazer o serviço de ambos que ter que fazer o seu e refazer o de Matias logo depois. Não eram amigos, mas conversavam constantemente sobre assuntos que Aluísio fingia entender. A lágrima unigênita não revelou a que veio, se lamentar pelo colega ou pelo volume de trabalho acumulado.

Aluísio não lembrava do trabalho, e aparentemente esquecera até o nome do órgão em que trabalhava. Seu espírito, agora já saindo pela recepção do hospital, onde Simone Farias Toledo Munhoz preenchia formulários eletrônicos no computador, não sabia se momentos antes, quando ainda estava vivo, tinha esquecido seu próprio local de trabalho, ou se informações irrelevantes eram deixadas pra trás no momento da morte. Dali planejava sair para a funerária de plantão, mas imaginou que o transporte do corpo levaria algumas horas, então não havia pressa. Sentou, não porque espíritos se cansem, mas porque mesmo no além o ato de contemplar pede esta posição onde pernas e razões se cruzam para chegar a um veredito na maior parte das vezes precipitado e irracional. Procurava um lugar para ir enquanto esperava seu corpo. Não se lembrava onde morava, ou seja, era irrelevante procurar sua casa e assim o primeiro local que sua mente etérea imaginou foi o apartamento de Lorena Barbosa da Costa.

E aqui se descreveria a cidade de Aluísio, suas ruas, praças, prédios e parques, seus becos e personagens da madrugada dos dias de semana, quer-se dizer, pelas práticas ocultas dos contistas, a aldeia idealizada de quem conta. Mas isso seria se Aluísio estivesse vivo, e como a primeira coisa que este vil e pequeno Brás Cubas fez foi morrer em sua própria história, não estava preso às limitações de rotas de seus pares viventes. Pois Aluísio abandonou suas travas éticas de vivo, ignorou as ruas e paredes, e fez uma linha reta até a casa de Lorena, passando por dentro das edificações no caminho. A maior parte de seu trecho foi em quintais, e em nenhum deles, contrariando o senso comum, foi percebido ou incomodado pelos cachorros domésticos. Os vira-latas nas ruas também pareciam não o enxergar ou farejar. Gatos passavam diretamente por ele e não alteravam a posição de nenhum pelo.

Embora fosse uma atitude antiética, Aluísio não fazia questão de bisbilhotar. Passou pela sala de um velho acordado, por cima da cama de um casal fazendo sexo, por uma moça que fazia maratona de um seriado na TV, por uma cozinha cheirando mal de louças sujas, o que o fez perceber que ainda tinha olfato. Imaginou se ainda teria paladar, mas decidiu não fazer tal teste naquela cozinha. Não convém mencionar a quantidade de quartos que passou onde gente dormia, e se alguém se assusta com essa possibilidade, de um espírito de passagem rumo à casa de uma ex-namorada estar à espreita no quarto escuro, já de antemão trato de tranquilizar a inquietude: Aluísio não tinha a menor intenção de se comunicar com qualquer pessoa, e não parecia ter qualquer habilidade para tal, já que os acordados não se alteraram minimamente com sua passagem.

Enquanto subia as escadarias do prédio de Lorena, já que não era capaz de chamar o elevador, lhe ocorreu se podia voar. E podia, pelo que atravessou as lajes até a sala do apartamento 402. Não ousava ir direto ao quarto, num lampejo de respeito ao espaço alheio que lhe faltara nos últimos vinte e três minutos. Entrou devagar no quarto, num inútil esforço para não fazer barulho. Lorena dormia ao lado de César Medina, e só ao ver o casal em tranquilo sono Aluísio pensou por que rumara para lá. Namorou nove vezes, a última delas seis anos antes. Lorena era a terceira namorada, um relacionamento que durou dos vinte e três aos vinte e cinco anos de Aluísio. Quase duas décadas antes, e um namoro comum, com um beijo mediano e um sexo semanal mediano. Então por que estava ali? Não tinha sentimentos por Lorena, arrependimentos pelo término nem grandes lembranças. Pelo romance poderia ter visitado Gabriela de Souza Moraes, uma relação intensa e tórrida no início de seus trinta anos. Pelo afeto talvez Sílvia Martins de Oliveira ou Luana Tavares Palermo, respectivamente a primeira paixão da adolescência ou seu primeiro amor maduro, no final dos vinte e muitos anos.

Assumiu que Lorena era uma média. Nem os fogos de Gabriela, os amores de Luana, nem a apatia de Silvana Maria Ferreira Hübner, sua última namorada. Nem a amizade incondicional de Sílvia nem os conflitos da beligerante Beatriz Loureiro Kapersky. Lorena representava dois anos normais de sua vida, de festas aos fins de semana, boas-noites ao telefone às quintas-feiras, mensagens de bom dia logo pela manhã, afeto porque era necessário, carinho porque calhava e sexo porque a vontade ocasionalmente surgia. Nada para mais, nem para menos, a linha de referência por onde se julgava máximos e mínimos. Um namoro constante, previsível, rotineiro e tedioso, que era, por definição, a imagem de Aluísio. O espírito deixou-se cair para trás, com as mãos sob a cabeça, numa posição que lembrava a de alguém deitado em uma espreguiçadeira, impulsionando-se em direção à parede externa da forma que os espíritos se impulsionam com a força do pensamento. Instintivamente, pelo peso de quarenta e dois anos de prática em aberturas nos tijolos, rumou pela janela, mesmo já tendo atravessado várias paredes e lajes no passado recente.

Flutuava a partir do quarto andar daquele prédio que, embora não se lembrasse, era bem melhor que o seu próprio. Pairava acima da vizinhança olhando para cima, onde a Lua minguante era escoltada por um pelotão de estrelas que formavam constelações que Aluísio conhecia em vida desde quando acompanhou o hobby astronômico de Silvana, mas cujo conhecimento organizado ficou no cérebro em decadência na enfermaria sete do Hospital Central. Decidiu que essa aventura encerrava as visitas, e alinhou o corpo para voltar ao hospital, dessa vez sem violações de privacidade. E diante dos protestos de qualquer pessoa comum que leia que Aluísio se deu por satisfeito por visitar uma ex-namorada pouco relevante em sua vida, se esclarece que seus pais já são falecidos e ele é filho único. Seu parente remanescente é uma tia, Roberta Lima Gonçalves Pereira, distante dois mil e quinhentos quilômetros, que será notificada de seu falecimento e da parte que lhe toca no espólio em momento oportuno, fora do escopo deste relato.

Quanto a melhores amigos, Aluísio só tinha um que podia receber tal título, e já o visitara há instantes, pois era César Medina, embora estivessem distantes nos anos mais recentes, por motivos não relacionados ao casamento de César com Lorena, tendo Aluísio inclusive comparecido à cerimônia, e presenteado o casal com uma bombonière de trezentos reais que, conforme ele verificou de canto de olho, ainda estava sobre a mesa de jantar, com pêssegos decorativos e trufas embaladas provavelmente vencidas há algumas semanas. Por isso, Aluísio já voltava ao hospital, onde, se tivessem sido diligentes os profissionais de saúde, já teriam achado um bilhete com contato de emergência em sua carteira onde constava o telefone celular de Ronaldo Tavares Salgueiro, que atenderia o telefone se apresentando como Doutor Ronaldo, seu advogado, responsável pelos procedimentos funerários e execução de seu testamento.

Se pudesse teria se desculpado com Ronaldo, pois pretendia ter morrido em horário mais conveniente. Mas morrer não era simples, mesmo para um corpo tão maltratado pelo álcool e outros abusos que não mencionarei aqui em respeito ao recém falecido, que na verdade morreu devido a uma doença tão incomum que Aluísio já não saberia declinar nome ou explicar a natureza das dores e demais sintomas. O espírito quieto e resignado não refletia a vontade inconsciente do corpo que buscava sobreviver até cerca de uma hora atrás, tentando resistir com suas travas e mecanismos biológicos involuntários que postergavam a morte certa. E é essa justamente a função dos tais mecanismos, que atrasam a morte certa desde a concepção, às vezes por mais de cem anos em casos cada vez menos raros, tanto que Aluísio não guardava rancor, exceto um pouco de lamento pelo incômodo ao sempre prestativo Ronaldo.

Aluísio acompanhou a conversa entre Ronaldo e Carlos Hertz, um rápido e formal diálogo cheio do termo doutor enquanto pronome e poucas informações relevantes. Assinaturas de um lado e de outro, carimbos aqui e ali e o corpo estava liberado para a funerária. Do alto o espírito acompanhava o carro que levava o corpo, um horroroso carro escuro de funerária, acompanhado pelo sedã de Ronaldo. Se teria um cortejo fúnebre, aquele seria todo ele, no máximo. Até agora estava satisfeito com os procedimentos. Apenas os profissionais de saúde o viram, sempre vestido. Sua morte de gato era uma tentativa de dignidade final. Não queria que o encontrasse caído e de olhos abertos uma pessoa qualquer, nem ter a chance de sua imagem final circular em telefones celulares curiosos pela morte alheia. Além da equipe de plantão do hospital, apenas os agentes funerários o veriam, o que era inescapável dadas as condições.

Até pensou em contratar como agentes funerários os vermes naturais, morrendo em algum ponto inacessível e remoto, talvez tendo sua tumba de ermo descoberta apenas anos após, quando restariam apenas ossos, aceitáveis enquanto sinais de morte digna. Desistiu por não conhecer pontos inacessíveis e remotos, nem como chegar a eles, e muito menos como comprovar sua morte sem corpo, atrasando os procedimentos do inventário e demorando a colocar um ponto final na vida que já tinha abandonado em espírito, em um sentido mais amplo e metafórico que o anteriormente usado, que é o da alma consciente.

Dessa forma, esperava que tudo acontecesse como o planejado cuidadosamente. Seria cremado na manhã seguinte, e as cinzas podiam ser “lançadas” no rio. Não tinha nenhum vínculo com o rio, e tinha usado o termo “descartar” na minuta do testamento, mas foi convencido por Ronaldo a usar um termo mais respeitoso com as cinzas de um morto. Aluísio acatou a sugestão, apesar de não respeitar aquele morto em particular, achando graça que Ronaldo corrigisse seu deslize auto depreciativo. A única testemunha da cremação seria Ronaldo, que posteriormente faria chegar a sua tia Roberta a notícia e parte de suas economias até ali. Não se lembrava do valor, mas Ronaldo estava ciente de um não vultoso mas não desprezível montante de seis dígitos de reais. Outra parcela faria jus uma lista de instituições que Aluísio considerava dignas e merecedoras de ajuda. Uma parte era relativa aos honorários do advogado, e outra pequena para as despesas finais com o apartamento e seus pertences, a maioria destinada à doação ou ao lixo, conforme o estado.

E, de fato, foi o que ocorreu no dia seguinte, e teria Aluísio ficado satisfeito se visse que sua vontade fora concretizada sem desvios. Ocorre que uma vez guardado seu corpo na urna funerária correspondente, nada havia a fazer até que a manhã chegasse. Passou então a um despretensioso passeio pelos corredores da agência funerária, uma distração completamente improvável se ainda estivesse em seu corpo com plenas funções. Assim, ouvindo um rumor na capela do estabelecimento, lá foi verificar, por absoluta falta de atividades diversas que lhe passassem na mente. Ali chorava uma senhora de uns sessenta anos, abraçada a uma senhora de uns trinta anos. Também um senhor de uns sessenta anos chorava ao lado de um senhor de uns vinte e cinco anos, que tinha papeis e uma caneta na mão. O jovem explicava isto e aquilo para o idoso. Antes que Aluísio ouvisse o assunto, o homem mais velho assinou o papel e o homem mais novo saiu.

