Consigo concluir o texto após a terceira frase de efeito
Eu meio que sempre tinha algo a dizer, seja escrevendo, seja falando. Muita gente dizia que eu era uma pessoa quieta, o que eu não entendia. Às vezes falava tanto que o som da minha voz passava a me incomodar. Em algum ponto eu caía em mim e percebia que já emprestara os ouvidos da pessoa interlocutora mais do que deveria. Eu deixava as palavras saírem, primeiramente com os filtros dos freios sociais e da estética, mas depois era simplesmente uma corrente ininterrupta de dados comprimidos em gramática coloquial.
Como podiam dizer que eu era calado? E essa foi uma das primeiras constatações sociais que eu ouvi a meu próprio respeito. Logo nas primeiras horas do meu primeiro dia de escola, meus descuidados colegas da primeira série cochichavam estrondos nos ouvidos uns dos outros, não sei se sinceramente acreditando que ninguém ouvia ou se não se importando: “ele é bem quietinho”. E assim permaneceu meu patamar retórico perante meus pares nas décadas que se seguiram: o Teo é uma pessoa quieta, calada, na dele, reservado, de poucas palavras.
De todas as concepções erradas a meu respeito, essa é uma que nunca deixa de me surpreender. Não sei como tanta gente pode estar tão enganada sobre mim. Obviamente, me questiono ocasionalmente se não sou eu o errado, aquela velha história de limpar o próprio bigode se todo mundo cheirar mal. Mas já conferi, sim, os pelos abaixo do meu nariz e afirmo com convicção: eu falo demais, mais do que a média, muito mais do que deveria, mas muito menos do que gostaria.
Sim, eu gosto de falar, e sempre gostei. Aproveitei quase todas as oportunidades que tive de falar em público, para surpresa daqueles que colocaram em mim a (correta) pecha de tímido. Sim, sempre fui tímido para abordar uma pessoa, no um a um. Ou um contra um, como eu encarava: uma batalha na qual eu começava todas as vezes em desvantagem. E talvez venha daí o erro de análise dos meus amigos, mais um dos muitos erros de análise dos meus amigos, cujo primeiro costuma achar que ser meu amigo é uma boa ideia. Vendo-me gotejar palavras encarando o chão, tocando o rosto, suando e com um sorriso terrível entre lábios grossos e dentes tortos, tomaram minha timidez por silêncio. E essa imagem patética colou nas mentes simples apegadas a primeiras impressões.
Quando me colocaram para falar não para (contra) um mas para dez, cinquenta ou cem, as coisas mudaram. Obviamente eu tremia e ficava nervoso, obviamente eu suava, mas isso é algo inerente ao ato. A maioria das pessoas fica assim. Porém, nesse cenário, as palavras não saíam em engasgos, mas em vômitos. Sim, as analogias com cacoetes e fluidos corporais repulsivos não são por acaso, não quero dar a entender que minha fala era agradável, ou que eu dizia algo que prestasse, apenas que havia volume. Se era um pesadelo perguntar as horas para uma mulher passando despreocupada por mim, fazer um discurso era um desafio, mas algo que eu vencia com mais desenvoltura.
E o problema desse gingado de bancada é o poder de ser usado para qualquer patifaria. Falei de religião, muitas vezes coisas lamentáveis. Fiz piadas que merecem o esquecimento. Constrangi pessoas. Uma tentativa amaldiçoada de alcançar mais projeção social, dada minha incapacidade na relação interpessoal direta. Minha defesa contra o isolamento foi usar essa habilidade com um ocasional viés horrendo, e falo isso não como apologia, apenas como constatação. Quem puder me perdoar que me perdoe, é tudo que eu posso pedir.
Esse turbilhão eloquente também se manifestava na escrita, onde a calma e a paciência de poder redigir o texto e o corrigir em segredo antes que outras pessoas lessem me permitiu produzir coisas superiores a meu discurso falado corriqueiro. Escrevi coisas no final da adolescência que gosto até hoje, textos que considero melhores que as coisas que escrevo atualmente. Outras foram lixo desde o gênese, obviamente, mas bem, este registro é menos sobre qualidade e mais sobre o número. Originalmente, este texto constava em meu diário de desgraças genéricas do entorno. Este parágrafo modificado começa na palavra de número 30.611 naquele arquivo digital. Não que signifique algo relevante: do primeiro registro em 11 de dezembro de 2019 até a data original do texto não modificado, 27 de fevereiro de 2023, se passaram 1175 dias. Isso significa que, em média, escrevi 26 palavras por dia.
Parêntese. Aqui vão vinte e seis palavras: “eminências de sombria pedra e a vegetação selvática debruçavam sobre o edifício um crepúsculo de melancolia, resistente ao próprio sol a pino dos meios-dias de novembro”. Trata-se de um trecho incrustado no meio de O Ateneu, em um princípio de descrição do colégio que nomeia o romance.
Seguem agora, também, vinte e seis palavras: Não vou deixar me abalar/Mais uma noite, carnaval/ No Brasil, só na moral/Diga lá então/Na moral, na moral, só na moral/Na moral, escritas por, tive que conferir, Paulo Alexandre Amado Fonseca, Rogerio Oliveira De Oliveira, Marcio Tulio Marques Buzelin, Gerson Raimundo Pires Rodrigues, Paulo Roberto Diniz Junior, Marco Tulio De Oliveira Lara, Wilson da Silveira Oliveira Júnior. Um notório esforço coletivo de sete pessoas que certamente rendeu mais dinheiro do que Raul Pompeia ganhou com seu livro peculiar.
Fecha parêntese. Tudo se resolve com números hoje em dia (e talvez se resolvia assim também antes, as pessoas só sabiam menos disso), mas eu não tenho quantificações pra fazer. A constatação é simples, eu escrevia mais e falava mais, e também era mais tímido. Hoje consigo falar bem mais com as pessoas na modalidade duelo. E como isso não é mais um fardo a se carregar, mas uma atividade corriqueira, posso talvez abandonar as figuras bélicas de linguagem. O que constato pra terminar é que nada é de graça. A timidez se foi e levou com ela uma bagagem cheia de palavras, em papeis impressos e sons, em ideias e em formas prontas. Melhorei como pessoa, objetivamente, não me custa admitir, às custas de piorar como, bem, por extensão, artista.
Por certo, acredito que ninguém vai reclamar disso. Não que eu acredite em alguma coisa dessas, é importante ressaltar, uso apenas como recurso estético, deixando as palavras saírem no teclado, algumas que não foram junto na mudança da timidez (eu já disse, não acredito nisso). Mas eu perdi a chance de terminar esse texto com uma boa frase em “Por certo, acredito que ninguém vai reclamar disso” apenas para fazer essa nada importante ressalva, agora preciso de outra pra terminar.
Sim, essa: é bom usar um diário para fazer um registro normal de vez em quando, não como o diário de bordo de uma nave fascista desgovernada. Evidentemente, a outra era melhor, eu sei, essa é até meio deslocada desse texto específico, embora funcione no contexto geral do caderno digital que guardo oculto, e assim permanecerá. E lá se vai outra chance de terminar esse texto. Talvez eu nem queira terminar agora que eu achei essas palavras caídas aqui, deixadas pra trás para que eu as jogasse em algum espaço vazio e fizesse daquele canto sem graça um altar decorado.
É, eu sei, um altar pra mim mesmo, só se for.
Bem, consegui.