Longe da Cabeça

Sentindo-se engenheira, construindo sobre a exatidão de um edifício de letras que vibravam na frequência dos sons das últimas sílabas de versos alternados em ritmo definido, a Mão pontuou a última linha de sua construção, onde cada símbolo montava sobre o anterior como elemento mínimo de uma parede orgulhosamente curva e impossível, não como numa palavra que transmitisse uma informação. E não havia mesmo algo a contar no amontoado clássico de métrica e fonética, uma estrutura preenchida apenas pelo prazer de levantar um prédio de rabiscos, empilhando tijolos de consoantes, unidos com argamassa vocálica entre pilares de pontos e vírgulas. Sentindo-se engenheira, agora contratada para demolir o monumento inconveniente e indesejado, a Mão amassou o papel e o descartou, pois não era poeta na forma.

Sobre um papel novo, sentindo-se amante, a Mão escreveu a respeito de si e a respeito dos outros, ainda em versos, mas fugindo da exatidão. Perdeu sua régua e sua calculadora, deixou sílabas vazarem além da métrica e permitiu que as letras formassem palavras, termos escolhidos por intenções inconfessáveis e não pela rima ou comprimento. Antes escrevia com caligrafia impecável, seguindo linhas horizontais e alinhando as sempre maiúsculas iniciais na margem invisível mas óbvia. Agora esquecia-se das maiúsculas, não alinhava, rabiscava, aumentava ou diminuía a letra como queria, escrevia mais suavemente quando suspirava ou quase rasgava a folha em raivas momentâneas. Encheu margens e bordas com substituições, perdeu a ordem dos versos e terminou, contemplando seu interior. E o odiando com o ódio que se reserva a um inimigo sagaz. Sentindo-se traída, rasgou o papel e o descartou, pois não era poeta no espírito.

Começando de novo, sentindo-se importante, a Mão escrevia enquanto cantarolava, tentando encaixar as palavras que surgiam em uma melodia. Escrevia acordes espaçados, prevendo a harmonia que preencheria os espaços vagos da sua expressão limitada na linguagem. Entendeu que talvez precisasse de mais de um idioma para enfim dizer o que precisava, agradando os ouvidos com um e a mente com ambos. Via-se além do trabalho imediato naquele papel, dedilhando cordas para uma plateia agradecida. Ajustou os últimos pontos faltantes, mas a melodia a incomodou, e o texto não fazia sentido sem a música. Tentou mudar os acordes e as notas da linha melódica, apenas piorando o resultado, tanto para as orelhas quanto para a compreensão. Sentindo-se inútil, a Mão jogou o papel para um canto, pois não era compositora.

Diante de outro papel virgem, sentindo-se visível, a Mão riscava, desta vez sem letras, sem música, mas com linhas que moldavam algo. Formas se uniam, montando objetos, que se tornavam sistemas, entre coisas protagonistas e pessoas de cenário. Livre das algemas do idioma, desimpedida das restrições do texto, sentia que sua mente se fotografava no grafite. Fotografias também falham, e a borracha ajudava a corrigir os desvios. Era apenas uma mão, e como ficava longe da cabeça algo sempre se perdia no caminho. E talvez se perdesse demais, pois os rabiscos eram infantis e deselegantes, fortes demais, borrados em excesso, sem nexo e sem propósito. Fotografava sua mente, mas a maldita era nada fotogênica, ou não se rendia à sua incompetência. Sentindo-se espectral, a Mão rasurou sua tela, escondendo a vergonha atrás de uma superfície ampla de desperdício de grafite, pois não era desenhista.

Noutro papel em branco, sentindo-se honesta, a Mão contou uma história. Logo percebeu a superioridade da conveniência, escondeu sua incapacidade sob um tapete estético, e pelo bem da narrativa cortou parágrafos diligentemente verdadeiros. Não era artista, sabia, e continuava insatisfeita, porém conformada. Sentindo-se desonesta, não descartou o papel, pela primeira vez, pois sabia enfim o que era. “Sou assim, que vá assim mesmo”, pensou, mão que é, distante da cabeça.