O Bruxo
Insone e imóvel na cama, vi luzes entrando pelas frestas da janela, e ouvi muitos passos e murmúrios abafados do lado de fora. Permaneci como estava, achando que terrores noturnos vieram fazer companhia, pois há solidões tão densas que até a companhia de uma assombração é tolerável e dispersante. Há um estágio do ódio a si em que me agradaria mais um fantasma meio hostil que eu mesmo como companheiro para passar a noite. Mas quando as assombrações começaram a gritar ofensas e acusações implausíveis, daquelas que só humanos encarnados e em grupo têm audácia de lançar aos berros na noite, resolvi espiar pelo canto da cortina, descobrindo uma multidão com tochas e porretes cercando minha casa, exigindo a minha rendição “enquanto bruxo”.
Contrariando o manual de ação dos bruxos reais, um documento tão legítimo quanto minha magia, abri a janela para confrontar os invasores do meu quintal. Tão logo minha cara brilhou à luz do fogo, uma pedra completou sua parábola na minha sobrancelha esquerda. Senti, entre dores e luzes confusas, um fio de sangue descer pela minha bochecha. Outras pedras voaram errando o alvo, me dando chance de fechar uma das folhas de madeira e me abrigar atrás dela. Por uma fresta consegui olhar lá fora e identificar a cidade inteira pisoteando minha grama. Até a Lua se mobilizou e apareceu uma hora mais tarde que no dia anterior, e com um pedaço a menos, que talvez fosse aquela rocha que por pouco errou meu olho e que a cretina arrancou de si mesma para me acertar.
E que digníssimo bruxo era eu, abrigado atrás de um brise, sangrando pela testa, tonto e com dor de cabeça, há três noites sem dormir, assustado pelo prefeito, pelo padeiro novo, pelo frentista velho, pela advogada e pela Lua, os líderes da turba, pelas tochas e pelas pedras que às vezes entravam pela metade aberta da janela e acertavam algum item de mobília. Os pensamentos que circulavam atrás da concussão me diziam que não podia tanta gente corriqueira, honesta e de autoridade estar tão errada, e que possivelmente eu conseguiria explicar, fosse lá que diabos estivesse na minha conta. Como um sensato e poderoso bruxo de minha experiência e classe, conjurei um feitiço chamado Rendição e saí pela porta da frente com as mãos para cima.
“Abaixe as mãos!”, comandou o gerente do supermercado me apontando um porrete. Um estranho comando para um rendido, que geralmente levanta as mãos para indicar que não há ameaças ocultas. “Abaixe as mãos, não vou deixar você nos amaldiçoar”, comandou novamente, se fazendo entendido. Abaixei as mãos ao longo do corpo, deixando as palmas voltadas para o chão, como quem pede calma. “Não diga nada, não vá lançar nenhum feitiço”. Eu estava exposto, apenas de calção, tremendo de frio, mas obedeci e não lancei nenhum feitiço, exceto um bastante conhecido da minha escola arcana, o Feição Interrogativa.
O prefeito, porém, conjurou “amarre as mãos e tape a boca dele”, e pela magia da subserviência seu assessor me atou as mãos e pôs uma mordaça em minha boca, com ajuda do investigador e do diretor do fórum. Empurrado pelo caminho que levava ao centro da cidade, fui sendo feito de alvo, e repentinamente na cidade todos se tornaram precisos na pontaria, me acertando frutas e legumes podres, cuspe e dolorosos xingamentos. A Lua subia no céu, acompanhando o cortejo, escondendo as estrelas à sua volta, talvez minhas únicas amigas, que se abrigaram para não ver a vergonha do meu estado.
Na praça central o secretário de obras supervisionava a fixação de um poste em um canteiro. Eu passei pela praça à tarde, e o poste não estava lá, o que me fez parar de questionar a incompetência de quem demorava meses para fechar os buracos nas ruas. Ora essa, não faltava poder ou capacidade, apenas vontade. Braços sem rosto me empurravam em direção ao poste, apenas um pedaço de madeira, mas contextualmente sombrio como a morte, como era de se esperar.