O velho levantou resoluto, puxou o que tinha no nariz para dentro, engoliu o que tinha na boca e em paz com a dignidade do luto não limpou as lágrimas. Tocou o ombro de cada uma das mulheres e acenou um “vamos” com a cabeça. Elas se levantaram ainda abraçadas e saíram pela porta central da capela. O choro de ambas se intensificou quando viram saindo pelo portão da garagem o carro fúnebre, o mesmo que transportara o corpo de Aluísio até a funerária. Após novo toque nos ombros, as mulheres entraram em um carro a comando do velho, que assumiu o volante. Aluísio voltou sua atenção para o carro funerário, e o alcançou quando ele tocava o asfalto e começava a manobrar. Entrou na parte traseira e fitou o caixão. Era daqueles com vidro à altura do rosto do falecido. Ainda estava escuro, difícil de enxergar mesmo para quem não tinha mais olhos de carne. Algumas luzes dos postes entravam pelo pára-brisa e por frestas ocasionais no veículo. Num desses relances Aluísio viu o rosto do seu colega de morte. Era jovem, mais jovem que ele, pelo menos. Devia ter uns trinta anos, um pouco menos talvez, ou não muito mais. O rosto era sereno, guardando uma expressão que parecia cordial e acolhedora mesmo de olhos fechados. Um rosto que não parecia estar em decomposição inexorável naquele exato momento, destinado a deixar de ser daquela forma em alguns dias, e daí para sempre.

Não demorou até o carro parar. Ademir Soares Menezes, o agente funerário e motorista acumulou a função também de abrir a porta do compartimento traseiro do longo veículo funerário. Com ele surgiram mais sete rostos. quatro choravam, três não. Eram cinco homens e duas mulheres, que em silêncio se coordenaram para carregar o caixão e os suportes de metal que o sustentariam, auxiliados pelo agente motorista carregador da funerária. Aluísio desembarcou e acompanhou o cortejo. Era uma rua simples, pavimentada com blocos de concreto. Umas dez pessoas acompanhavam de perto, a maioria com lágrimas pelo rosto. Um vizinho curioso espiava encostado no canto do portão da casa da frente. Dos mais próximos, alguns chegavam perto do caixão para olhar pelo vidro e renovar o choro. O velho que assinou os papeis na funerária saiu da casa e tomou o lugar do agente funerário entre os carregadores. O agente, movido pela prática nessas situações extremas, auxiliou na distribuição dos suportes de metal e no cuidadoso posicionamento do caixão sobre eles. Sem parar, tratou de rapidamente voltar para o veículo funerário e apanhou candelabros e velas, as quais logo acendeu com um isqueiro, uma placa luminosa onde se lia “LUTO”, que pendurou no portão, e um pedestal de madeira e um livro preto, que abriu ao lado da porta principal da casa, deixando uma caneta entre as folhas. Como últimos atos, abriu a tampa do caixão e espalhou pelo ambiente as flores decorativas, sempre apressado mas sistemático e cuidadoso. Em seguida, recolheu sua expressão grave ao carro e seguiu para lidar com outras mortes.

Dentro da casa havia cerca de quinze pessoas espalhadas pelos cantos. Via-se cabeças baixas e abraços duradouros, com poucos rostos à mostra. Aluísio se aproximou do caixão agora aberto e pode ver melhor o jovem. Demonstrava mesmo serenidade. Era o único rosto transmitindo sentimentos neutros ou positivos naquele lugar onde mais gente chegava a cada minuto, com caras desesperadas e prantos com soluços. O jovem permanecia impassível em sua paz, sua face descansada e despreocupada, deixando até mesmo perceber um leve sorriso nos lábios. Não havia crachás reveladores e ninguém dizia o nome de ninguém. Os que chegavam apenas diziam variações de “não acredito que ele se foi” e “tão jovem, tão jovem”, sendo que os mais aparentemente sábios entre eles nada falavam, na verdade. Não constava nome no livro de presença, que não tinha cabeçalho, apenas nomes em sequência dos que já tinham deixado suas assinaturas como prova final de amizade e respeito. Aluísio teve um impulso para assinar, querendo deixar sua marca naquela cerimônia que, como bem racionalizava, comparecera, mesmo que nas mesmas condições que o velado. Chegou a levar a mão à caneta depositada ao centro do livro, mas se sentiu ridículo ao lembrar que não conseguia manipular o objeto, cedendo a vez para Larissa Tenório de Paula Lemos, que marcou o livro com uma letra regular e firme, apesar da emoção.

Aloísio sentiu-se ridículo por também querer deixar uma marca indelével numa homenagem a alguém que jamais conhecera em vida. O que o levou a outro pensamento de imediato, que não entendia por que demorara a lhe ocorrer. Com sua nova propriedade de atravessar paredes sem usar portas e janelas vasculhou rapidamente todos os cômodos da casa e o quintal. Insatisfeito, buscou no forro, subiu até o telhado, flutuou acima da casa e olhou em volta em todas as direções. Afinal, onde estava o espírito daquele que repousava tão suavemente no caixão? Teria ficado pra trás por não lembrar onde era sua casa também? Mas ele também não estava na funerária. Não quis acompanhar seu corpo? Aluísio não se remoeu em pensamentos de céus, infernos e purgatórios, pois esta era mais uma das coisas que sua mente não trouxera na bagagem, esquecendo no cérebro que seria queimado dali a algumas horas. Sua racionalização se concentrou no sofrimento dos parentes e amigos daquele rapaz, cenas que agora o perturbavam e que ele já começava a achar impalatáveis, tanto que permaneceu flutuando acima das casas, longe das vozes de lamento, da sucção dos narizes e dos soluços.

Passou então a emitir julgamentos a seu respeito, o que era uma novidade desde a morte. E a sentença era a seu favor. Sentiu que tinha acertado na vida ao se isolar. Não gostaria de enxergar ninguém sofrendo por sua causa daquela maneira. Sabia que mesmo morto aos quarenta e dois alguém diria “tão jovem, tão jovem”. Imaginou mulheres novas e homens velhos chorando por sua causa, e achou perturbador. Como fantasma resignado e satisfeito com suas conclusões, decidiu que era hora de voltar à funerária e acompanhar a cremação do seu corpo. Mas é claro, e qualquer pessoa perspicaz notaria, que esse é o momento nas histórias dos vivos em que o protagonista resolve seus conflitos e encontra uma paz que será, como que por força da lei das tragédias, perturbada sobremaneira. Não há evidências confiáveis sobre como são as histórias reais dos mortos, se elas existem, então não há outro meio de tratá-las a não ser por analogia. Assim, de tal julgamento também Aluísio sofre a sentença: que se aplique a ele a trágica lei.

Antes de rumar ao seu destino para acompanhar a cremação, Aluísio desceu um pouco, pela intenção talvez de se despedir daquelas pessoas cuja única lembrança será o sofrimento. Ouviu sobre o horário do enterro, provavelmente no final da tarde. Imaginou que aquele jovem sereno teria uma lápide, com epitáfio, flores e visitas anuais em dois de novembro. Homenagens que ele desprezava, não se lembrava por quê, mas sabia que eram grande parte da causa de ter deixado suas instruções para o advogado. E, apesar do esquecimento, continuava não vendo sentido nelas. Era algo para os vivos, logo entendeu, não para os mortos. E, como morto, ele deveria agir como tal. Antes de sair ainda viu aquela mulher mais nova que estava na funerária mais cedo, sentada sozinha numa cadeira na varanda da casa. Ela olhava para a tela de um celular, com os olhos inundados. Para o espanto de Aluísio, enquanto o dedo da mulher passava pela tela, sem aviso ela soltou o gesto menos esperado para o momento, pelo menos para quem a observava. Um sonoro sorriso, cheio de dentes. Chocado, curioso e sem as travas da ética de sua vida, Aluísio espiou por cima do ombro da mulher e viu que ela repassava fotos com o homem do caixão. Confuso, Aluísio se afastou. Entendia as dores, e percebeu que podia se acostumar com elas, mas aquele sorriso não fazia sentido para ele.

Quando Aluísio se voltou em direção à funerária para voar em seu destino, sentiu o que um vivo descreveria como um arrepio por todo o corpo. E outro vivo perguntaria ao ver o espanto do primeiro “viu um fantasma?”, o que seria uma pergunta inadequada à situação, primeiro porque Aluísio era o que poderíamos, no caso, definir como um fantasma e, segundo, porque ele nada vira. Seu arrepio vinha de dentro, de um pensamento que veio repentinamente, sabe-se lá por qual processo fantasmagórico que rege os pensamentos dos mortos. Aluísio considerou que talvez o jovem morto estivesse ali. Além do corpo, ele pensava, que estivesse na mesma condição que ele, que estivesse vendo todo aquele sofrimento, como ele estava, mas que também estivesse vendo apenas os vivos. Afinal, e os outros mortos? Aluísio achava pouco razoável que ele fosse uma exceção tão gritante numa cidade relativamente grande, isto é, que só ele fosse consciente após a morte parecia um cenário nada plausível.

Faria mais sentido, pensou, que aquilo fosse a morte. Ver os vivos sozinho, sem a companhia dos outros mortos. Cada um em sua realidade, intocáveis e invisíveis, para os vivos e um para o outro. Consciências perdidas, sem poder nenhum exceto a de julgar a si próprio, e enxergar os horrores da vida sem nada fazer a não ser se desesperar. Porque, acabava de descobrir, desespero também acometia mortos. Aluísio se afastou flutuando, deixando-se levar sem rumo, alcançando a rua e passando pelos carros em trânsito, depois subindo sem pensar no que fazia, começando a esperar pela segunda vez uma espécie de morte nova, já que a atual nada mais era que uma vida em pior versão.

O Bruxo

Insone e imóvel na cama, vi luzes entrando pelas frestas da janela, e ouvi muitos passos e murmúrios abafados do lado de fora. Permaneci como estava, achando que terrores noturnos vieram fazer companhia, pois há solidões tão densas que até a companhia de uma assombração é tolerável e dispersante. Há um estágio do ódio a si em que me agradaria mais um fantasma meio hostil que eu mesmo como companheiro para passar a noite. Mas quando as assombrações começaram a gritar ofensas e acusações implausíveis, daquelas que só humanos encarnados e em grupo têm audácia de lançar aos berros na noite, resolvi espiar pelo canto da cortina, descobrindo uma multidão com tochas e porretes cercando minha casa, exigindo a minha rendição “enquanto bruxo”.

Contrariando o manual de ação dos bruxos reais, um documento tão legítimo quanto minha magia, abri a janela para confrontar os invasores do meu quintal. Tão logo minha cara brilhou à luz do fogo, uma pedra completou sua parábola na minha sobrancelha esquerda. Senti, entre dores e luzes confusas, um fio de sangue descer pela minha bochecha. Outras pedras voaram errando o alvo, me dando chance de fechar uma das folhas de madeira e me abrigar atrás dela. Por uma fresta consegui olhar lá fora e identificar a cidade inteira pisoteando minha grama. Até a Lua se mobilizou e apareceu uma hora mais tarde que no dia anterior, e com um pedaço a menos, que talvez fosse aquela rocha que por pouco errou meu olho e que a cretina arrancou de si mesma para me acertar.

E que digníssimo bruxo era eu, abrigado atrás de um brise, sangrando pela testa, tonto e com dor de cabeça, há três noites sem dormir, assustado pelo prefeito, pelo padeiro novo, pelo frentista velho, pela advogada e pela Lua, os líderes da turba, pelas tochas e pelas pedras que às vezes entravam pela metade aberta da janela e acertavam algum item de mobília. Os pensamentos que circulavam atrás da concussão me diziam que não podia tanta gente corriqueira, honesta e de autoridade estar tão errada, e que possivelmente eu conseguiria explicar, fosse lá que diabos estivesse na minha conta. Como um sensato e poderoso bruxo de minha experiência e classe, conjurei um feitiço chamado Rendição e saí pela porta da frente com as mãos para cima.

“Abaixe as mãos!”, comandou o gerente do supermercado me apontando um porrete. Um estranho comando para um rendido, que geralmente levanta as mãos para indicar que não há ameaças ocultas. “Abaixe as mãos, não vou deixar você nos amaldiçoar”, comandou novamente, se fazendo entendido. Abaixei as mãos ao longo do corpo, deixando as palmas voltadas para o chão, como quem pede calma. “Não diga nada, não vá lançar nenhum feitiço”. Eu estava exposto, apenas de calção, tremendo de frio, mas obedeci e não lancei nenhum feitiço, exceto um bastante conhecido da minha escola arcana, o Feição Interrogativa.

