O Curso

por Teo Victor

“Olá, queridos alunos! Vocês que me acompanham aí pela Internet através do nosso site, você aqui na sala de aula na minha frente, você aí que pirateou nosso curso porque não tinha dinheiro pra pagar as aulas e também está assistindo no computador agora. É, não se sinta culpado, é você mesmo quem precisa passar, urgente! Saia dessa situação! Sejam todos vocês, regulares e piratas, bem-vindos a mais uma aula do nosso curso para concursos públicos. Desta vez com foco no concurso do Departamento Federal de Obscuridade Social. O edital está pra sair, gente, fontes quentíssimas já deram conta, fontes de dentro do Departamento, gente importante garantiu, tá no forno o edital, tá quase no ponto, a hora de estudar é agora! Não deixe pra se preparar na última hora, comece antes dos seus concorrentes e garanta a sua vaga, porque perder um fim de semana agora é garantia de carteirada depois.”

Agredido pelas palavras incessantes e pouco espaçadas do professor excessivamente simpático mal centralizado na tela de seu computador, Diogo já começava a se distrair, apesar dos gestos exagerados e constantes que acompanhavam cada aumento aleatório de volume em uma palavra no meio das frases. Mal iniciava a noite de estudos e os fones de ouvido já incomodavam, embora um pouco menos que o ego ferido pela pequena repreensão difusa nas palavras incentivadoras do professor, uma acusação disfarçada de piada que atingia diretamente os arquivos ilegais que enchiam o disco rígido, baixados a muito custo e pouca conexão durante horas da noite anterior e do dia que terminava.

“Então sem mais demoras, vamos ao tema da aula de hoje, que é a primeira aula de Direito Especulativo, um tema cada vez mais em alta nas bancas de concurso, um tema que você tem que dominar pra poder passar, gente, sem direito especulativo você não vai a lugar nenhum. Nem na prova, nem na vida”

Assumindo vida própria e motivada por seus insondáveis desígnios íntimos, a caneta azul de Diogo traçava elipses descuidadas ao ao redor da única palavra que o papel de anotações ostentava até agora: “carteirada”. A caneta incomodava as falanges em que se apoiava, mais desconfortável que os dedos que a seguravam, ansiosa por se libertar da tarefa inútil que a confiaram. Queria abandonar os rabiscos curvos que, antes abertos e distantes, orbitando uma palavra infame, começavam a tangenciar o c e o último a do isolado termo, prenunciando as colisões fatais que transformariam a informação solitária em um borrão azul-escuro.

Um borrão que certamente diria mais sobre o estado mental de Diogo diante da vídeo-aula que qualquer palavra que viesse a escrever. O homem à sua frente, a pequena imagem a trinta centímetros cuja boca que não parava de se mexer, vazando pelo canto dos lábios sons cada vez mais incompreensíveis, ia se tornando uma mancha, uma amálgama da camisa social branca com a parede, discernível enquanto indivíduo, por enquanto, apenas pela gravata de cor que Diogo não sabia nomear.

“Pra começar, vamos falar do tema mais cobrado nas provas hoje em dia, princípios do direito especulativo, gente, anotem isso, é importantíssimo, certo? São os princípios do direito especulativo:”

Distraído por um importante deslocamento de uma pequena aranha de pernas finas que subia a parede atrás do monitor, Diogo segurava a caneta entre o indicador e o dedo médio, golpeando o papel com o plástico transparente da ponta que não escrevia. Saudosa dos rabiscos, a caneta se amaldiçoava por ter desejado abandonar sua tarefa penosa anterior, que se era inglória ao menos não doía. A aranha passou por uma colega de parede que descia, esta visivelmente menor, ambas se ignorando no encontro, certamente ocupadas com suas relevantes questões pessoais, suas teias nos cantos que encontravam com o teto, ou os seus insetos cativos semivivos que fugiam sem querer em queda livre para se ocultarem no rejunte escuro do chão.

“Primeiro: Ignorância Absoluta do Tema – é o princípio que determina que você como operador do direito especulativo deve desconhecer completamente o assunto do qual você está tratando, você não deve ter a menor ideia de por onde começar e pra onde ir, deve estar cego no meio do tiroteio, tá gente? Se você sabe alguma coisa, trate de esquecer imediatamente, principalmente na prova discursiva, okay?”

Na tela a mancha falante de gravata alternava seu espaço mal dividido com slides cheios de texto, cores e sistematização. Diogo pensava se tudo podia ser dividido em pontos e decorado, primeiro o um, depois o dois, depois o três, às vezes o quatro. Se a existência era assim, enumerável, contável, se os slides traziam a verdade em tópicos, se a sua vida estava ali, perdida abaixo do subitem quatro do item três do slide oito, ou se a substância dos concursos era diferente, e por isso se fazia tão estranha em suas horas de estudo. E, em uma meditação mais urgente, tentava se lembrar se o rejunte era mesmo escuro, ou se estava encardido. E se a aranha menor achou o que procurava, agora que voltava para o alto. Ou se, e reviravoltas acontecem, era outra aranha.

“E o segundo princípio do direito especulativo, qual é, gente? É o da Imprevisibilidade Teórica Completa – significa que para duas situações semelhantes o resultado será completamente diferente. Sempre. Sempre diferente, porque se fosse algumas vezes igual, você poderia esperar alguma coisa semelhante em alguns casos. Não, gente, uma decisão baseada em direito especulativo tem que ser completamente diferente de uma decisão em um caso igual. Não pode dar margem pra estatística tentar prever alguma coisa, exceto que tem que ser absolutamente diferente.”