E lá me amarraram, bem apertado, com os braços para trás. Incrédulo assisti a crianças trazendo feixes de gravetos secos e depositando ao meu pé. Concordei comigo mesmo que aquele era meu pior momento da noite, e também assenti com a minha própria pessoa que ele assim permaneceria na liderança até que as chamas subissem pela madeira e tocassem a minha pele. Estranhamente, acabei salvo pelo fogo, já que alguns jovens protestaram contra a ideia de fazer uma fogueira e estragar o gramado da praça, que tão verde estava devido às últimas chuvas, e tão bem aparado. Outros ainda lembraram que os gritos poderiam assustar as crianças, e o cheiro de carne queimada seria perturbador.
A menção a carne até me lembrou que estava com fome. Um calafrio se seguiu ao pensamento. Ter fome diante da sugestão da própria carne queimada era uma ideia de bruxo? Minha execução, se não justa, pelo menos se sustentaria em acusações verdadeiras? Ora essa, os habitantes de uma pequena cidade da Amazônia brasileira no início do século XXI me amarraram a um poste e estavam prestes a me queimar como praticante das artes mágicas, eu podia me permitir o luxo de ter divagações confusas.
Após os protestos contra o fogo, foi consenso, para meu alívio, que era melhor que eu fosse enforcado. Poucas pessoas sentirão a graça deliciosa de estar amarrado ao poste com os pés na lenha seca apenas para descobrir em seguida que será pendurado pelo pescoço a uma corda. Há mortes e mortes, bruxos sabem muito bem. Mas novo impasse se estabeleceu. Enforcar-me onde? O poste não era um suporte adequado para meu pescoço amaldiçoado, inadequado para se pendurar um ser humano por uma corda. O secretário de obras saiu com dois funcionários da prefeitura e o dono de um depósito de madeiras. Voltaram meia hora depois com três longas vigas, e umas tábuas menores.
Paciente, conformado por não ser queimado, assisti o lento trabalho das pessoas levantando os dois postes que sustentariam a viga que me suportaria. Novo atraso se estabeleceu pois ninguém lembrou de trazer uma ferramenta para cavar os buracos onde se posicionaria os postes. E mais um protesto, pois a médica do posto de saúde não queria esburacar a grama que se evitara queimar. Fazia todo o sentido, e resolveram construir a forca numa área arenosa da praça, onde já se jogou vôlei de areia, lugar onde agora crianças brincavam umas com as outras e com bichos geográficos.
Conseguiram fixar os dois postes nos buracos quase às quatro e cinquenta da manhã. Sabia das horas, pois o guarda da escola a todo instante perguntava as horas para um lojista ao seu lado, e ambos estavam bem próximos de mim. O guarda estava obviamente impaciente para ir embora, já que um bruxo na cidade é um incômodo muito menor que um plantão noturno. Quando fixaram as tábuas nos ângulos entre as vigas para melhor sustentação do meu corpo, já era dia e as pessoas começaram a se retirar da praça e ir para suas casas. Isso não me surpreendeu, mas estranhei que tenham me deixado lá amarrado, e que três horas depois voltassem a circular para a cidade, ignorando a forca, ignorando-me amarrado a um poste, como se nada se passasse.
Lá pelas nove horas da manhã senti mexerem na corda atrás de mim. Notei as mãos mais livres e me desvencilhei da corda, com pressa, mas sem conseguir velocidade. Demorei a me livrar completamente, ainda com medo que alguém corresse e me impedisse. Não vi ninguém suspeito de me libertar quando enfim me virei. Todos continuavam agindo com se nada acontecesse. Tomei o rumo de casa, passando por dezenas de pessoas que me conduziram como condenado à morte pelas ruas da cidade. Algumas nem olharam pra mim, ou deram atenção à minha passagem. Outras até me acenaram um cumprimento, e ainda outras, sem qualquer afetação, me desejaram bom dia. Não querendo contrariar executores vorazes (embora, é verdade, um pouco burocráticos e indecisos), respondi cordialmente.