O prefeito, porém, conjurou “amarre as mãos e tape a boca dele”, e pela magia da subserviência seu assessor me atou as mãos e pôs uma mordaça em minha boca, com ajuda do investigador e do diretor do fórum. Empurrado pelo caminho que levava ao centro da cidade, fui sendo feito de alvo, e repentinamente na cidade todos se tornaram precisos na pontaria, me acertando frutas e legumes podres, cuspe e dolorosos xingamentos. A Lua subia no céu, acompanhando o cortejo, escondendo as estrelas à sua volta, talvez minhas únicas amigas, que se abrigaram para não ver a vergonha do meu estado.

Na praça central o secretário de obras supervisionava a fixação de um poste em um canteiro. Eu passei pela praça à tarde, e o poste não estava lá, o que me fez parar de questionar a incompetência de quem demorava meses para fechar os buracos nas ruas. Ora essa, não faltava poder ou capacidade, apenas vontade. Braços sem rosto me empurravam em direção ao poste, apenas um pedaço de madeira, mas contextualmente sombrio como a morte, como era de se esperar.

E lá me amarraram, bem apertado, com os braços para trás. Incrédulo assisti a crianças trazendo feixes de gravetos secos e depositando ao meu pé. Concordei comigo mesmo que aquele era meu pior momento da noite, e também assenti com a minha própria pessoa que ele assim permaneceria na liderança até que as chamas subissem pela madeira e tocassem a minha pele. Estranhamente, acabei salvo pelo fogo, já que alguns jovens protestaram contra a ideia de fazer uma fogueira e estragar o gramado da praça, que tão verde estava devido às últimas chuvas, e tão bem aparado. Outros ainda lembraram que os gritos poderiam assustar as crianças, e o cheiro de carne queimada seria perturbador.

A menção a carne até me lembrou que estava com fome. Um calafrio se seguiu ao pensamento. Ter fome diante da sugestão da própria carne queimada era uma ideia de bruxo? Minha execução, se não justa, pelo menos se sustentaria em acusações verdadeiras? Ora essa, os habitantes de uma pequena cidade da Amazônia brasileira no início do século XXI me amarraram a um poste e estavam prestes a me queimar como praticante das artes mágicas, eu podia me permitir o luxo de ter divagações confusas.

Após os protestos contra o fogo, foi consenso, para meu alívio, que era melhor que eu fosse enforcado. Poucas pessoas sentirão a graça deliciosa de estar amarrado ao poste com os pés na lenha seca apenas para descobrir em seguida que será pendurado pelo pescoço a uma corda. Há mortes e mortes, bruxos sabem muito bem. Mas novo impasse se estabeleceu. Enforcar-me onde? O poste não era um suporte adequado para meu pescoço amaldiçoado, inadequado para se pendurar um ser humano por uma corda. O secretário de obras saiu com dois funcionários da prefeitura e o dono de um depósito de madeiras. Voltaram meia hora depois com três longas vigas, e umas tábuas menores.

Paciente, conformado por não ser queimado, assisti o lento trabalho das pessoas levantando os dois postes que sustentariam a viga que me suportaria. Novo atraso se estabeleceu pois ninguém lembrou de trazer uma ferramenta para cavar os buracos onde se posicionaria os postes. E mais um protesto, pois a médica do posto de saúde não queria esburacar a grama que se evitara queimar. Fazia todo o sentido, e resolveram construir a forca numa área arenosa da praça, onde já se jogou vôlei de areia, lugar onde agora crianças brincavam umas com as outras e com bichos geográficos.

Conseguiram fixar os dois postes nos buracos quase às quatro e cinquenta da manhã. Sabia das horas, pois o guarda da escola a todo instante perguntava as horas para um lojista ao seu lado, e ambos estavam bem próximos de mim. O guarda estava obviamente impaciente para ir embora, já que um bruxo na cidade é um incômodo muito menor que um plantão noturno. Quando fixaram as tábuas nos ângulos entre as vigas para melhor sustentação do meu corpo, já era dia e as pessoas começaram a se retirar da praça e ir para suas casas. Isso não me surpreendeu, mas estranhei que tenham me deixado lá amarrado, e que três horas depois voltassem a circular para a cidade, ignorando a forca, ignorando-me amarrado a um poste, como se nada se passasse.

Lá pelas nove horas da manhã senti mexerem na corda atrás de mim. Notei as mãos mais livres e me desvencilhei da corda, com pressa, mas sem conseguir velocidade. Demorei a me livrar completamente, ainda com medo que alguém corresse e me impedisse. Não vi ninguém suspeito de me libertar quando enfim me virei. Todos continuavam agindo com se nada acontecesse. Tomei o rumo de casa, passando por dezenas de pessoas que me conduziram como condenado à morte pelas ruas da cidade. Algumas nem olharam pra mim, ou deram atenção à minha passagem. Outras até me acenaram um cumprimento, e ainda outras, sem qualquer afetação, me desejaram bom dia. Não querendo contrariar executores vorazes (embora, é verdade, um pouco burocráticos e indecisos), respondi cordialmente.

Subindo a rua de minha casa alimentava a profunda esperança que tudo fosse uma alucinação. Havia adições ao meu chá da tarde do dia anterior que podiam ter efeitos um pouco imprevisíveis. Mas as pedras e coisas quebradas no meu quarto davam testemunho de um acontecimento real, assim como o ferimento na testa, que indicava que pessoas desejaram bom dia para minha cara ensanguentada, enquanto eu me encontrava sujo de polpas de frutos podres e terra e apenas de calção, e estavam bem com isso. Tranquei bem as portas e janelas, tomei um banho, cuidei do ferimento, comi uma banana e dormi no sofá da sala, sem me lembrar que sofria de insônia. Arrumaria meu quarto depois de descansar. E como eu precisava descansar. Não entendia como aquelas pessoas sumiram por duas ou três horas depois de passar a noite buscando formas de me matar sem chocar os sentimentos morais e ambientalistas dos moradores e voltaram tão dispostas para a vida.

Meu estômago me acordou com um ronco grave no meio da tarde, exigindo alimento. Não tive a menor intenção de não atender a demanda, mas não queria sair para comer pela cidade. Cozinhei um almoço simples, arroz, ovo, tomates e descongelei uma porção de feijão. Comi e sentei no sofá novamente. Nenhuma ideia sobre o que fazer, ou o que falar, ou com quem falar. Vi vários amigos com pedras na mão à noite. Decidi pelo menos que era melhor montar guarda e preparar uma rota de fuga caso viessem. Não lembrava que horas o relógio marcava quando me levaram. O guarda da escola deveria ter ficado sempre do meu lado. Lembro da Lua nascendo, e talvez a Internet me dissesse que horas a Lua nasceu na noite anterior, mas eu já estava com sono por pensar em montar guarda de madrugada, e logo dormi de novo.

Acordei sobressaltado, após pesadelos confusos, ouvindo o ruído de passos na rua, um som que jamais teria me acordado em situações normais, mas que no meu estado imediato de atenção era um estrondo de muitos trovões. Por uma fresta do meu agora tradicional brise-escudo, observei uma multidão semelhante à da noite anterior subindo a rua, passando à frente de minha casa sem qualquer afetação na direção do meu gramado pisoteado. Uma mulher, entretanto, mais um rosto na multidão que eu achava que já tinha visto em algum lugar, mas não saberia nomear ou lhe atribuir profissão ou local de trabalho, olhou diretamente para a fresta por onde eu espiava e fez um claro movimento com a mão no sentido de “venha você também”.

E para a total incredulidade e assombro do arquimestre fictício da minha inexistente escola de magos, contrariando todos os conselhos que ele poderia ter me dado caso fosse uma pessoa caminhando no mundo real, me vesti e saí à rua. Bem vestido, a propósito, adequado à ocasião, qualquer que fosse, já que a comitiva numerosa que transitava pela rua era, como a do dia anterior, de trajes adequados ao trabalho ou à igreja. Não queria chocar ninguém aparecendo novamente no meu calção amarelo que servia como pijama em noites preguiçosas.

Juntei-me à multidão caminhante e ninguém pareceu dar atenção à minha presença. Identifiquei mais à frente a mulher que me fizera o sinal, mas ela não olhava para trás, nem para os lados. Ninguém dizia nada, e a procissão era até bem organizada, sem encontrões ou pisões nos pés mais desatentos. Não sei o que havia com a memória da cidade, ou se todos eram altamente sensíveis a bruxaria e todos os meus poderes desapareceram desde o nascer do Sol, e eu já não era mais bruxo. Já sentia saudade de minhas habilidades mágicas, foi bom tê-las por uma madrugada insana. Mas agora a vanguarda da comitiva parava em frente a uma casa. Um rito de vozes de comando e pedradas se estabeleceu, uma cópia da noite anterior, mas agora com alvo distinto. Logo ficou claro por uma pequena correria à frente que este bruxo era também ladino, e tentava fugir. Foi agarrado pelo investigador, entre gritos do delegado e do promotor. Logo o guarda da escola chegou em auxílio e segurou o homem para que fosse algemado. O guarda cochichou algo para o investigador, que olhou para o relógio de pulso e respondeu baixinho.

Legumes e ovos da feira de duas semanas atrás começaram a voar na direção do detido, que agora, mais próximo, consegui identificar. Era um dos locutores da rádio, peculiarmente o do programa evangélico. O padre estava mais animado que no dia anterior, e liderava algumas ondas de ataques com mangas muito maduras colhidas na mangueira atrás da igreja católica. Descendo a rua e virando a avenida em direção à praça, seguiu a multidão no mesmo caminho em que eu fui conduzido em vergonha vinte e quatro horas antes.

Sendo a minha salvação na noite passada as confusões logísticas, o locutor parecia condenado a uma morte que seria pelo menos rápida agora. A forca ainda estava na quadra de areia, no mesmo lugar onde foi deixada na minha noite de desespero. A Lua só aparecia agora, com uma hora de atraso, e sem mais um pedaço, já nos finalmentes da execução, quando o locutor, chorando e lembrando de Deus, era levado ao alto de um banco de madeira, e alguém subia por trás para passar a corda pelo seu pescoço.

Concentrado nas preliminares de uma morte certa, não notei a mulher do sinal se aproximando. “Não se preocupe, ele não vai morrer”, ela disse. “Eu cuidei disso durante o dia”. Ela deu um sorrisinho que achei meio cretino, e, me custa admitir, me irritei por ter perdido o exato instante em que um cabo da PM chutou o banco. A corda esticou até o limite, a viga cedeu feio em um canto e o homem caiu na areia, pés primeiro, cara depois. Rolou cuspindo terra e alguns aleluias engasgados, agradecendo a Deus pelo livramento. “Não precisa me chamar de Deus”, a mulher do sorriso cretino sussurrou para mim.

O guarda da escola já se preocupava de novo com as horas, e o secretário de obras coçava a cabeça vendo o homem amarrado e a viga quebrada. “Isso aí vai demorar pra resolver”, constatou desanimado. Alguns já iam embora. A sorridente misteriosa se retirava, mas pedi que esperasse. Tentei a segurar pelo braço, mas ela se desvencilhou contrariada. “Não me puxe, não faça nada drástico. Não chame a atenção nessa hora”. E eu só consegui pensar em perguntar “O que está acontecendo afinal?”.

Revelando-me algumas coisas, ela mesma uma bruxa, poderosa e antiga na magia, passei a entender. Tinha ela escapado de uma morte terrível na época da fogueira. Passara a ajudar os bruxos da vez em sua noite de agonia, sempre oculta e jamais agindo como feiticeira. Pois os que chegavam mais rápido à corda agora eram aqueles que tentavam argumentar com os executores. Passei a ajudar no infame trabalho noturno nos primeiros três dias de lua cheia. Por mais duas vezes tive a corda no pescoço, e passei até a aproveitar o passeio. Seguimos assim, recrutando novos bruxos, salvando uns aos outros, e deixando a turba seguir o seu caminho. Claro que não dava para salvar todo mundo. Fizemos o possível para ajudar o saxofonista da Assembleia de Deus, mas ele não ficava quieto, lutava demais, brigava demais, falava em línguas demais. Foi linchado antes de chegar à guilhotina da praça, que já tínhamos sabotado duas vezes naquela lua cheia.

Nosso trabalho era esse, inutilizar o equipamento de execução e acalmar discretamente o bruxo da vez, e de vez em quando ajudar a se livrar de amarras ou cuidar de ferimentos no dia seguinte. “Não lute, deixe o pessoal fazer o quiser, lá na frente vai dar tudo certo” eram as nossas palavras mágicas da noite quando o réu estava muito tenso. Assim, a verdade é que no geral a coisa ficou tão próxima da vida normal que em alguns meses nem notávamos mais a diferença.

