Três quartos de hora

A chuva começou de repente naquela tarde de março. Até gosto de me molhar, mas o conteúdo dos meus bolsos não me permite desfrutar tal prazer. As águas sempre caíram sobre homens que não se importavam muito com elas, mas chegou o tempo em que todos são obrigados a andar com as roupas recheadas de documentos, notas de dinheiro e celulares. Certas dádivas do céu são esquecidas com o avanço do que as pessoas costumam chamar de progresso.

Naquela praça sem abrigos, em uma rua sem acolhedoras lojas abertas ou toldos convidativos, escondi-me dos pingos sob um ponto de ônibus. Não era o melhor lugar para quem queria se esconder da chuva, mas achei perfeito. O vento às vezes jogava água lateralmente, respingando sobre meu rosto e pescoço. Após o calor sufocante de horas antes, cada gota que graciosamente se colocava em minha pele era como um pequeno inverno de alívio. No Hades equatorial de Porto Velho, a chuva é como uma concessão de Abraão, inesperadamente cedendo ao clamor do rico perdido.

Fechei os olhos, levantei o queixo, e deixei que as gotículas frias de água me refrescassem mais. Abri os olhos, entretanto, e vi que já não estava sozinho. Havia um homem ao meu lado. Não tinha visto sua aproximação, e pensei que não havia ninguém na rua naquele instante. Um pequeno susto, sem dúvida, já que não entendia como ele podia estar ali após fechar os olhos por tão pouco tempo. Completando a estranheza da situação, ele escrevia em um pequeno caderno já úmido devido aos respingos.

Não sei o motivo, mas resolvi lhe falar. Talvez por achar que era inesperado um encontro sob o mesmo ponto de ônibus àquela hora, sob aquela chuva, daquela forma. Alguns de nós tem impressão que todas as coisas têm uma razão de ser, e isso dita nossos atos certas horas. Acredito que sou uma dessas pessoas, e entendi que o fato de aquele homem estar ali significava que eu devia falar com ele.

– O que está escrevendo? – dispensei saudações e apresentações, buscando algo óbvio para iniciar o diálogo, que, por seu início, prometia ser bastante tosco.

– Sobre a juventude – disse ele olhando para o caderno. – Sobre a juventude perdida, para ser mais exato.

Estranhei bastante a resposta. Mas também passei a estranhar bastante aquele homem. De certos ângulos se diria que ele era um jovem em seus vinte e poucos anos. De outros pontos de vista, parecia ter mais de trinta. Era impossível dizer sua idade.

– Mas você está no auge da juventude! – tentei ser simpático.

– Auge? O que determina a juventude? A data de nascimento? Os aniversários? As roupas? Os acessórios?

Apenas olhei e não respondi. Esperava uma conversa mais superficial. O homem não se preocupou com meu silêncio e estupefação. Neste instante parecia bastante jovem, quase adolescente.

– Jovens são aqueles que vivem seu tempo com intensidade. Eu vivi, digo a você, mas não o meu tempo. Eu vivi tempos remotos, tanto atrás quanto à frente. E os vivi sem entrega, distante. Vi mil anos em vinte, mas em relevância foram como cinco, fracos e pálidos. Formei-me no passado idealizado, e me projetei no futuro utópico. Isso fez de mim pouco mais que um espectro no presente.

Já a esse momento eu me encontrava profundamente incomodado. Queria sair, mas esperei um pouco em silêncio, por educação. Observei por alguns segundos os pingos da chuva movendo a água das poças. Não conseguindo esperar por mais tempo, levantei e me despedi, sem obter resposta. Poucos passos à frente voltei-me para o ponto onde estava. O homem me encarava de uma maneira perturbadora.

– O que eu disse assusta você? – perguntou ele, para minha completa surpresa. Dei mecanicamente um passo para trás, e terminei tropeçando e me desequilibrando, quase indo ao chão. Procurei a pedra que tinha me feito tropeçar, mas não a encontrei. Penso que tropecei em meu próprio assombro. Olhei novamente para ter certeza. Tive a impressão de que conhecia aquele homem mais do que queria.

Com o coração e a respiração acelerados, voltei os olhos para a rua. Alguns vagos pensamentos confusos me ocuparam durante algumas inspirações e expirações. Quando olhei novamente o homem não estava mais sentado no banco do ponto. Não estava caminhando pela calçada ou pela rua. Tinha desaparecido completamente.

Parei por um tempo pensando em tudo o que tinha acontecido. Notei, entretanto, que ainda chovia. Esquecendo-me do que tinha presenciado, do telefone celular em meu bolso e dos documentos que portava, segui até minha casa, completamente molhado e sentindo as gotas caindo sobre a cabeça e ombros. Alegrei-me ao ver o Sol deslizar para o oeste a partir das nuvens de chuva ainda no céu. As luzes daquele fim de tarde tornavam impressionantes as cores das folhas encharcadas das árvores, tornando os verdes mais vivos e brilhantes.

Vivi um pôr-do-sol de fato, e uma chuva por completo. E tudo pareceu muito mais que três quartos de hora.