Subindo a rua de minha casa alimentava a profunda esperança que tudo fosse uma alucinação. Havia adições ao meu chá da tarde do dia anterior que podiam ter efeitos um pouco imprevisíveis. Mas as pedras e coisas quebradas no meu quarto davam testemunho de um acontecimento real, assim como o ferimento na testa, que indicava que pessoas desejaram bom dia para minha cara ensanguentada, enquanto eu me encontrava sujo de polpas de frutos podres e terra e apenas de calção, e estavam bem com isso. Tranquei bem as portas e janelas, tomei um banho, cuidei do ferimento, comi uma banana e dormi no sofá da sala, sem me lembrar que sofria de insônia. Arrumaria meu quarto depois de descansar. E como eu precisava descansar. Não entendia como aquelas pessoas sumiram por duas ou três horas depois de passar a noite buscando formas de me matar sem chocar os sentimentos morais e ambientalistas dos moradores e voltaram tão dispostas para a vida.
Meu estômago me acordou com um ronco grave no meio da tarde, exigindo alimento. Não tive a menor intenção de não atender a demanda, mas não queria sair para comer pela cidade. Cozinhei um almoço simples, arroz, ovo, tomates e descongelei uma porção de feijão. Comi e sentei no sofá novamente. Nenhuma ideia sobre o que fazer, ou o que falar, ou com quem falar. Vi vários amigos com pedras na mão à noite. Decidi pelo menos que era melhor montar guarda e preparar uma rota de fuga caso viessem. Não lembrava que horas o relógio marcava quando me levaram. O guarda da escola deveria ter ficado sempre do meu lado. Lembro da Lua nascendo, e talvez a Internet me dissesse que horas a Lua nasceu na noite anterior, mas eu já estava com sono por pensar em montar guarda de madrugada, e logo dormi de novo.
Acordei sobressaltado, após pesadelos confusos, ouvindo o ruído de passos na rua, um som que jamais teria me acordado em situações normais, mas que no meu estado imediato de atenção era um estrondo de muitos trovões. Por uma fresta do meu agora tradicional brise-escudo, observei uma multidão semelhante à da noite anterior subindo a rua, passando à frente de minha casa sem qualquer afetação na direção do meu gramado pisoteado. Uma mulher, entretanto, mais um rosto na multidão que eu achava que já tinha visto em algum lugar, mas não saberia nomear ou lhe atribuir profissão ou local de trabalho, olhou diretamente para a fresta por onde eu espiava e fez um claro movimento com a mão no sentido de “venha você também”.
E para a total incredulidade e assombro do arquimestre fictício da minha inexistente escola de magos, contrariando todos os conselhos que ele poderia ter me dado caso fosse uma pessoa caminhando no mundo real, me vesti e saí à rua. Bem vestido, a propósito, adequado à ocasião, qualquer que fosse, já que a comitiva numerosa que transitava pela rua era, como a do dia anterior, de trajes adequados ao trabalho ou à igreja. Não queria chocar ninguém aparecendo novamente no meu calção amarelo que servia como pijama em noites preguiçosas.
Juntei-me à multidão caminhante e ninguém pareceu dar atenção à minha presença. Identifiquei mais à frente a mulher que me fizera o sinal, mas ela não olhava para trás, nem para os lados. Ninguém dizia nada, e a procissão era até bem organizada, sem encontrões ou pisões nos pés mais desatentos. Não sei o que havia com a memória da cidade, ou se todos eram altamente sensíveis a bruxaria e todos os meus poderes desapareceram desde o nascer do Sol, e eu já não era mais bruxo. Já sentia saudade de minhas habilidades mágicas, foi bom tê-las por uma madrugada insana. Mas agora a vanguarda da comitiva parava em frente a uma casa. Um rito de vozes de comando e pedradas se estabeleceu, uma cópia da noite anterior, mas agora com alvo distinto. Logo ficou claro por uma pequena correria à frente que este bruxo era também ladino, e tentava fugir. Foi agarrado pelo investigador, entre gritos do delegado e do promotor. Logo o guarda da escola chegou em auxílio e segurou o homem para que fosse algemado. O guarda cochichou algo para o investigador, que olhou para o relógio de pulso e respondeu baixinho.