Fins de mundos

A uma pia engasgada com louças sujas e restos de comida posicionada no meio da parede seguia, em sentido horário, um fogão com manchas pretas e engorduradas, uma geladeira sufocada pelo gelo acumulado na parte de cima, um armário vazio, já que todos os utensílios estavam na pia, sobre o qual um micro-ondas gasto pelo uso dividia espaço com um liquidificador adquirido por uma aranha por usucapião. Ainda no sentido dos ponteiros do relógio, seguia uma porta que dava para o banheiro, uma cama, uma mesa de metal, dessas de bar, suportando um notebook velho e papeis empoeirados, e, sobre a única cadeira do recinto, Manoel bebendo leite em uma caneca, que levava à boca alternadamente com as bolachas que apanhava com a mão direita. Para fechar o círculo circunscrito naquele quadrado apertado, uma porta para fora ao lado da pia.

Manoel olhava com gravidade dez quilômetros adiante, embora enxergasse apenas o verde da parede que refletia estranha a luz fluorescente amarela que comprara por engano. A feição de Manoel era de fato grave, bastante grave. Desenhava um alongado W invertido com suas sobrancelhas. É difícil sugerir com precisão a gravidade no olhar nesse ambiente. Talvez fosse mais fácil se Manoel não estivesse em uma casa de um cômodo, mas em uma biblioteca particular com o dobro do tamanho de sua casa, cercado de livros, não panelas sujas. Sentado em uma poltrona com vista para o jardim pela janela, com brandy na mão esquerda e um cachimbo na direita, com o mesmo W invertido sobre os olhos, e os lábios muito apertados, ocultos numa barba grisalha e espessa.

Essa é a cara que deve ser barbeada, massacrada pelo Sol e transportada para o mau cheiro de comida podre e baratas daquele abrigo. Aqueles bem-nascidos barbudos têm essa cara com bastante frequência, talvez por prática. Manoel não teria tempo para treinar essas coisas, não conseguiria nem ver o rosto inteiro no espelhinho do banheiro. Sua consternação era legítima, e a fixação com o ponto distante que olhava sem ver tratava de embaçar a visão periférica, fazendo-o ignorar a fauna de insetos local. Pouca coisa prejudica mais a gravidade contemplativa de uma longa divagação que um inseto desses grandes voando nas proximidades, mas Manoel permaneceu em seu thousand yard stare, imperturbado em seu introspectivo ciclone mental, do qual nada revelava ao exterior exceto em seu par de olhos muito arregalados sobre aquele já exaurido W ao contrário.

Elias encontrou a porta destrancada e abriu fazendo ruído. Identificou de imediato o voo da barata, e a derrubou com sua potente munição terra-ar, uma sandália Havaianas, trazendo o animal para o chão, onde tinha ampla vantagem, vencendo o inimigo com sua força peso. Deixou os espólios para as formigas, e sentou-se no único assento disponível, a cama de Manoel, que permanecia olhando para o mesmo ponto, sem se mover. Elias era uma visita constante, parte da paisagem como a aranha do liquidificador e as baratas que não voam, embora ligeiramente mais incômodo. Acomodou-se deitado no colchão gasto, mais fundo no meio, quase um A invertido. Foi a primeira coisa que Elias notou em voz alta, inclusive.

“Seu colchão parece um A de cabeça pra baixo”. Assim mesmo, sem cumprimentos ou solenidades de visitante. De inaudito apenas a estranha ausência da visita à geladeira de Manoel, e da consequente reclamação da natureza vazia do eletrodoméstico, sem petiscos ou cerveja na maior parte do tempo. Manoel não reagiu, e Elias notou a expressão grave daquele que chamava de amigo. “Sua sobrancelha tá parecendo um W de cabeça pra baixo”. Nem um “boa noite” ou “tudo bem” antes. Elias é um pragmático descritivista, embora não saiba.

“Por que não um M?” Manoel falou pela primeira vez em horas, deixando no presente uma sensação estranha de nada ter dito, duvidando do som da própria voz, questionando se realmente proferira aquelas palavras. Como Elias nada respondia, e como Manoel não olhava para ele, não analisando portanto se a feição da visita inoportuna mudara, permaneceu com aquela sensação de nada ter dito, procurando no fundo da garganta algum incômodo ou coceira qualquer que indicasse seu uso. Respirou e resolveu falar de novo, agora para ter certeza. “Por que não um V?”

Não encontrando nada que visualmente merecesse descrição, Elias apenas lançou uma interjeição interrogativa. “Hã?”

“Você falou que meu colchão é um A de cabeça pra baixo, e que minha cara tinha um W de cabeça pra baixo. Por que o colchão não é um V e minha sobrancelha um M”?

“Faz diferença?”

“Claro que faz. Você recorreu ao inverso de alguma coisa sendo que existe uma coisa pra descrever o que você queria notar.”

“Mas isso realmente faz diferença?”

“Faz, claro, você já pensa de cabeça pra baixo do princípio. Tudo está invertido.”

“O que você estava fazendo nesse computador?” Elias alcançava o notebook enquanto falava, sem levantar da cama, puxando-o para si sem pedir autorização. O computador velho estava lento, demorando para responder aos cliques, já que dezenas de abas consumiam seus recursos. Manoel clicava sem parar em hyperlinks até há pouco. Tinha sentado à mesa para produzir um relatório atrasado do trabalho, mas encontrou falsamente sem querer os melhores amigos da procrastinação: os hyperlinks relacionados em artigos da Wikipédia. Falsamente sem querer, pois existia uma busca original, a cujo tema se ateve nas horas seguintes.

“Por que você tava pesquisando sobre cenários para o fim do mundo?” Manoel desviou enfim o olhar para Elias, desfazendo o W invertido, mais pelo tédio da companhia que pela alteração de seu estado de espírito. Ainda mastigava seus pensamentos, tentando os reduzir a parcelas digeríveis por seu sistema. Não queria falar de boca cheia. Mas conseguiu forçando, e, bem, com a educação de Elias boca cheia seria um problema muito pequeno.

“Pra saber o que esperar”, mentiu. “Para ter esperança”, corrigiu em seguida. “Agora é a sua testa que tem um M”, descreveu, enquanto Elias conferia seu W invertido com a ponta de um dedo.

“Você tá claramente insatisfeito com a vida, Manoel, você mora nesse chiqueiro, sem necessidade inclusive. Você poderia… você sabe, não vou nem falar. Você desistiu, foda-se você, mas você quer que todo mundo morra? Que eu morra?”

“Não”, mentiu em relação à penúltima pergunta. “Aceito o resultado morte, claro, mas não é isso que me move, não é a morte o meu desejo, mas o fim”.

“Se você desistiu, porque não morre só você? Eu não desisti.”

“Ainda. Mas não, calma, não quero desanimar você, nem o arrastar para onde estou. Veja, eu não sou o único a desistir. Acha que eu sou o único na merda hoje? O único deprimido e sem esperanças? Só nessa rua talvez achássemos uns vinte, trinta assim? Por que não vamos achar vinte, trinta corpos amanhã?”

“Por que eles não são egoístas como você?”

“Você não vai achar meu corpo também. Porque, na verdade, não desistimos. Não desistimos porque o mundo ainda existe, e temos ideias para ele, esperamos coisas dele, sabemos que ele pode ser melhor. Tire o nosso mundo e não teremos motivos para tentar de novo. O fim será menos doloroso.”

“Então você gosta do mundo afinal?”

“Gosto de um mundo, sim, imaginável, mas será possível?”.

Elias já não prestava muita atenção às palavras de Manoel, passeando pelas abas do navegador conforme o computador permitia. “Qual desses fins de mundo você prefere?”

“Os drásticos e repentinos, de escala cósmica. Algo que oblitere o planeta, ou desfaça o Universo sem aviso. Sem dor, sem lamento, sem sofrimento. Seria ruim que o fim fosse bilhões de pessoas lutando para sobreviver, sofrendo e…“

“Manoel? O W voltou pra sua cara, o que foi?”

“Ora, nós somos atualmente bilhões de pessoas lutando para sobreviver, não? Sabe qual o cenário mais provável desses aí? Qual tem a maior chance estatística de acontecer nos próximo anos? Aquecimento global. Algumas pessoas cozinham, outras ficam sem comida, outras são forçadas a migrar e receberem tratamento desumano por seus péssimos anfitriões. Isso não parece um fim, parece apenas uma piora para a maioria, enquanto alguns continuam bem. Os fins cósmicos nos igualam, nos tornam igualmente carne por apodrecer, matéria para ser consumida. Esse fim é desigual, e claramente o mais provável, o que é compatível com nossa história. Olha só, talvez fins sejam isso, já pensou? Fins acontecem o tempo todo.”

“Se eu não aparecesse você ia encarar a parede pra sempre? Pode me chamar sempre que precisar chegar a uma conclusão. É claro que fins acontecem o tempo todo. Você quer que o mundo acabe, mas o mundo que você vê não é o mesmo mundo que eu vejo. E eu não quero que ele acabe.”

Manoel voltou a encarar o distante ponto além da parede, desta vez com o que Elias chamaria de um U largo e invertido no rosto.

“É verdade, Elias. Mundos acabam o tempo inteiro. Meu mundo já acabou tantas vezes. Acabou aos sete anos, quando entrei na escola e conheci aquelas crianças terríveis. Acabou de novo aos doze quando meus pais se separaram. Outra vez, tive um fim de mundo aos vinte e dois ao sair da faculdade e ver que além de não saber nada, não faria o que queria pelo resto da minha vida.”

“O mundo é seu, o fim é seu”.

“Sim. Mundos são voláteis demais, e acabam à taxa de milhões por dia.” Manoel se levantou e alcançou uma vassoura escondida entre a geladeira e o armário, para o assombro de Elias.

“O que você vai fazer?”

“Varrer essa carcaça de barata. E depois colocar a vassoura atrás da porta para ver se você vai embora. Tem um mundo começando agora, quero estar em melhor companhia.”

Às Cinco

Caminhando às cinco da tarde, mais cedo que o horário de costume, mas protegido da radiação solar por nuvens providencialmente a Oeste, meu fim de tarde se aproximava do pôr-do-sol no ritmo acelerado e entrecortado dos sonhos. Ji-Paraná é uma cidade avessa a pedestres, maltratando-os com suas calçadas desalinhadas ou inexistentes, meios-fios tomados por ervas daninhas ou sujeira deixadas por humanos inescrupulosos ou cães desatentos.

Mas sonhos adequados ao termo não se prendem apenas aos avessos, pois assim seriam pesadelos incômodos. E enquanto caminhava numa ruazinha qualquer da vizinhança, de calçada desprezível, empoeirada, cheia de mato e alinhada com alguma subdivisão entre o Norte e o Leste, entrei, no intervalo entre um passo e outro, em um lugar distinto, embora fosse o mesmo de antes, em compatibilidade com o que se espera dos sonhos.

O Sol ainda estava atrás das mesmas nuvens, o ar era o mesmo, o tempo era o mesmo, mas o chão tinha vias estreitas cortando um gramado, pavimentadas com pedras claras. Árvores ao fundo cobriam o fundo do terreno, e o gramado tinha arbustos e árvores menores podadas em formas simétricas. As vias formavam caminhos que levavam a uma fonte circular no meio do jardim. Ao lado da fonte, trajando um casaco escuro, J. R. R. Tolkien, abrindo um amplo sorriso, acenava para mim com uma mão enquanto segurava o cachimbo com a outra .

Sonhos não têm os cuidados literários de seus portadores despertos, nenhum apego lírico, e nenhum senso estético. Para o deleite de quem vê em cada elemento do sonho um arquétipo ou um significado por interpretar, quis o Oneiro roteirista que eu encontrasse um inglês às cinco da tarde. Mantendo-se no personagem, Tolkien me cumprimentou cordialmente e me lançou o convite:

– Entremos. Aceita chá? – Tolkien me anunciou, completamente em português brasileiro, embora ainda no conhecido tom de voz que recita o poema Namarië em Quenya, a língua dos alto-elfos. Quenya se parece mais com português que com inglês e a voz de Tolkien soou perfeita no idioma falado nas margens do Brasil, tão familiar para mim.

