Fins de mundos
A uma pia engasgada com louças sujas e restos de comida posicionada no meio da parede seguia, em sentido horário, um fogão com manchas pretas e engorduradas, uma geladeira sufocada pelo gelo acumulado na parte de cima, um armário vazio, já que todos os utensílios estavam na pia, sobre o qual um micro-ondas gasto pelo uso dividia espaço com um liquidificador adquirido por uma aranha por usucapião. Ainda no sentido dos ponteiros do relógio, seguia uma porta que dava para o banheiro, uma cama, uma mesa de metal, dessas de bar, suportando um notebook velho e papeis empoeirados, e, sobre a única cadeira do recinto, Manoel bebendo leite em uma caneca, que levava à boca alternadamente com as bolachas que apanhava com a mão direita. Para fechar o círculo circunscrito naquele quadrado apertado, uma porta para fora ao lado da pia.
Manoel olhava com gravidade dez quilômetros adiante, embora enxergasse apenas o verde da parede que refletia estranha a luz fluorescente amarela que comprara por engano. A feição de Manoel era de fato grave, bastante grave. Desenhava um alongado W invertido com suas sobrancelhas. É difícil sugerir com precisão a gravidade no olhar nesse ambiente. Talvez fosse mais fácil se Manoel não estivesse em uma casa de um cômodo, mas em uma biblioteca particular com o dobro do tamanho de sua casa, cercado de livros, não panelas sujas. Sentado em uma poltrona com vista para o jardim pela janela, com brandy na mão esquerda e um cachimbo na direita, com o mesmo W invertido sobre os olhos, e os lábios muito apertados, ocultos numa barba grisalha e espessa.
Essa é a cara que deve ser barbeada, massacrada pelo Sol e transportada para o mau cheiro de comida podre e baratas daquele abrigo. Aqueles bem-nascidos barbudos têm essa cara com bastante frequência, talvez por prática. Manoel não teria tempo para treinar essas coisas, não conseguiria nem ver o rosto inteiro no espelhinho do banheiro. Sua consternação era legítima, e a fixação com o ponto distante que olhava sem ver tratava de embaçar a visão periférica, fazendo-o ignorar a fauna de insetos local. Pouca coisa prejudica mais a gravidade contemplativa de uma longa divagação que um inseto desses grandes voando nas proximidades, mas Manoel permaneceu em seu thousand yard stare, imperturbado em seu introspectivo ciclone mental, do qual nada revelava ao exterior exceto em seu par de olhos muito arregalados sobre aquele já exaurido W ao contrário.
Elias encontrou a porta destrancada e abriu fazendo ruído. Identificou de imediato o voo da barata, e a derrubou com sua potente munição terra-ar, uma sandália Havaianas, trazendo o animal para o chão, onde tinha ampla vantagem, vencendo o inimigo com sua força peso. Deixou os espólios para as formigas, e sentou-se no único assento disponível, a cama de Manoel, que permanecia olhando para o mesmo ponto, sem se mover. Elias era uma visita constante, parte da paisagem como a aranha do liquidificador e as baratas que não voam, embora ligeiramente mais incômodo. Acomodou-se deitado no colchão gasto, mais fundo no meio, quase um A invertido. Foi a primeira coisa que Elias notou em voz alta, inclusive.
“Seu colchão parece um A de cabeça pra baixo”. Assim mesmo, sem cumprimentos ou solenidades de visitante. De inaudito apenas a estranha ausência da visita à geladeira de Manoel, e da consequente reclamação da natureza vazia do eletrodoméstico, sem petiscos ou cerveja na maior parte do tempo. Manoel não reagiu, e Elias notou a expressão grave daquele que chamava de amigo. “Sua sobrancelha tá parecendo um W de cabeça pra baixo”. Nem um “boa noite” ou “tudo bem” antes. Elias é um pragmático descritivista, embora não saiba.
“Por que não um M?” Manoel falou pela primeira vez em horas, deixando no presente uma sensação estranha de nada ter dito, duvidando do som da própria voz, questionando se realmente proferira aquelas palavras. Como Elias nada respondia, e como Manoel não olhava para ele, não analisando portanto se a feição da visita inoportuna mudara, permaneceu com aquela sensação de nada ter dito, procurando no fundo da garganta algum incômodo ou coceira qualquer que indicasse seu uso. Respirou e resolveu falar de novo, agora para ter certeza. “Por que não um V?”
Não encontrando nada que visualmente merecesse descrição, Elias apenas lançou uma interjeição interrogativa. “Hã?”
“Você falou que meu colchão é um A de cabeça pra baixo, e que minha cara tinha um W de cabeça pra baixo. Por que o colchão não é um V e minha sobrancelha um M”?
“Faz diferença?”
“Claro que faz. Você recorreu ao inverso de alguma coisa sendo que existe uma coisa pra descrever o que você queria notar.”
“Mas isso realmente faz diferença?”
“Faz, claro, você já pensa de cabeça pra baixo do princípio. Tudo está invertido.”