Preocupado com a possibilidade de se sair bem na prova e ser convocado para tomar posse em um cargo público, Diogo pensava que talvez devesse voltar sua atenção para a tela, temeroso de cair no meio de um setor importante onde seria cobrado incessantemente todos os dias em testes intermináveis de seus conhecimentos sobre, diga-se, seja lá qual tema estudaria hoje. Já nem se lembrava do assunto tratado nos slides confusos, nem quem era aquela figura esbranquiçada e ruidosa com uma listra vertical de cor divertida, mal posicionada na tela de seu monitor.

Subitamente cansado, repousou a testa sobre o papel e, mordendo a capa plástica pelo meio, agarrou com os dentes a caneta que agora só desejava morrer e abandonar suas agonias e sua falta de propósito. Diogo fez um esforço para se lembrar de algo que importasse. Qual era sua idade? Tentava adivinhar, já que não sabia uma resposta certa. Pensou no futuro, e logo a esperança ingênua dos mais jovens o recordava que tinha algo nada longe dos vinte anos. “Não”, se corrigiu, em pânico. “Isso foi há muito tempo”, logo a memória o traiu. Pois lembrar que os trinta já passavam era uma inesperada traição da sua mente. Não importava que fosse fato, esperava mais da sua conturbada profundeza mental. Mais compreensão, mais alento e menos verdade era o que precisava agora.

Tantas coisas falsas subiam do interior de suas divagações, por que justo essa fazia questão de se apresentar, implacavelmente empírica, do alto das incontestáveis evidências de data e local de nascimento, estampadas em todos os documentos ao lado de uma prova fotográfica de sua ruína externa?

“O terceiro princípio, gente, dizem que é o mais importante, é o da Dualidade não Mutuamente Exclusiva da Realidade – esse princípio significa que uma mesma assertiva de direito especulativo pode estar ao mesmo tempo certa e errada em contextos iguais.”

Diogo tirou os fones de ouvido com um tapa desajeitado e os deixou cair na mesa. No monitor nada além da cor branca era visível. Sem o incômodo da voz imparável que começou aguda e se transformou em um zumbido rouco e constante no final, o redemoinho em sua mente começava a deixar cair o entulho que remexia impiedosamente até alguns segundos antes. A poeira ainda era intensa, mas a quietude iniciava sua silenciosa guerra pelo domínio absoluto.

Ainda de cabeça baixa, tirou a caneta da boca. Virou-se de lado e a manipulou nas mãos. A triste caneta, transparente e azul como todas as suas irmãs, se sentia abusada e violada, mas feliz por ter saído dos dentes duros e úmidos que a oprimiam. Diogo a olhava, contemplativo. “Tão simples”, pensou. “Um tubo dentro de outro tubo, e uma ponta”.

Simples demais, até. O que fez em seguida a caneta descreveria pelo resto de seus dias como um pesadelo em névoa, nada mais, descrente de que passara por tão extrema humilhação e dor. Por respeito, e como uma forma de poupar aquele jovem e gentil instrumento de ter em algum lugar escrito em detalhes os horrores daquela noite sobre a mesa de estudos, da qual muito pouco se lembra, principalmente por ser uma caneta, limito-me a mencionar que Diogo a manipulou com as mãos, e a deixou espalhada à frente dos seus olhos curiosos de estudante, desmontada, nua, com tampas, tubo de tinta e capa plástica separadas sobre o papel rabiscado.

Analisando excessivamente cada parte por longos minutos, obcecado por um objeto que fazia parte de sua rotina mas que agora parecia uma inovação de análise inadiável, Diogo se deteve com mais atenção ao tubo de tinta. Que a caneta perdoe o toque em sua ferida emocional, mas ele olhou o tubo pela a abertura superior, a ponta que escrevia, observou o nível da tinta. Quis saber porque a tinta não voltava pelo tubo, mas antes preferia o caminho da ponta, de muito menor calibre.

Remontou a caneta, que há muito e para o próprio bem estava desacordada pelo choque, e a restaurou a mínima dignidade. A olhou completa, e agora que conhecia as suas entranhas pensou melhor sobre ela. Lembrou da tinta que saía pelo caminho mais estreito, sem nunca voltar. Do papel jamais voltaria ao reservatório, e nenhum mecanismo interno a impediria de correr no caminho oposto, fazendo o traço no papel uma mera depressão sem cor. Não é da natureza das canetas garantir que o branco das folhas receba apenas aquilo que compensa a tinta e o esforço. “Valer a pena”, disse baixo, entre os lábios, sorrindo e despertando a caneta, que encontrou o rosto renovado de Diogo pensando num significado que sempre lhe escapou.

A caneta voltou a si quando escrevia novas palavras, menos sistematizadas e com mais sentido do que as que eram exibidas na aula de há pouco, contendo nenhuma referência ao que o professor falava. Não considerava seu sofrimento de minutos antes, pois canetas são conhecidas pela pouquíssima memória e pela empolgação sincera com novidades.

Diogo escreveu até que o parágrafo encontrou os rabiscos elípticos de mais cedo. Lamentou que aquela tinta tão mal despendida não pudesse voltar ao tubo e seguir existindo nas frases que planejava para ela. Mas foi rápido para se recompor e perceber, numa renovação de ânimo juvenil, o fato que mais importava então.

A maior parte do papel estava em branco.