Nos assentamos em sofás confortáveis em uma pequena sala cuja porta dupla dava para o jardim, visível através de pequenos painéis de vidro e por uma janela. Servindo-me do bule que fumegava sobre a mesa de centro, tomei do chá enquanto iniciava a conversa, que não tinha tema definido, nem palavras definidas, para o desconsolo posterior de minha consciência acordada. Mas em um trecho Tolkien se fez compreensível.

– Li o texto que você escreveu… – alcançando um bloco de folhas grampeadas que estava ao seu lado no sofá, Tolkien começou a folheá-las. Ansioso, aguardei que continuasse com sua opinião sobre o que eu escrevia, já em parte satisfeito por Tolkien ter uma cópia consigo em seu sofá.

– Não gostei. Tudo o que você escreveu é pretensioso e chato para ler. – Ri bastante. Contei como tinha tentado escrever fantasia no passado, e como não tinha gostado do resultado.

– É um trabalho para europeus – concluí, sem obter concordância. Tolkien comentou algo que me fez rir mais, e continuou pronunciando algo em sons que não formavam palavras enquanto eu despertava, para minha nova decepção, sem concluir a conversa. Acordei sorrindo, e ri mais vezes ainda antes de voltar a dormir, feliz e realizado. Ora essa, eu tinha falado com Tolkien.

O Curso

“Olá, queridos alunos! Vocês que me acompanham aí pela Internet através do nosso site, você aqui na sala de aula na minha frente, você aí que pirateou nosso curso porque não tinha dinheiro pra pagar as aulas e também está assistindo no computador agora. É, não se sinta culpado, é você mesmo quem precisa passar, urgente! Saia dessa situação! Sejam todos vocês, regulares e piratas, bem-vindos a mais uma aula do nosso curso para concursos públicos. Desta vez com foco no concurso do Departamento Federal de Obscuridade Social. O edital está pra sair, gente, fontes quentíssimas já deram conta, fontes de dentro do Departamento, gente importante garantiu, tá no forno o edital, tá quase no ponto, a hora de estudar é agora! Não deixe pra se preparar na última hora, comece antes dos seus concorrentes e garanta a sua vaga, porque perder um fim de semana agora é garantia de carteirada depois.”

Agredido pelas palavras incessantes e pouco espaçadas do professor excessivamente simpático mal centralizado na tela de seu computador, Diogo já começava a se distrair, apesar dos gestos exagerados e constantes que acompanhavam cada aumento aleatório de volume em uma palavra no meio das frases. Mal iniciava a noite de estudos e os fones de ouvido já incomodavam, embora um pouco menos que o ego ferido pela pequena repreensão difusa nas palavras incentivadoras do professor, uma acusação disfarçada de piada que atingia diretamente os arquivos ilegais que enchiam o disco rígido, baixados a muito custo e pouca conexão durante horas da noite anterior e do dia que terminava.

“Então sem mais demoras, vamos ao tema da aula de hoje, que é a primeira aula de Direito Especulativo, um tema cada vez mais em alta nas bancas de concurso, um tema que você tem que dominar pra poder passar, gente, sem direito especulativo você não vai a lugar nenhum. Nem na prova, nem na vida”

Assumindo vida própria e motivada por seus insondáveis desígnios íntimos, a caneta azul de Diogo traçava elipses descuidadas ao ao redor da única palavra que o papel de anotações ostentava até agora: “carteirada”. A caneta incomodava as falanges em que se apoiava, mais desconfortável que os dedos que a seguravam, ansiosa por se libertar da tarefa inútil que a confiaram. Queria abandonar os rabiscos curvos que, antes abertos e distantes, orbitando uma palavra infame, começavam a tangenciar o c e o último a do isolado termo, prenunciando as colisões fatais que transformariam a informação solitária em um borrão azul-escuro.

Um borrão que certamente diria mais sobre o estado mental de Diogo diante da vídeo-aula que qualquer palavra que viesse a escrever. O homem à sua frente, a pequena imagem a trinta centímetros cuja boca que não parava de se mexer, vazando pelo canto dos lábios sons cada vez mais incompreensíveis, ia se tornando uma mancha, uma amálgama da camisa social branca com a parede, discernível enquanto indivíduo, por enquanto, apenas pela gravata de cor que Diogo não sabia nomear.

“Pra começar, vamos falar do tema mais cobrado nas provas hoje em dia, princípios do direito especulativo, gente, anotem isso, é importantíssimo, certo? São os princípios do direito especulativo:”

Distraído por um importante deslocamento de uma pequena aranha de pernas finas que subia a parede atrás do monitor, Diogo segurava a caneta entre o indicador e o dedo médio, golpeando o papel com o plástico transparente da ponta que não escrevia. Saudosa dos rabiscos, a caneta se amaldiçoava por ter desejado abandonar sua tarefa penosa anterior, que se era inglória ao menos não doía. A aranha passou por uma colega de parede que descia, esta visivelmente menor, ambas se ignorando no encontro, certamente ocupadas com suas relevantes questões pessoais, suas teias nos cantos que encontravam com o teto, ou os seus insetos cativos semivivos que fugiam sem querer em queda livre para se ocultarem no rejunte escuro do chão.

“Primeiro: Ignorância Absoluta do Tema – é o princípio que determina que você como operador do direito especulativo deve desconhecer completamente o assunto do qual você está tratando, você não deve ter a menor ideia de por onde começar e pra onde ir, deve estar cego no meio do tiroteio, tá gente? Se você sabe alguma coisa, trate de esquecer imediatamente, principalmente na prova discursiva, okay?”

Na tela a mancha falante de gravata alternava seu espaço mal dividido com slides cheios de texto, cores e sistematização. Diogo pensava se tudo podia ser dividido em pontos e decorado, primeiro o um, depois o dois, depois o três, às vezes o quatro. Se a existência era assim, enumerável, contável, se os slides traziam a verdade em tópicos, se a sua vida estava ali, perdida abaixo do subitem quatro do item três do slide oito, ou se a substância dos concursos era diferente, e por isso se fazia tão estranha em suas horas de estudo. E, em uma meditação mais urgente, tentava se lembrar se o rejunte era mesmo escuro, ou se estava encardido. E se a aranha menor achou o que procurava, agora que voltava para o alto. Ou se, e reviravoltas acontecem, era outra aranha.

“E o segundo princípio do direito especulativo, qual é, gente? É o da Imprevisibilidade Teórica Completa – significa que para duas situações semelhantes o resultado será completamente diferente. Sempre. Sempre diferente, porque se fosse algumas vezes igual, você poderia esperar alguma coisa semelhante em alguns casos. Não, gente, uma decisão baseada em direito especulativo tem que ser completamente diferente de uma decisão em um caso igual. Não pode dar margem pra estatística tentar prever alguma coisa, exceto que tem que ser absolutamente diferente.”

Preocupado com a possibilidade de se sair bem na prova e ser convocado para tomar posse em um cargo público, Diogo pensava que talvez devesse voltar sua atenção para a tela, temeroso de cair no meio de um setor importante onde seria cobrado incessantemente todos os dias em testes intermináveis de seus conhecimentos sobre, diga-se, seja lá qual tema estudaria hoje. Já nem se lembrava do assunto tratado nos slides confusos, nem quem era aquela figura esbranquiçada e ruidosa com uma listra vertical de cor divertida, mal posicionada na tela de seu monitor.

Subitamente cansado, repousou a testa sobre o papel e, mordendo a capa plástica pelo meio, agarrou com os dentes a caneta que agora só desejava morrer e abandonar suas agonias e sua falta de propósito. Diogo fez um esforço para se lembrar de algo que importasse. Qual era sua idade? Tentava adivinhar, já que não sabia uma resposta certa. Pensou no futuro, e logo a esperança ingênua dos mais jovens o recordava que tinha algo nada longe dos vinte anos. “Não”, se corrigiu, em pânico. “Isso foi há muito tempo”, logo a memória o traiu. Pois lembrar que os trinta já passavam era uma inesperada traição da sua mente. Não importava que fosse fato, esperava mais da sua conturbada profundeza mental. Mais compreensão, mais alento e menos verdade era o que precisava agora.

Tantas coisas falsas subiam do interior de suas divagações, por que justo essa fazia questão de se apresentar, implacavelmente empírica, do alto das incontestáveis evidências de data e local de nascimento, estampadas em todos os documentos ao lado de uma prova fotográfica de sua ruína externa?

“O terceiro princípio, gente, dizem que é o mais importante, é o da Dualidade não Mutuamente Exclusiva da Realidade – esse princípio significa que uma mesma assertiva de direito especulativo pode estar ao mesmo tempo certa e errada em contextos iguais.”

Diogo tirou os fones de ouvido com um tapa desajeitado e os deixou cair na mesa. No monitor nada além da cor branca era visível. Sem o incômodo da voz imparável que começou aguda e se transformou em um zumbido rouco e constante no final, o redemoinho em sua mente começava a deixar cair o entulho que remexia impiedosamente até alguns segundos antes. A poeira ainda era intensa, mas a quietude iniciava sua silenciosa guerra pelo domínio absoluto.

Ainda de cabeça baixa, tirou a caneta da boca. Virou-se de lado e a manipulou nas mãos. A triste caneta, transparente e azul como todas as suas irmãs, se sentia abusada e violada, mas feliz por ter saído dos dentes duros e úmidos que a oprimiam. Diogo a olhava, contemplativo. “Tão simples”, pensou. “Um tubo dentro de outro tubo, e uma ponta”.

Simples demais, até. O que fez em seguida a caneta descreveria pelo resto de seus dias como um pesadelo em névoa, nada mais, descrente de que passara por tão extrema humilhação e dor. Por respeito, e como uma forma de poupar aquele jovem e gentil instrumento de ter em algum lugar escrito em detalhes os horrores daquela noite sobre a mesa de estudos, da qual muito pouco se lembra, principalmente por ser uma caneta, limito-me a mencionar que Diogo a manipulou com as mãos, e a deixou espalhada à frente dos seus olhos curiosos de estudante, desmontada, nua, com tampas, tubo de tinta e capa plástica separadas sobre o papel rabiscado.

Analisando excessivamente cada parte por longos minutos, obcecado por um objeto que fazia parte de sua rotina mas que agora parecia uma inovação de análise inadiável, Diogo se deteve com mais atenção ao tubo de tinta. Que a caneta perdoe o toque em sua ferida emocional, mas ele olhou o tubo pela a abertura superior, a ponta que escrevia, observou o nível da tinta. Quis saber porque a tinta não voltava pelo tubo, mas antes preferia o caminho da ponta, de muito menor calibre.

Remontou a caneta, que há muito e para o próprio bem estava desacordada pelo choque, e a restaurou a mínima dignidade. A olhou completa, e agora que conhecia as suas entranhas pensou melhor sobre ela. Lembrou da tinta que saía pelo caminho mais estreito, sem nunca voltar. Do papel jamais voltaria ao reservatório, e nenhum mecanismo interno a impediria de correr no caminho oposto, fazendo o traço no papel uma mera depressão sem cor. Não é da natureza das canetas garantir que o branco das folhas receba apenas aquilo que compensa a tinta e o esforço. “Valer a pena”, disse baixo, entre os lábios, sorrindo e despertando a caneta, que encontrou o rosto renovado de Diogo pensando num significado que sempre lhe escapou.

A caneta voltou a si quando escrevia novas palavras, menos sistematizadas e com mais sentido do que as que eram exibidas na aula de há pouco, contendo nenhuma referência ao que o professor falava. Não considerava seu sofrimento de minutos antes, pois canetas são conhecidas pela pouquíssima memória e pela empolgação sincera com novidades.

Diogo escreveu até que o parágrafo encontrou os rabiscos elípticos de mais cedo. Lamentou que aquela tinta tão mal despendida não pudesse voltar ao tubo e seguir existindo nas frases que planejava para ela. Mas foi rápido para se recompor e perceber, numa renovação de ânimo juvenil, o fato que mais importava então.

A maior parte do papel estava em branco.

