Os sons da cidade

O ponteiro grande do antiquado relógio de parede estava na sexagésima e última parte do ciclo final de suas viagens circulares, aquele que anunciava o fim de meu turno, promovendo minha alegria com um tic tic irritante, me liberando da tarefa de vigiar a madrugada dos nada-acontece, olhar para uma tela de computador que não muda, e patrulhar os fantasmas das improbabilidades que tornam necessária a minha presença em uma escrivaninha às cinco da manhã, permanecendo acordado no sentido que o termo adquire depois das meia-noites solitárias.

Prestavam-me solidariedade uns bichos que teimam em se comunicar à noite, não sei se por hábitos noturnos ou atraídos para o gramado do pátio pelas luzes que enganam os menos atentos, fazendo-os pensar que a noite resolveu ser um dia estranho e frio de luzes mais brancas e que mudam as cores das coisas. Se é que enxergam cores todos.

Pela janela vi uma família de capivaras atravessar a rua. Oito animais marrons, os maiores grandes o suficiente para assustar os cachorros de rua que vasculhavam o lixo e se afastaram confusos e com medo dos gigantes que cercavam os filhotes na comitiva que buscava o matagal da beira de igarapé perto de um terreno baldio que nunca foi do interesse de ninguém. Logo sumiram de minha vista, escondidas por ervas daninhas e lixo.

Pensei no azar que esse grupo de bichos teve ao vir acabar no meio de uma cidade. Não demorei para me corrigir – tiveram sorte, na verdade. No campo já teriam sido vítimas da espingarda e assados em uma festa sem pompas e sem ocasião que a justificasse. Grandes e gordas, gigantes intocáveis entre cadelas magras e gatos ariscos, competem pelo mato apenas com a especulação imobiliária.

Meu substituto chegou trazendo uma garrafa de café e a minha liberdade, me lembrando que ainda havia pessoas acordadas além de mim. Falando efusivamente, me lembrou também como era a voz humana. E eu não gostava dela, também lembrei. Aceitei uns goles do quentíssimo e forte café, que desceram minha garganta entregando uma leve satisfação e devolveram em recompensa algumas monossílabas que serviram como minhas respostas verbais.

Deixei meu colega sofrer a vez de sua desgraça e respirei os ares superiores que sopravam livres e cheios de aroma além do portão de entrada. Caminhava enquanto meus passos pareciam empurrar o Sol para cima, e cheguei em casa já sob um céu azul acima e cheio de cores à frente, o que me tirou a fome e a vontade de continuar ao ar livre.

Escondido da maior parte das luzes da manhã pelas cortinas espessas, deitei em minha cama. As frestas e pequenos buracos no tecido contaram contra a minha vontade que o Sol estava acima do horizonte. E junto com os raios de luz não convidados meu horror se apresentou – os sons da cidade começaram a tocar.

Meu vizinho da esquerda continuava não acreditando que motores a gasolina, ao contrário de seus antigos carros a álcool, não precisavam de aquecimento de manhã, e passou os tradicionais minutos seguintes com seu seu sapato de couro levemente posicionado sobre o acelerador, enchendo minha casa daquele ruído constante das máquinas nervosas.

O vizinho da direita mais uma vez tinha identificado algum reparo urgentíssimo no quintal de sua casa, o que tinha se tornado comum depois de sua aposentadoria. Obviamente, o reparo envolvia batidas vigorosas de martelo que percurtiam severas na madeira e no interior de minha cabeça, e precisava começar junto com o dia, já que aposentados parecem transformar a luz solar em energia diretamente.

As obras de reforma de uma casa próxima começaram cedo. E como é costume dos trabalhadores de construção, a tarefa mais barulhenta do dia é sempre escolhida para ser primeira. A máquina que cortava a cerâmica brigava com o duro material, e o ruído agudo que subia da batalha não permitiria que a paz fosse decretada até que um dos dois perdesse. A cerâmica perdia sempre, e anunciava a derrota com um aguardado clec no chão, dando início a um cessar fogo de um ou dois minutos. A guerra não terminava antes do meio dia.

