Fora de Casa

por Teo Victor

Cansado do tédio arrastado da vida na Terra, lançou-se um dia ao espaço, conforme uma prática bem estabelecida entre os imortais da sua época. Seu primeiro prazer foi sentir a falta do ar. Não a sensação asfixiante que os antigos experimentavam, mas uma liberdade e uma fluidez nos movimentos que o deslumbravam. Passou horas olhando para suas mãos fazendo movimentos rápidos à sua frente, sem qualquer fricção limitante.

Na segunda volta que dava ao redor do planeta sentiu que a força que antes o puxava para baixo implacavelmente também era capaz de dar empurrões. Foi lançado de frente para o completo vazio, de costas para o Sol, como se a Terra não só se despedisse, mas o expulsasse. “Vá e não volte mais”, imaginou a bola azul e branca atrás de si dizendo. Não queria voltar mesmo, então não se importava.

Passou os dias seguintes esperando chegar à Lua, mas descobriu, para sua decepção, que tinha sido lançado na direção oposta, em um último desgosto que a Terra promovia, já que queria encontrar alguns conhecidos na superfície lunar. Não fazia mal, entendia. Faltava cinco planetas e outros astros até as fronteiras do Sistema Solar, e não achava possível ser tão azarado.

Ainda contava o tempo, e percebeu meses depois que errou Marte por muito. Vários colegas de escola estavam possivelmente lá, e novamente lamentou a oportunidade perdida de ver outros que abandonaram a Terra. Poderia ter sido menos impulsivo e ter se lançado ao vazio com mais planejamento. Mas, impetuoso como era, não queria esperar, e antes que a depressão terrestre se agravasse, partiu no dia em que sua vontade nasceu. Sua vontade não se alinhava aos planetas, viu rápido.

Em algum lugar antes da órbita de Júpiter percebeu o quanto o espaço era, na verdade, quase que completamente sem nada. Não via coisa alguma há meses, nem ninguém. Todas as coisas se resumiam a pontos brilhantes à sua volta. Os modelos em escala dos planetas em suas revoluções ao redor do Sol faziam parecer que viajaria por um lugar mais povoado, nem que fosse por uma população de rochas. Não via nem elas, pequenas ou grandes. Semanas antes tinha sentido uma perturbação à sua esquerda. Sutil, mas uma vida no vazio de forças pequenas em atuação aguçaram sua percepção de aceleração. Presumiu que tinha passado próximo a algo grande. Não sabia o quê, não tinha visto o quê, mas tinha sentido, em uma experiência que viu como quase mística.

Até que, contra todas as chances, encontrou alguém. Era um homem jovem, e ia na mesma direção, embora um pouco mais lento, desacelerado por algum dos vários corpos celestes à volta que, escondidos, exerciam suas forças ocultas sem avisar. Passaram alguns minutos próximos um do outro, comunicando-se por gestos. O homem mais lento tentava se fazer entendido, sem o menor sucesso. Até que sacou de sua mochila um bloco de anotações e um papel. Escreveu: “se estamos em um Cinturão de Asteróides, então o que é esta coisa superdensa segurando desnecessariamente minha calças?”

Riram silenciosamente, e deixaram um ao outro novamente sozinhos no vazio. Semanas depois deixou o Cinturão sem ver nem mesmo um asteróide. Para o seu desconsolo não via Júpiter também, a menos que olhasse para trás para um ponto distante e de brilho fraco. Não havia como se encontrar com o maior planeta da vizinhança. Chorou de saudades do humor do último ser humano que tinha visto um mês antes. As lágrimas congeladas acompanharam seus olhos pelos anos seguintes. Não havia nada para ver a não ser os mesmos pontos brancos, então não se incomodou as limpar.

Errou Urano e Netuno. Plutão e Éris, em seus planos estranhos, não esperava mesmo encontrar. Tinha parado de contar o tempo, e não sabia nem como medir a passagem dos momentos agora. Não fazia sentido falar em “dia” e “noite”. Tudo era profundamente escuro ou distantemente claro. Mal via a si próprio além do branco de sua camisa.