Os sons da cidade

O ponteiro grande do antiquado relógio de parede estava na sexagésima e última parte do ciclo final de suas viagens circulares, aquele que anunciava o fim de meu turno, promovendo minha alegria com um tic tic irritante, me liberando da tarefa de vigiar a madrugada dos nada-acontece, olhar para uma tela de computador que não muda, e patrulhar os fantasmas das improbabilidades que tornam necessária a minha presença em uma escrivaninha às cinco da manhã, permanecendo acordado no sentido que o termo adquire depois das meia-noites solitárias.

Prestavam-me solidariedade uns bichos que teimam em se comunicar à noite, não sei se por hábitos noturnos ou atraídos para o gramado do pátio pelas luzes que enganam os menos atentos, fazendo-os pensar que a noite resolveu ser um dia estranho e frio de luzes mais brancas e que mudam as cores das coisas. Se é que enxergam cores todos.

Pela janela vi uma família de capivaras atravessar a rua. Oito animais marrons, os maiores grandes o suficiente para assustar os cachorros de rua que vasculhavam o lixo e se afastaram confusos e com medo dos gigantes que cercavam os filhotes na comitiva que buscava o matagal da beira de igarapé perto de um terreno baldio que nunca foi do interesse de ninguém. Logo sumiram de minha vista, escondidas por ervas daninhas e lixo.

Pensei no azar que esse grupo de bichos teve ao vir acabar no meio de uma cidade. Não demorei para me corrigir – tiveram sorte, na verdade. No campo já teriam sido vítimas da espingarda e assados em uma festa sem pompas e sem ocasião que a justificasse. Grandes e gordas, gigantes intocáveis entre cadelas magras e gatos ariscos, competem pelo mato apenas com a especulação imobiliária.

Meu substituto chegou trazendo uma garrafa de café e a minha liberdade, me lembrando que ainda havia pessoas acordadas além de mim. Falando efusivamente, me lembrou também como era a voz humana. E eu não gostava dela, também lembrei. Aceitei uns goles do quentíssimo e forte café, que desceram minha garganta entregando uma leve satisfação e devolveram em recompensa algumas monossílabas que serviram como minhas respostas verbais.

Deixei meu colega sofrer a vez de sua desgraça e respirei os ares superiores que sopravam livres e cheios de aroma além do portão de entrada. Caminhava enquanto meus passos pareciam empurrar o Sol para cima, e cheguei em casa já sob um céu azul acima e cheio de cores à frente, o que me tirou a fome e a vontade de continuar ao ar livre.

Escondido da maior parte das luzes da manhã pelas cortinas espessas, deitei em minha cama. As frestas e pequenos buracos no tecido contaram contra a minha vontade que o Sol estava acima do horizonte. E junto com os raios de luz não convidados meu horror se apresentou – os sons da cidade começaram a tocar.

Meu vizinho da esquerda continuava não acreditando que motores a gasolina, ao contrário de seus antigos carros a álcool, não precisavam de aquecimento de manhã, e passou os tradicionais minutos seguintes com seu seu sapato de couro levemente posicionado sobre o acelerador, enchendo minha casa daquele ruído constante das máquinas nervosas.

O vizinho da direita mais uma vez tinha identificado algum reparo urgentíssimo no quintal de sua casa, o que tinha se tornado comum depois de sua aposentadoria. Obviamente, o reparo envolvia batidas vigorosas de martelo que percurtiam severas na madeira e no interior de minha cabeça, e precisava começar junto com o dia, já que aposentados parecem transformar a luz solar em energia diretamente.

As obras de reforma de uma casa próxima começaram cedo. E como é costume dos trabalhadores de construção, a tarefa mais barulhenta do dia é sempre escolhida para ser primeira. A máquina que cortava a cerâmica brigava com o duro material, e o ruído agudo que subia da batalha não permitiria que a paz fosse decretada até que um dos dois perdesse. A cerâmica perdia sempre, e anunciava a derrota com um aguardado clec no chão, dando início a um cessar fogo de um ou dois minutos. A guerra não terminava antes do meio dia.

Dormi pouco e mal, caindo no sono sem perceber quando. Após pesadelos ruidosos, acordei ao meio-dia com fome. Culinariamente desencorajado pela geladeira e pela pia, saí à rua atrás de um restaurante. Encontrei com os pedreiros da reforma, guardando seus equipamentos e saindo também para almoçar. O vizinho aposentado estava sentado em um banco à frente de sua casa, olhando a rua e as pessoas que passavam. Seu cumprimento foi um aceno de cabeça em minha direção, que trouxe junto uns olhos julgadores, certamente dando algum veredito íntimo que condenava a minha cara de sono.

O restaurante estava cheio, como era de se esperar. Era lamentável que minha fome viesse junto com a de todas as outras pessoas mas meu sono não. Servi a comida de gosto adequado e procedência duvidosa e me sentei à mesa pensando apenas nas batatas e no contra-filé, esquecendo-me de imediato que precisava de algumas horas de sono e de uma vida em seguida.

Enquanto tentava identificar entre os cortes que carne de fato era aquilo que me venderam como contra-filé um antigo amigo surge por sobre o topo da montanha de comida que eu minerava em passo acelerado. Sentou-se à minha frente sem o desnecessário convite com uma modesta planície de carnes e saladas, cuidando das mangas da camisa e da gravata, iniciando a conversa com sua típica amabilidade.

– Que cara amassada. Você está horrível.

– Pudera, não dormi – respondi de boca cheia; tanto fazia a carne agora.

– Seu turno foi cheio?

– Nada aconteceu. Não dormi depois de sair e chegar em casa.

– Insônia? Eu tomo um remédio muito bom, tem um médico amigo meu que…

– Não é insônia, minha vizinhança é muito barulhenta. Chego em casa e não tenho um minuto sem algum ruído incômodo. Meus turnos noturnos me deixam sem dormir, mas fico muito melhor apenas com aquele zumbido dos bichos à noite.

– Ora, você tem que fazer alguma coisa. Não é bom se sentir melhor no trabalho que em casa.

– Eu não me sinto, só me agrada o maior silêncio. Mas o que eu poderia fazer? Mudar pra uma fazenda? Lá as galinhas também me acordariam cedo.

– Você pode promover algumas regras na vizinhança quanto ao barulho. Na verdade já existem leis pra isso, existem limites de ruído que as pessoas podem fazer numa área residencial e…

Meu amigo continuou falando de regras, leis, decretos, autoridades e medidas. A distração me alcançou quando ele passou a falar de valores de honorários e juízes favoráveis, e passei a pensar na situação por um instante, ignorando a voz jurídica à minha frente. Pensei em impedir o velho de bater o seu martelo, pensei em fazer com que a senhora da frente tivesse que se satisfazer com sua cerâmica antiga, áspera e feia, e obrigar que os estudantes que alugaram a casa de quatro quartos da esquina fizessem festas sem som alto. Parecia um mundo aceitável, até eu perceber que seria uma vizinhança com uma pessoa feliz em sua quietude, e uma sociedade de pessoas de vontades reprimidas à volta. Um velho sedentário, uma senhora irritada com seu chão, e jovens que deveriam sorrir fechando a cara quando me vissem, com as expressões graves e a falta de diversão que deveriam reservar para depois da formatura.

– Não faria isso – expressei minha decisão, para enfim conseguir uma pausa no fluxo de informações irrelevantes que atrevessavam a mesa.

– Por que não? Vai continuar sem dormir?

– É melhor – concluí. – Eu amo o silêncio. É melhor sentir saudades que conquistar um amor às custas dos amores alheios, ou o proteger com um fardo de regras.

Meu amigo ajeitou a gravata e me olhou mastigando de boca aberta, não sei se pensando sobre o que eu disse ou sobre mim, deixando bem claro que não entendia nada daquilo com sua mente de advogado.

– Mas voltando um pouco – emendei, resolvendo ser normal. – Fale mais sobre esse remédio que você toma…

Bananas Prata

Já terminava a segunda década após a humanidade ter uma significativa evolução em vários sentidos de sua existência. A eliminação da tecla Caps Lock dos teclados era a primeira evidência visível da nova era para uma pessoa do início do século XXI. Outra era que os presídios tinham sido demolidos em sua maioria, restando umas poucas casas de prisão onde cumpriam pena os únicos infratores que ainda ficavam criminalmente reclusos: os reincidentes do delito de compartilhar em broadcast frases motivacionais embutidas em imagens.

Os antigos hábitos prejudiciais foram abandonados e deram lugar ao resgate de costumes ancientes e a práticas mais evoluídas e saudáveis, como a nova onda de abertura de frutarias. A de Juarez talvez fosse a melhor opção na cidade, embora as pencas de banana prata nunca durassem até depois das quatro da tarde. O fornecedor não conseguia entregar mais, apesar dos insistentes pedidos.

Juarez vendeu o último pacote de mangas do dia, se despediu de um casal que fazia sexo em um banco no canto da loja, tentando se lembrar se conhecia algum deles, e saiu. No caminho para casa, como já era tradicional, parou na loja de Xavier e comprou quatro pastilhas para a noite. Xavier o impediu de sair imediatamente, contudo.

– Juarez, hoje as pastilhas estão mais caras.

– Quanto?

Em resposta, Xavier estendeu o braço e puxou quatro pêlos enrolados em volta do mamilo esquerdo de Juarez. Segurou os fios acima da cabeça de ambos, deixou-os cair e observou atentamente o caminho que faziam até o chão. Juarez o seguia com os olhos cada ação, sem pensar.

– Está pago – anunciou Xavier depois da cena.

Sem questionar ou demonstrar afetação, Juarez saiu e continuou até o prédio onde costumava morar naquela semana. Ofegante após subir oito lances de escadas, Juarez parou em frente à porta do apartamento de Letícia, sua jovem vizinha. Apertou a campainha e esperou a resposta, que não veio. Insistiu por mais duas vezes e não foi respondido. Desistiu e entrou em seu apartamento, logo ao lado.

Caiu sobre si no sofá e colocou uma pastilha embaixo da língua. Dois minutos depois um homem baixo, sem barba, com roupas apertadas de múltiplas camadas e pele esverdeada começou a falar imperativamente pela sala com uma voz cujo tom avermelhado das linhas difusas irritava o canto dos olhos, cobrando que Juarez acordasse cedo e cumprisse prazos e obrigações. Juarez ria sem parar do discurso absurdo enquanto acariciava o leopardo que tinha entrado pela janela. Chovia penas de faisão torrencialmente, e os agudos trovões em fá sustenido dificultavam a compreensão da reclamação do gorila de óculos sentado à mesa, protestando efusivamente contra a falta de bateria de sua calculadora científica, balançando sua caneta no ar nervosamente.

Letícia saiu da geladeira nua e com um rolo de silver tape na mão. Cumprimentou Juarez com um abanar rápido das orelhas e atravessou a parede até seu apartamento, onde o mundo acabava com explosões retumbantes de rolhas de espumante. A jovem voltou logo em seguida, pelo teto, em um vestido longo de festa e com o rosto pintado de branco ao estilo dos pantomimeiros. Contou sobre o seu dia com as bolhas de sabão que saíam de sua boca e dormiu abraçada às asas de um dos malamutes da banda. Juarez também adormeceu, de cabeça para baixo com os pés apoiados na cachoeira de gelatina.

Juarez acordou com um vestido de festa e o rosto pintado de branco ao estilo dos pantomimeiros. Letícia dormia apoiada na mesa, com o rosto sobre uma casca de banana prata e uma calculadora na mão. Já era dia há algumas horas, e as nuvens verdes no céu anunciavam uma tarde chuvosa e indicavam um inesperado efeito colateral das pastilhas. Cozinhou ovos e fez café. Letícia aceitou o café, mas preferiu uma banana prata para comer.

Juarez saiu em seguida pisando descalço no chão molhado, e até as doze horas trabalhou em sua frutaria.

– Cadê o Juarez? – perguntou um adolescente que sempre comprava pêras.

Antes de sair para almoçar, Juarez foi ao lavabo nos fundos, enxaguou a tinta branca do rosto e tirou o vestido de festa, ficando apenas com o calção que costumava usar em horas de trabalho. Sentiu fome, e resolveu procurar um lugar para almoçar. No caminho aleatório que fazia passou a ouvir gritos animados uma multidão, e resolveu seguir a direção do som. Encontrou pessoas amontoadas na calçada, entusiasmadas com uma disputa de justa que acontecia na rua. Era um pouco diferente da disputa antiga, é verdade. Não havia cavaleiros vestindo armadura, mas mulheres nuas sobre as montarias, com bananas prata na mão em vez de lanças. Cada uma tentava esfregar a fruta contra os seios da outra. Ganhava que o fizesse sem derrubar a adversária do cavalo.