Dormi pouco e mal, caindo no sono sem perceber quando. Após pesadelos ruidosos, acordei ao meio-dia com fome. Culinariamente desencorajado pela geladeira e pela pia, saí à rua atrás de um restaurante. Encontrei com os pedreiros da reforma, guardando seus equipamentos e saindo também para almoçar. O vizinho aposentado estava sentado em um banco à frente de sua casa, olhando a rua e as pessoas que passavam. Seu cumprimento foi um aceno de cabeça em minha direção, que trouxe junto uns olhos julgadores, certamente dando algum veredito íntimo que condenava a minha cara de sono.

O restaurante estava cheio, como era de se esperar. Era lamentável que minha fome viesse junto com a de todas as outras pessoas mas meu sono não. Servi a comida de gosto adequado e procedência duvidosa e me sentei à mesa pensando apenas nas batatas e no contra-filé, esquecendo-me de imediato que precisava de algumas horas de sono e de uma vida em seguida.

Enquanto tentava identificar entre os cortes que carne de fato era aquilo que me venderam como contra-filé um antigo amigo surge por sobre o topo da montanha de comida que eu minerava em passo acelerado. Sentou-se à minha frente sem o desnecessário convite com uma modesta planície de carnes e saladas, cuidando das mangas da camisa e da gravata, iniciando a conversa com sua típica amabilidade.

– Que cara amassada. Você está horrível.

– Pudera, não dormi – respondi de boca cheia; tanto fazia a carne agora.

– Seu turno foi cheio?

– Nada aconteceu. Não dormi depois de sair e chegar em casa.

– Insônia? Eu tomo um remédio muito bom, tem um médico amigo meu que…

– Não é insônia, minha vizinhança é muito barulhenta. Chego em casa e não tenho um minuto sem algum ruído incômodo. Meus turnos noturnos me deixam sem dormir, mas fico muito melhor apenas com aquele zumbido dos bichos à noite.

– Ora, você tem que fazer alguma coisa. Não é bom se sentir melhor no trabalho que em casa.

– Eu não me sinto, só me agrada o maior silêncio. Mas o que eu poderia fazer? Mudar pra uma fazenda? Lá as galinhas também me acordariam cedo.

– Você pode promover algumas regras na vizinhança quanto ao barulho. Na verdade já existem leis pra isso, existem limites de ruído que as pessoas podem fazer numa área residencial e…

Meu amigo continuou falando de regras, leis, decretos, autoridades e medidas. A distração me alcançou quando ele passou a falar de valores de honorários e juízes favoráveis, e passei a pensar na situação por um instante, ignorando a voz jurídica à minha frente. Pensei em impedir o velho de bater o seu martelo, pensei em fazer com que a senhora da frente tivesse que se satisfazer com sua cerâmica antiga, áspera e feia, e obrigar que os estudantes que alugaram a casa de quatro quartos da esquina fizessem festas sem som alto. Parecia um mundo aceitável, até eu perceber que seria uma vizinhança com uma pessoa feliz em sua quietude, e uma sociedade de pessoas de vontades reprimidas à volta. Um velho sedentário, uma senhora irritada com seu chão, e jovens que deveriam sorrir fechando a cara quando me vissem, com as expressões graves e a falta de diversão que deveriam reservar para depois da formatura.

– Não faria isso – expressei minha decisão, para enfim conseguir uma pausa no fluxo de informações irrelevantes que atrevessavam a mesa.

– Por que não? Vai continuar sem dormir?

– É melhor – concluí. – Eu amo o silêncio. É melhor sentir saudades que conquistar um amor às custas dos amores alheios, ou o proteger com um fardo de regras.

Meu amigo ajeitou a gravata e me olhou mastigando de boca aberta, não sei se pensando sobre o que eu disse ou sobre mim, deixando bem claro que não entendia nada daquilo com sua mente de advogado.

– Mas voltando um pouco – emendei, resolvendo ser normal. – Fale mais sobre esse remédio que você toma…