Passou assim o que talvez fossem décadas, ou talvez fosse um segundo. Devia estar na Nuvem de Oort, pensou em certa ocasião, e sorriu ao pensar que o lugar era tanto uma nuvem quanto o Cinturão de Asteróides era um cinto. Não via nada, e chorou mais uma vez, enchendo os olhos de mais uma camada de gelo.

Tinha parado de pensar, encarando apenas o nada, sem saber para onde ia. Era como um sono sem sonhos, catatônico nas trevas. Até que sentiu algo. Não sabia quanto tempo fazia desde sua última sensação. Era a única coisa capaz de sentir nos últimos períodos que chamava de anos: aceleração. Ou desaceleração, dependendo do ponto de vista. Algo o atraía. Algo grande, já que sentia uma força considerável o puxando. Sorria e limpava o gelo de seus olhos, tentando ver algo, talvez um grande asteróide ou um planeta anão. Não viu nada, e se desesperou quando percebeu que não mais acelerava. O corpo brincalhão talvez tivesse passado por perto e apenas cumprindo a irônica missão de o parar completamente nas trevas, o sentenciando a nunca chegar a lugar nenhum.

Caiu em novo transe paralisante. Pareceu apenas um instante depois, talvez por ter sido mesmo apenas um intante depois, talvez pela ilusão da paralisia, mas acordou com uma luz intermitente que incomodava seus olhos. A luz depois iluminou algo à sua frente. Alguém, na verdade. Demorou para reconhecer o que, para seu espanto, era uma mulher vários metros distante. Os pensamentos voltaram. “Uma mulher com luz própria? O que mudou no Universo? Não, tolo, é uma lanterna…”

Era uma mulher jovem como ele. Pelo menos jovem como ele era desde que se lembrava. Aos poucos voltou a mexer braços e pernas. A mulher parecia não se mexer, e nem ele, em nenhuma direção.

Pensou que talvez seus corpos se atraíssem com o tempo. Demoraria, mas que tempo era espera grande o suficiente para ele agora? Pôs-se a aguardar, enquanto sentia seu corpo voltando a funcionar. Os sentimentos voltavam também. Tinha apenas identificado que era uma mulher, mas já a desejava. E o desejo trazia outro sentimento então perdido – a ansiedade. Não queria esperar mais, não aguentava mais a ver e não poder tocar. Outros sentidos mandaram lembranças – sentiu o sapato incomodando seu pé. Por um instante ficou feliz por sentir algo diferente, mas logo tirou um sapato e o jogou para trás, sobre os ombros. Acelerou com isto seu centro de massa e, por isso, também o seu ritmo cardíaco. Percebeu como chegar mais rápido ao seu único objetivo em um tempo que parecia infinito.

Lançou para trás seu outro sapato, depois seu casaco. A mulher entendeu rápido o que se passava, e passou a fazer o mesmo. Foi-se a camisa e a blusa, as calças e as peças íntimas. Animado, pensava que além de chegar a ela já chegaria nu, cumprindo dois objetivos. Lentos mas constantes, os dois corpos se moviam em rota de colisão. Ou pelo menos era o que achavam. Já próximos perceberam um erro de direção em algum dos lançamentos. Transtornado, tentavam fazer algo para corrigir o caminho, mas o combustível tinha acabado. Passaram um ao lado do outro, e os braços estendidos tentaram se alcançar, inexoravelmente separados por dois palmos.

Quase alcançou algumas das peças de roupa deixadas para trás pela mulher. Pensou a princípio se a encontraria de novo, em mais uma ilusão que voltou com sua humanidade restaurada. Pensou depois se ela estava indo agora em direção à Terra, e se algum dia contaria aquela história para alguém. Quando deixava novamente as sensações humanas e a noção de si mesmo para trás, reconheceu naquilo outra ilusão, e gastou o que restava de homem em seu interior para pensar em alguma forma de morrer.