Juarez entendeu enfim porque nunca conseguia suprir sua demanda por bananas. Solucionado o principal mistério de sua vida então, fechou a frutaria no dia seguinte e se tornou lutador de justa de rua. Lutava vestido de cavaleiro medieval, enfrentando mulheres nuas que sempre ganhavam.

Fora de Casa

Cansado do tédio arrastado da vida na Terra, lançou-se um dia ao espaço, conforme uma prática bem estabelecida entre os imortais da sua época. Seu primeiro prazer foi sentir a falta do ar. Não a sensação asfixiante que os antigos experimentavam, mas uma liberdade e uma fluidez nos movimentos que o deslumbravam. Passou horas olhando para suas mãos fazendo movimentos rápidos à sua frente, sem qualquer fricção limitante.

Na segunda volta que dava ao redor do planeta sentiu que a força que antes o puxava para baixo implacavelmente também era capaz de dar empurrões. Foi lançado de frente para o completo vazio, de costas para o Sol, como se a Terra não só se despedisse, mas o expulsasse. “Vá e não volte mais”, imaginou a bola azul e branca atrás de si dizendo. Não queria voltar mesmo, então não se importava.

Passou os dias seguintes esperando chegar à Lua, mas descobriu, para sua decepção, que tinha sido lançado na direção oposta, em um último desgosto que a Terra promovia, já que queria encontrar alguns conhecidos na superfície lunar. Não fazia mal, entendia. Faltava cinco planetas e outros astros até as fronteiras do Sistema Solar, e não achava possível ser tão azarado.

Ainda contava o tempo, e percebeu meses depois que errou Marte por muito. Vários colegas de escola estavam possivelmente lá, e novamente lamentou a oportunidade perdida de ver outros que abandonaram a Terra. Poderia ter sido menos impulsivo e ter se lançado ao vazio com mais planejamento. Mas, impetuoso como era, não queria esperar, e antes que a depressão terrestre se agravasse, partiu no dia em que sua vontade nasceu. Sua vontade não se alinhava aos planetas, viu rápido.

Em algum lugar antes da órbita de Júpiter percebeu o quanto o espaço era, na verdade, quase que completamente sem nada. Não via coisa alguma há meses, nem ninguém. Todas as coisas se resumiam a pontos brilhantes à sua volta. Os modelos em escala dos planetas em suas revoluções ao redor do Sol faziam parecer que viajaria por um lugar mais povoado, nem que fosse por uma população de rochas. Não via nem elas, pequenas ou grandes. Semanas antes tinha sentido uma perturbação à sua esquerda. Sutil, mas uma vida no vazio de forças pequenas em atuação aguçaram sua percepção de aceleração. Presumiu que tinha passado próximo a algo grande. Não sabia o quê, não tinha visto o quê, mas tinha sentido, em uma experiência que viu como quase mística.

Até que, contra todas as chances, encontrou alguém. Era um homem jovem, e ia na mesma direção, embora um pouco mais lento, desacelerado por algum dos vários corpos celestes à volta que, escondidos, exerciam suas forças ocultas sem avisar. Passaram alguns minutos próximos um do outro, comunicando-se por gestos. O homem mais lento tentava se fazer entendido, sem o menor sucesso. Até que sacou de sua mochila um bloco de anotações e um papel. Escreveu: “se estamos em um Cinturão de Asteróides, então o que é esta coisa superdensa segurando desnecessariamente minha calças?”

Riram silenciosamente, e deixaram um ao outro novamente sozinhos no vazio. Semanas depois deixou o Cinturão sem ver nem mesmo um asteróide. Para o seu desconsolo não via Júpiter também, a menos que olhasse para trás para um ponto distante e de brilho fraco. Não havia como se encontrar com o maior planeta da vizinhança. Chorou de saudades do humor do último ser humano que tinha visto um mês antes. As lágrimas congeladas acompanharam seus olhos pelos anos seguintes. Não havia nada para ver a não ser os mesmos pontos brancos, então não se incomodou as limpar.

Errou Urano e Netuno. Plutão e Éris, em seus planos estranhos, não esperava mesmo encontrar. Tinha parado de contar o tempo, e não sabia nem como medir a passagem dos momentos agora. Não fazia sentido falar em “dia” e “noite”. Tudo era profundamente escuro ou distantemente claro. Mal via a si próprio além do branco de sua camisa.

Passou assim o que talvez fossem décadas, ou talvez fosse um segundo. Devia estar na Nuvem de Oort, pensou em certa ocasião, e sorriu ao pensar que o lugar era tanto uma nuvem quanto o Cinturão de Asteróides era um cinto. Não via nada, e chorou mais uma vez, enchendo os olhos de mais uma camada de gelo.

Tinha parado de pensar, encarando apenas o nada, sem saber para onde ia. Era como um sono sem sonhos, catatônico nas trevas. Até que sentiu algo. Não sabia quanto tempo fazia desde sua última sensação. Era a única coisa capaz de sentir nos últimos períodos que chamava de anos: aceleração. Ou desaceleração, dependendo do ponto de vista. Algo o atraía. Algo grande, já que sentia uma força considerável o puxando. Sorria e limpava o gelo de seus olhos, tentando ver algo, talvez um grande asteróide ou um planeta anão. Não viu nada, e se desesperou quando percebeu que não mais acelerava. O corpo brincalhão talvez tivesse passado por perto e apenas cumprindo a irônica missão de o parar completamente nas trevas, o sentenciando a nunca chegar a lugar nenhum.

Caiu em novo transe paralisante. Pareceu apenas um instante depois, talvez por ter sido mesmo apenas um intante depois, talvez pela ilusão da paralisia, mas acordou com uma luz intermitente que incomodava seus olhos. A luz depois iluminou algo à sua frente. Alguém, na verdade. Demorou para reconhecer o que, para seu espanto, era uma mulher vários metros distante. Os pensamentos voltaram. “Uma mulher com luz própria? O que mudou no Universo? Não, tolo, é uma lanterna…”

Era uma mulher jovem como ele. Pelo menos jovem como ele era desde que se lembrava. Aos poucos voltou a mexer braços e pernas. A mulher parecia não se mexer, e nem ele, em nenhuma direção.

Pensou que talvez seus corpos se atraíssem com o tempo. Demoraria, mas que tempo era espera grande o suficiente para ele agora? Pôs-se a aguardar, enquanto sentia seu corpo voltando a funcionar. Os sentimentos voltavam também. Tinha apenas identificado que era uma mulher, mas já a desejava. E o desejo trazia outro sentimento então perdido – a ansiedade. Não queria esperar mais, não aguentava mais a ver e não poder tocar. Outros sentidos mandaram lembranças – sentiu o sapato incomodando seu pé. Por um instante ficou feliz por sentir algo diferente, mas logo tirou um sapato e o jogou para trás, sobre os ombros. Acelerou com isto seu centro de massa e, por isso, também o seu ritmo cardíaco. Percebeu como chegar mais rápido ao seu único objetivo em um tempo que parecia infinito.

Lançou para trás seu outro sapato, depois seu casaco. A mulher entendeu rápido o que se passava, e passou a fazer o mesmo. Foi-se a camisa e a blusa, as calças e as peças íntimas. Animado, pensava que além de chegar a ela já chegaria nu, cumprindo dois objetivos. Lentos mas constantes, os dois corpos se moviam em rota de colisão. Ou pelo menos era o que achavam. Já próximos perceberam um erro de direção em algum dos lançamentos. Transtornado, tentavam fazer algo para corrigir o caminho, mas o combustível tinha acabado. Passaram um ao lado do outro, e os braços estendidos tentaram se alcançar, inexoravelmente separados por dois palmos.

Quase alcançou algumas das peças de roupa deixadas para trás pela mulher. Pensou a princípio se a encontraria de novo, em mais uma ilusão que voltou com sua humanidade restaurada. Pensou depois se ela estava indo agora em direção à Terra, e se algum dia contaria aquela história para alguém. Quando deixava novamente as sensações humanas e a noção de si mesmo para trás, reconheceu naquilo outra ilusão, e gastou o que restava de homem em seu interior para pensar em alguma forma de morrer.

Geni, A Prova Viva

Durante duas semanas inteiras os canais de televisão brasileiros transmitiram a intervalos irregulares trechos da vida e sofrimento de uma jovem estudante de Direito de uma grande cidade do país. A moça se chamava Geni, e tinha sido apedrejada no campus de uma universidade por um grupo de estudantes de História da Arte, auxiliados por alguns mestrandos em sociologia, que se encarregaram de jogar estrume em apoio às pedras.

Todos foram conduzidos para delegacia, exceto Geni, levada em coma para o hospital. Ninguém ficou preso por muito tempo, entretanto. O advogado do líder do grupo argumentou em juízo que os estudantes agiram orientados por uma música popular, reprentando dramaticamente um conhecidíssimo refrão, propagando a cultura em rede nacional, expondo a dor e humilhação das mulheres que dão para qualquer homem. Um juiz inocentou o grupo baseado em tal argumento, mas condenou o advogado e os rapazes a prestar serviços sociais por chamar a obra de Chico Buarque de “popular”, vulgarizando-a. Geni, virgem, morreu no hospital pouco tempo depois.

Geni nasceu normalmente na primeira década do século XXI, filha de Relair, um inteligente engenheiro e colunista político no tempo livre. Relair era um homem de raciocínio rápido e incisivo nas palavras, sendo bastante citado – a maioria das vezes negativamente, dada sua fama de “reacionário”.

Tinha como inimigos alguns ícones da esquerda, embora a maoiria deles não o conhecesse. Uma parcela, contudo, o conhecia bem e lia o que Relair escrevia, mas fazia questão de parecer o ignorar, além de responder aos pedidos de réplica de leitores em comum com um efetivo e desonesto “Relair quem?”.

Uma decisão importante e absurda da vida de Relair foi o nome de sua filha. Odiava Chico Buarque, e se cansou de ver o artista que tanto desprezva exaltado pela crítica. O engenheiro-colunista decidiu então mostrar para seus leitores e para a sociedade que na verdade Chico não fazia diferença. Batizou Geni sua filha, pretendendo demonstrar que a obra de Chico não tinha eco na vida de qualquer brasileiro. Sua pequena filha seria a prova viva que os “esquerdalóides”, como chamava seus adversários, eram inúteis. A esposa de Relair não se manifestou em contrário. Já não argumentava com o marido há dezesseis anos, e disse para algumas amigas que não quebraria esse tabu por tão pouco.

A primeira evidência que a ousadia de Relair daria resultados imprevistos se deu na escola. Na sexta série sua primeira professora de matérias relacionadas às ciências humanas repararou no nome Geni em suas listas de chamada. Procurou a menina, e pediu que enviasse a seu pai os “cumprimentos por ter a coragem de homenagear um artista brasileiro de tamanho quilate, ainda mais com um nome tão ousado, tendo em vista a subversão lirista do Grande Poeta na criação da personagem em questão”. Tais cumprimentos foram enviados em um bilhete, e copiados aqui ipsis litteris, incluindo a capitalização.

Geni gozava de prestígio nas aulas de filosofia, sociologia, história e geografia. Suas redações eram sempre lidas com destaque na aula de literatura. A essa altura Geni gostava dos benefícios que seu nome lhe trazia, ainda ignorando o motivo. Mas algo mudou profundamente após um evento em sua escola, em que participaram professores e pais. Relair compareceu, deixando bem claro que era Relair e porque era conhecido. Discutiu com todo o corpo docente, questionando sobre coisas que sua filha aprendia e vociferando contra o que entendia ser “doutrinação de crianças no seio da educação básica nacional”.

Ao identificarem o pai de Geni o tratatamento dado à moça pelos professores mudou. Agora a tratavam com frieza, e a chamavam entre si de “cria do reaça”. A animosidade começou a aparecer durantes as aulas, e os outros alunos absorveram a hostilidade dos professores, em um processo bastante comum nas escolas.

