Bananas Prata
por Teo Victor
Já terminava a segunda década após a humanidade ter uma significativa evolução em vários sentidos de sua existência. A eliminação da tecla Caps Lock dos teclados era a primeira evidência visível da nova era para uma pessoa do início do século XXI. Outra era que os presídios tinham sido demolidos em sua maioria, restando umas poucas casas de prisão onde cumpriam pena os únicos infratores que ainda ficavam criminalmente reclusos: os reincidentes do delito de compartilhar em broadcast frases motivacionais embutidas em imagens.
Os antigos hábitos prejudiciais foram abandonados e deram lugar ao resgate de costumes ancientes e a práticas mais evoluídas e saudáveis, como a nova onda de abertura de frutarias. A de Juarez talvez fosse a melhor opção na cidade, embora as pencas de banana prata nunca durassem até depois das quatro da tarde. O fornecedor não conseguia entregar mais, apesar dos insistentes pedidos.
Juarez vendeu o último pacote de mangas do dia, se despediu de um casal que fazia sexo em um banco no canto da loja, tentando se lembrar se conhecia algum deles, e saiu. No caminho para casa, como já era tradicional, parou na loja de Xavier e comprou quatro pastilhas para a noite. Xavier o impediu de sair imediatamente, contudo.
– Juarez, hoje as pastilhas estão mais caras.
– Quanto?
Em resposta, Xavier estendeu o braço e puxou quatro pêlos enrolados em volta do mamilo esquerdo de Juarez. Segurou os fios acima da cabeça de ambos, deixou-os cair e observou atentamente o caminho que faziam até o chão. Juarez o seguia com os olhos cada ação, sem pensar.
– Está pago – anunciou Xavier depois da cena.
Sem questionar ou demonstrar afetação, Juarez saiu e continuou até o prédio onde costumava morar naquela semana. Ofegante após subir oito lances de escadas, Juarez parou em frente à porta do apartamento de Letícia, sua jovem vizinha. Apertou a campainha e esperou a resposta, que não veio. Insistiu por mais duas vezes e não foi respondido. Desistiu e entrou em seu apartamento, logo ao lado.
Caiu sobre si no sofá e colocou uma pastilha embaixo da língua. Dois minutos depois um homem baixo, sem barba, com roupas apertadas de múltiplas camadas e pele esverdeada começou a falar imperativamente pela sala com uma voz cujo tom avermelhado das linhas difusas irritava o canto dos olhos, cobrando que Juarez acordasse cedo e cumprisse prazos e obrigações. Juarez ria sem parar do discurso absurdo enquanto acariciava o leopardo que tinha entrado pela janela. Chovia penas de faisão torrencialmente, e os agudos trovões em fá sustenido dificultavam a compreensão da reclamação do gorila de óculos sentado à mesa, protestando efusivamente contra a falta de bateria de sua calculadora científica, balançando sua caneta no ar nervosamente.
Letícia saiu da geladeira nua e com um rolo de silver tape na mão. Cumprimentou Juarez com um abanar rápido das orelhas e atravessou a parede até seu apartamento, onde o mundo acabava com explosões retumbantes de rolhas de espumante. A jovem voltou logo em seguida, pelo teto, em um vestido longo de festa e com o rosto pintado de branco ao estilo dos pantomimeiros. Contou sobre o seu dia com as bolhas de sabão que saíam de sua boca e dormiu abraçada às asas de um dos malamutes da banda. Juarez também adormeceu, de cabeça para baixo com os pés apoiados na cachoeira de gelatina.
Juarez acordou com um vestido de festa e o rosto pintado de branco ao estilo dos pantomimeiros. Letícia dormia apoiada na mesa, com o rosto sobre uma casca de banana prata e uma calculadora na mão. Já era dia há algumas horas, e as nuvens verdes no céu anunciavam uma tarde chuvosa e indicavam um inesperado efeito colateral das pastilhas. Cozinhou ovos e fez café. Letícia aceitou o café, mas preferiu uma banana prata para comer.
Juarez saiu em seguida pisando descalço no chão molhado, e até as doze horas trabalhou em sua frutaria.
– Cadê o Juarez? – perguntou um adolescente que sempre comprava pêras.
Antes de sair para almoçar, Juarez foi ao lavabo nos fundos, enxaguou a tinta branca do rosto e tirou o vestido de festa, ficando apenas com o calção que costumava usar em horas de trabalho. Sentiu fome, e resolveu procurar um lugar para almoçar. No caminho aleatório que fazia passou a ouvir gritos animados uma multidão, e resolveu seguir a direção do som. Encontrou pessoas amontoadas na calçada, entusiasmadas com uma disputa de justa que acontecia na rua. Era um pouco diferente da disputa antiga, é verdade. Não havia cavaleiros vestindo armadura, mas mulheres nuas sobre as montarias, com bananas prata na mão em vez de lanças. Cada uma tentava esfregar a fruta contra os seios da outra. Ganhava que o fizesse sem derrubar a adversária do cavalo.
Juarez entendeu enfim porque nunca conseguia suprir sua demanda por bananas. Solucionado o principal mistério de sua vida então, fechou a frutaria no dia seguinte e se tornou lutador de justa de rua. Lutava vestido de cavaleiro medieval, enfrentando mulheres nuas que sempre ganhavam.