“O que você estava fazendo nesse computador?” Elias alcançava o notebook enquanto falava, sem levantar da cama, puxando-o para si sem pedir autorização. O computador velho estava lento, demorando para responder aos cliques, já que dezenas de abas consumiam seus recursos. Manoel clicava sem parar em hyperlinks até há pouco. Tinha sentado à mesa para produzir um relatório atrasado do trabalho, mas encontrou falsamente sem querer os melhores amigos da procrastinação: os hyperlinks relacionados em artigos da Wikipédia. Falsamente sem querer, pois existia uma busca original, a cujo tema se ateve nas horas seguintes.
“Por que você tava pesquisando sobre cenários para o fim do mundo?” Manoel desviou enfim o olhar para Elias, desfazendo o W invertido, mais pelo tédio da companhia que pela alteração de seu estado de espírito. Ainda mastigava seus pensamentos, tentando os reduzir a parcelas digeríveis por seu sistema. Não queria falar de boca cheia. Mas conseguiu forçando, e, bem, com a educação de Elias boca cheia seria um problema muito pequeno.
“Pra saber o que esperar”, mentiu. “Para ter esperança”, corrigiu em seguida. “Agora é a sua testa que tem um M”, descreveu, enquanto Elias conferia seu W invertido com a ponta de um dedo.
“Você tá claramente insatisfeito com a vida, Manoel, você mora nesse chiqueiro, sem necessidade inclusive. Você poderia… você sabe, não vou nem falar. Você desistiu, foda-se você, mas você quer que todo mundo morra? Que eu morra?”
“Não”, mentiu em relação à penúltima pergunta. “Aceito o resultado morte, claro, mas não é isso que me move, não é a morte o meu desejo, mas o fim”.
“Se você desistiu, porque não morre só você? Eu não desisti.”
“Ainda. Mas não, calma, não quero desanimar você, nem o arrastar para onde estou. Veja, eu não sou o único a desistir. Acha que eu sou o único na merda hoje? O único deprimido e sem esperanças? Só nessa rua talvez achássemos uns vinte, trinta assim? Por que não vamos achar vinte, trinta corpos amanhã?”
“Por que eles não são egoístas como você?”
“Você não vai achar meu corpo também. Porque, na verdade, não desistimos. Não desistimos porque o mundo ainda existe, e temos ideias para ele, esperamos coisas dele, sabemos que ele pode ser melhor. Tire o nosso mundo e não teremos motivos para tentar de novo. O fim será menos doloroso.”
“Então você gosta do mundo afinal?”
“Gosto de um mundo, sim, imaginável, mas será possível?”.
Elias já não prestava muita atenção às palavras de Manoel, passeando pelas abas do navegador conforme o computador permitia. “Qual desses fins de mundo você prefere?”
“Os drásticos e repentinos, de escala cósmica. Algo que oblitere o planeta, ou desfaça o Universo sem aviso. Sem dor, sem lamento, sem sofrimento. Seria ruim que o fim fosse bilhões de pessoas lutando para sobreviver, sofrendo e…“
“Manoel? O W voltou pra sua cara, o que foi?”
“Ora, nós somos atualmente bilhões de pessoas lutando para sobreviver, não? Sabe qual o cenário mais provável desses aí? Qual tem a maior chance estatística de acontecer nos próximo anos? Aquecimento global. Algumas pessoas cozinham, outras ficam sem comida, outras são forçadas a migrar e receberem tratamento desumano por seus péssimos anfitriões. Isso não parece um fim, parece apenas uma piora para a maioria, enquanto alguns continuam bem. Os fins cósmicos nos igualam, nos tornam igualmente carne por apodrecer, matéria para ser consumida. Esse fim é desigual, e claramente o mais provável, o que é compatível com nossa história. Olha só, talvez fins sejam isso, já pensou? Fins acontecem o tempo todo.”
“Se eu não aparecesse você ia encarar a parede pra sempre? Pode me chamar sempre que precisar chegar a uma conclusão. É claro que fins acontecem o tempo todo. Você quer que o mundo acabe, mas o mundo que você vê não é o mesmo mundo que eu vejo. E eu não quero que ele acabe.”
Manoel voltou a encarar o distante ponto além da parede, desta vez com o que Elias chamaria de um U largo e invertido no rosto.
“É verdade, Elias. Mundos acabam o tempo inteiro. Meu mundo já acabou tantas vezes. Acabou aos sete anos, quando entrei na escola e conheci aquelas crianças terríveis. Acabou de novo aos doze quando meus pais se separaram. Outra vez, tive um fim de mundo aos vinte e dois ao sair da faculdade e ver que além de não saber nada, não faria o que queria pelo resto da minha vida.”
“O mundo é seu, o fim é seu”.
“Sim. Mundos são voláteis demais, e acabam à taxa de milhões por dia.” Manoel se levantou e alcançou uma vassoura escondida entre a geladeira e o armário, para o assombro de Elias.
“O que você vai fazer?”
“Varrer essa carcaça de barata. E depois colocar a vassoura atrás da porta para ver se você vai embora. Tem um mundo começando agora, quero estar em melhor companhia.”