Às Cinco
por Teo Victor
Caminhando às cinco da tarde, mais cedo que o horário de costume, mas protegido da radiação solar por nuvens providencialmente a Oeste, meu fim de tarde se aproximava do pôr-do-sol no ritmo acelerado e entrecortado dos sonhos. Ji-Paraná é uma cidade avessa a pedestres, maltratando-os com suas calçadas desalinhadas ou inexistentes, meios-fios tomados por ervas daninhas ou sujeira deixadas por humanos inescrupulosos ou cães desatentos.
Mas sonhos adequados ao termo não se prendem apenas aos avessos, pois assim seriam pesadelos incômodos. E enquanto caminhava numa ruazinha qualquer da vizinhança, de calçada desprezível, empoeirada, cheia de mato e alinhada com alguma subdivisão entre o Norte e o Leste, entrei, no intervalo entre um passo e outro, em um lugar distinto, embora fosse o mesmo de antes, em compatibilidade com o que se espera dos sonhos.
O Sol ainda estava atrás das mesmas nuvens, o ar era o mesmo, o tempo era o mesmo, mas o chão tinha vias estreitas cortando um gramado, pavimentadas com pedras claras. Árvores ao fundo cobriam o fundo do terreno, e o gramado tinha arbustos e árvores menores podadas em formas simétricas. As vias formavam caminhos que levavam a uma fonte circular no meio do jardim. Ao lado da fonte, trajando um casaco escuro, J. R. R. Tolkien, abrindo um amplo sorriso, acenava para mim com uma mão enquanto segurava o cachimbo com a outra .
Sonhos não têm os cuidados literários de seus portadores despertos, nenhum apego lírico, e nenhum senso estético. Para o deleite de quem vê em cada elemento do sonho um arquétipo ou um significado por interpretar, quis o Oneiro roteirista que eu encontrasse um inglês às cinco da tarde. Mantendo-se no personagem, Tolkien me cumprimentou cordialmente e me lançou o convite:
– Entremos. Aceita chá? – Tolkien me anunciou, completamente em português brasileiro, embora ainda no conhecido tom de voz que recita o poema Namarië em Quenya, a língua dos alto-elfos. Quenya se parece mais com português que com inglês e a voz de Tolkien soou perfeita no idioma falado nas margens do Brasil, tão familiar para mim.
Nos assentamos em sofás confortáveis em uma pequena sala cuja porta dupla dava para o jardim, visível através de pequenos painéis de vidro e por uma janela. Servindo-me do bule que fumegava sobre a mesa de centro, tomei do chá enquanto iniciava a conversa, que não tinha tema definido, nem palavras definidas, para o desconsolo posterior de minha consciência acordada. Mas em um trecho Tolkien se fez compreensível.
– Li o texto que você escreveu… – alcançando um bloco de folhas grampeadas que estava ao seu lado no sofá, Tolkien começou a folheá-las. Ansioso, aguardei que continuasse com sua opinião sobre o que eu escrevia, já em parte satisfeito por Tolkien ter uma cópia consigo em seu sofá.
– Não gostei. Tudo o que você escreveu é pretensioso e chato para ler. – Ri bastante. Contei como tinha tentado escrever fantasia no passado, e como não tinha gostado do resultado.
– É um trabalho para europeus – concluí, sem obter concordância. Tolkien comentou algo que me fez rir mais, e continuou pronunciando algo em sons que não formavam palavras enquanto eu despertava, para minha nova decepção, sem concluir a conversa. Acordei sorrindo, e ri mais vezes ainda antes de voltar a dormir, feliz e realizado. Ora essa, eu tinha falado com Tolkien.