Em uma aula de literatura no último ano de Geni no ensino médio, a professora apresentou Geni e o Zepelim para uma análise poética, ciente da possível confusão que desencadearia. A aula não demorou a evoluir para a prática. Foi a primeira vez que jogaram pedra na Geni. Pedras simbólicas, evidentemente, representadas para alívio da vítima por bolas de papel amassado. A partir da explicação de seu pai e do delegado de plantão horas depois, Geni aprendeu o significado do termo bullying naquele dia, antes de entender a diferença política entre esquerda e direita e também sobre o que trata Geni e o Zepelim.

Eventos semelhantes aconteciam esporadicamente durante a carreira acadêmica de Geni que, amaldiçoada pelas próprias escolhas, contrariou o pai e entrou no curso de Direito de uma universidade federal. O trágico apedrejamento se deu em seu segundo ano de faculdade.

Relair viu sua prova viva morrer no hospital, desfigurada e com vários ossos quebrados. Mudou-se do país, dizendo-se perseguido, acusando a esquerda de ter matado sua filha para o calar. Mas nunca falou tanto como desde então.

Durante duas semanas inteiras os canais de televisão brasileiros transmitiram a intervalos irregulares trechos da vida e sofrimento de uma jovem estudante de Direito de uma grande cidade do país. A moça se chamava Geni, e tinha sido apedrejada no campus de uma universidade por um grupo de estudantes de História da Arte, auxiliados por alguns mestrandos em sociologia, que se encarregaram de jogar estrume em apoio às pedras.

Todos foram conduzidos para delegacia, exceto Geni, levada em coma para o hospital. Ninguém ficou preso por muito tempo, entretanto. O advogado do líder do grupo argumentou em juízo que os estudantes agiram orientados por uma música popular, reprentando dramaticamente um conhecidíssimo refrão, propagando a cultura em rede nacional, expondo a dor e humilhação das mulheres que dão para qualquer homem. Um juiz inocentou o grupo baseado em tal argumento, mas condenou o advogado e os rapazes a prestar serviços sociais por chamar a obra de Chico Buarque de “popular”, vulgarizando-a. Geni, virgem, morreu no hospital pouco tempo depois.

Geni nasceu normalmente na primeira década do século XXI, filha de Relair, um inteligente engenheiro e colunista político no tempo livre. Relair era um homem de raciocínio rápido e incisivo nas palavras, sendo bastante citado – a maioria das vezes negativamente, dada sua fama de “reacionário”.

Tinha como inimigos alguns ícones da esquerda, embora a maoiria deles não o conhecesse. Uma parcela, contudo, o conhecia bem e lia o que Relair escrevia, mas fazia questão de parecer o ignorar, além de responder aos pedidos de réplica de leitores em comum com um efetivo e desonesto “Relair quem?”.

Uma decisão importante e absurda da vida de Relair foi o nome de sua filha. Odiava Chico Buarque, e se cansou de ver o artista que tanto desprezva exaltado pela crítica. O engenheiro-colunista decidiu então mostrar para seus leitores e para a sociedade que na verdade Chico não fazia diferença. Batizou Geni sua filha, pretendendo demonstrar que a obra de Chico não tinha eco na vida de qualquer brasileiro. Sua pequena filha seria a prova viva que os “esquerdalóides”, como chamava seus adversários, eram inúteis. A esposa de Relair não se manifestou em contrário. Já não argumentava com o marido há dezesseis anos, e disse para algumas amigas que não quebraria esse tabu por tão pouco.

A primeira evidência que a ousadia de Relair daria resultados imprevistos se deu na escola. Na sexta série sua primeira professora de matérias relacionadas às ciências humanas repararou no nome Geni em suas listas de chamada. Procurou a menina, e pediu que enviasse a seu pai os “cumprimentos por ter a coragem de homenagear um artista brasileiro de tamanho quilate, ainda mais com um nome tão ousado, tendo em vista a subversão lirista do Grande Poeta na criação da personagem em questão”. Tais cumprimentos foram enviados em um bilhete, e copiados aqui ipsis literis, incluindo a capitalização.

Geni gozava de prestígio nas aulas de filosofia, sociologia, história e geografia. Suas redações eram sempre lidas com destaque na aula de literatura. A essa altura Geni gostava dos benefícios que seu nome lhe trazia, ainda ignorando o motivo. Mas algo mudou profundamente após um evento em sua escola, em que participaram professores e pais. Relair compareceu, deixando bem claro que era Relair e porque era conhecido. Discutiu com todo o corpo docente, questionando sobre coisas que sua filha aprendia e vociferando contra o que entendia ser “doutrinação de crianças no seio da educação básica nacional”.

Ao identificarem o pai de Geni o tratatamento dado à moça pelos professores mudou. Agora a tratavam com frieza, e a chamavam entre si de “cria do reaça”. A animosidade começou a aparecer durantes as aulas, e os outros alunos absorveram a hostilidade dos professores, em um processo bastante comum nas escolas.

Em uma aula de literatura no último ano de Geni no ensino médio, a professora apresentou Geni e o Zepelin para uma análise poética, ciente da possível confusão que desencadearia. A aula não demorou a evoluir para a prática. Foi a primeira vez que jogaram pedra na Geni. Pedras simbólicas, evidentemente, representadas para alívio da vítima por bolas de papel amassado. A partir da explicação de seu pai e do delegado de plantão horas depois, Geni aprendeu o significado do termo bullying naquele dia, antes de entender a diferença política entre esquerda e direita e também sobre o que trata Geni e o Zepelin.

Eventos semelhantes aconteciam esporadicamente durante a carreira acadêmica de Geni que, amaldiçoada pelas próprias escolhas, contrariou o pai e entrou no curso de Direito de uma universidade federal. O trágico apedrejamento se deu em seu segundo ano de faculdade.

Relair viu sua prova viva morrer no hospital, desfigurada e com vários ossos quebrados. Mudou-se do país, dizendo-se perseguido, acusando a esquerda de ter matado sua filha para o calar. Mas nunca falou tanto como desde então.

Schadenfreude

Há um estágio do incômodo provocado pela balbúrdia em que os sons não fazem mais nenhum sentido aos ouvidos, e cumprem exclusivamente a função de incomodar. Em um ambiente apropriado a tal extremo, os gemidos repetitivos de dois cantores sertanejos apunhalavam a compreensão de Fausto, enquanto pequenos alfinetes eram inseridos embaixo das unhas de sua paciência por duas vozes femininas que fechavam as duas pontas do arco do qual ele e Nei formavam o centro, em um canto meio escuro do bar. Por vezes Nei, gritando para ser ouvido pelas duas mulheres, acrescentava sua voz aguda e dolorida ao caos.

Em intervalos de tempo aleatórios, Nei e a mulher na outra ponta se entregavam a algum agarramento qualquer, o que geralmente dava a Fausto alguns minutos de alívio parcial, mas parecia incomodar a jovem loira ao seu lado. A loira tentava trocar algumas palavras, mas a conversa geralmente morria em alguma resposta monossilábica. Após o término de um curto período de beijos e conversas ao ouvido um do outro, Nei e a outra mulher notaram a situação e, já um pouco tarde, buscaram intervir.

– Amiga! – a parceira de Nei chamou a atenção loira. – Vá pra cima, acho que você vai ter que dar conta desse menininho tímido! – terminou gargalhando. Fausto irritou-se desproporcionalmente, como ele mesmo admitiria. Pensou em severos insultos à quase desconhecida por semelhante comentário, embora não tenha dado nenhum indicativo externo da sua revolta íntima.

– Esse aqui, minha filha, só se ele cantar em alemão pra mim agora – disse a loira, descendente de alemães e quase falante do idioma de seus avós, fatos que a deixavam bastante orgulhosa. Seu tom era esnobe – calculadamente, como denunciava o leve sorriso.

Todos riram. Até Fausto permitiu um movimento suave no canto direito da boca que escondia uma terrível explosão interior. A falta de conversa com a loira não era por desinteresse. Pelo contrário, Fausto estava bastante interessado, só que não queria que a loira não exibisse o mesmo desejo (mesmo que até para olhos pouco atentos, depois soube por Nei, ela realmente demonstrasse insistentemente). Mas as expressões de desdém daquele impecável rosto branco o tiraram ainda mais de seu estado normal. Não aceitou que ela aparentemente o rejeitasse. “Quem esse verme pensa que é para me considerar inferior, esfregando sua suposta ‘europeiazisse’ em cima de mim? Esnoba, rejeita e ainda me propõe desafios!”, pensou, nem tentando imaginar que a brincadeira da jovem pudesse indicar uma intenção inteiramente diferente.

Logo Fausto começou a cantar baixo, entre os dentes. Nenhum dos outros deu uma atenção especial ao fato. Segundos em seguida, as punhaladas de música pop cessaram, e os versos que Fausto cantava se fizeram notar.

… Menschen werden Brüder,
   Wo dein sanfter Flügel weilt.

Os outros três se voltaram pra ele ao mesmo tempo, um pouco incrédulos. A música ambiente não voltou antes que pudessem ouvir ainda uma repetição.

Deine Zauber binden wieder,
  Was die Mode streng getheilt;
Alle Menschen werden Brüder,
  Wo dein sanfter Flügel weilt.

Ao término, a loira arregalou os belíssimos olhos claros, e sorriu.

– Que bonitinho! – disse a loira, com as mãos nas bochechas. – Desculpe se fui grossa. Você me surpreendeu – disse entusiasmada enquanto tomava as mãos de Fausto.

Fausto notou a satisfação na expressão da jovem, e deu seu próprio sorriso de satisfação, mais uma vez de canto de boca. Os olhos e o sorriso da loira por um instante quase fizeram Fausto desistir de seus propósitos. Mas abandonando o instinto, voltou ao que conhecia como razão, aumentou o sorriso, e tirou suas mãos das mãos da loira.

– Sua vez – disse.

– Como? – a loira ainda sorria.

– Sua vez de pagar o preço.

A expressão da loira se tornou de dúvida.

– Ora essa – continuou Fausto com um calculado tom de sarcasmo. – Você me pede para cantar em outro idioma como preço para seu, digamos, carinho… você me fez pagar um preço por você, embora zombando de mim, tendo-me por um qualquer, um mero baladeiro idiota que quer apenas alternar ao longo dos fins de semana a cerveja que causa a ressaca e a mulher que dá prazer. Mas eu ganhei, e me provei acima. Completei seu desafio, e tenho pelo menos um beijo por direito, tendo visto inclusive que agora você estava disposta a tanto. Mas, claro, eu não sou gratuito, já que você não se mostrou gratuita. Cante uma música no idioma de meus ancestrais italianos. Sabe alguma?

A loira fechou a boca e olhou firmente para ele, bastante séria. Fausto a encarou por alguns segundos.

– Não? Veja, facilito pra você. Não precisa cantar, só recite uma estrofe qualquer de uma poesia italiana.

Os olhos da loira brilharam, e era perceptível sua raiva. Nei e a outra mulher assistiam calados e imóveis.

– Reduzo o desafio para meros dois versos – Fausto simbolizou o número dois com o polegar e o indicador. A loira reagiu imediatamente, e levantou, pisando tão duro quanto seu salto permitia.

Entschuldigung – gritou Fausto. A loira parou e escutou, de costas, esperando o anunciado pedido de perdão. Fausto montou uma expressão quase sádica no rosto antes de prosseguir.

– Não sabia que só eu devia pagar. Não sabia que você era esse tipo de mulher. – A loira pensou por um instante, abriu a boca como se fosse responder, mas acabou deixando apenas ar passar pela garganta. Saiu rápido, com uma mão na altura dos olhos, quase correndo. A outra mulher se levantou com pressa e seguiu a amiga.

– Meus parabéns e muito obrigado, retardado. O que você ganha com isso? E não pensou em mim, seu egoísta? Eu estava me dando bem. Agora ferrou pra você e pra mim. – disse Nei, em um tom mais de desânimo que de irritação.

– Mas meu orgulho segue intacto – respondeu Fausto. “Sou desafiado, canto Schiller à Beethoven para essa vadia e ela me diz ‘bonitinho’… pelo menos venci”. De relance, trocou um rápido olhar com a loira ao longe, que desviou o rosto transtornada, e se afastou ainda mais com a amiga. “Schadenfreude“, pensou sozinho, rindo. “Será que ela sabe o que isso significa?”.