Legumes e ovos da feira de duas semanas atrás começaram a voar na direção do detido, que agora, mais próximo, consegui identificar. Era um dos locutores da rádio, peculiarmente o do programa evangélico. O padre estava mais animado que no dia anterior, e liderava algumas ondas de ataques com mangas muito maduras colhidas na mangueira atrás da igreja católica. Descendo a rua e virando a avenida em direção à praça, seguiu a multidão no mesmo caminho em que eu fui conduzido em vergonha vinte e quatro horas antes.
Sendo a minha salvação na noite passada as confusões logísticas, o locutor parecia condenado a uma morte que seria pelo menos rápida agora. A forca ainda estava na quadra de areia, no mesmo lugar onde foi deixada na minha noite de desespero. A Lua só aparecia agora, com uma hora de atraso, e sem mais um pedaço, já nos finalmentes da execução, quando o locutor, chorando e lembrando de Deus, era levado ao alto de um banco de madeira, e alguém subia por trás para passar a corda pelo seu pescoço.
Concentrado nas preliminares de uma morte certa, não notei a mulher do sinal se aproximando. “Não se preocupe, ele não vai morrer”, ela disse. “Eu cuidei disso durante o dia”. Ela deu um sorrisinho que achei meio cretino, e, me custa admitir, me irritei por ter perdido o exato instante em que um cabo da PM chutou o banco. A corda esticou até o limite, a viga cedeu feio em um canto e o homem caiu na areia, pés primeiro, cara depois. Rolou cuspindo terra e alguns aleluias engasgados, agradecendo a Deus pelo livramento. “Não precisa me chamar de Deus”, a mulher do sorriso cretino sussurrou para mim.
O guarda da escola já se preocupava de novo com as horas, e o secretário de obras coçava a cabeça vendo o homem amarrado e a viga quebrada. “Isso aí vai demorar pra resolver”, constatou desanimado. Alguns já iam embora. A sorridente misteriosa se retirava, mas pedi que esperasse. Tentei a segurar pelo braço, mas ela se desvencilhou contrariada. “Não me puxe, não faça nada drástico. Não chame a atenção nessa hora”. E eu só consegui pensar em perguntar “O que está acontecendo afinal?”.
Revelando-me algumas coisas, ela mesma uma bruxa, poderosa e antiga na magia, passei a entender. Tinha ela escapado de uma morte terrível na época da fogueira. Passara a ajudar os bruxos da vez em sua noite de agonia, sempre oculta e jamais agindo como feiticeira. Pois os que chegavam mais rápido à corda agora eram aqueles que tentavam argumentar com os executores. Passei a ajudar no infame trabalho noturno nos primeiros três dias de lua cheia. Por mais duas vezes tive a corda no pescoço, e passei até a aproveitar o passeio. Seguimos assim, recrutando novos bruxos, salvando uns aos outros, e deixando a turba seguir o seu caminho. Claro que não dava para salvar todo mundo. Fizemos o possível para ajudar o saxofonista da Assembleia de Deus, mas ele não ficava quieto, lutava demais, brigava demais, falava em línguas demais. Foi linchado antes de chegar à guilhotina da praça, que já tínhamos sabotado duas vezes naquela lua cheia.
Nosso trabalho era esse, inutilizar o equipamento de execução e acalmar discretamente o bruxo da vez, e de vez em quando ajudar a se livrar de amarras ou cuidar de ferimentos no dia seguinte. “Não lute, deixe o pessoal fazer o quiser, lá na frente vai dar tudo certo” eram as nossas palavras mágicas da noite quando o réu estava muito tenso. Assim, a verdade é que no geral a coisa ficou tão próxima da vida normal que em alguns meses nem notávamos mais a diferença.