Aguarde Sua Vez

por Teo Victor

– A morte precisa ter estilo – ensinava João a um desconhecido que, como ele, subia as escadas do prédio VI do Brasil Shining Sunset Palace, um condomínio muito bem localizado, com uma vista interessante para quem quer ver algo pela última vez, como se dizia por lá.

O prédio tinha vinte e cinco andares e era muito bem acabado. Os elevadores funcionavam perfeitamente, mas João preferiu subir as escadas para aproveitar o momento especial. No quarto andar desistiu da ideia e solicitou um elevador, que não demorou a chegar. Queria morrer, mas espatifado no chão, não de ataque cardíaco ou cansaço.

– Morte sem sangue é para mocinhas – ensinou em sua segunda lição, que foi mais curta, já que o elevador não fez paradas. Desceu no vigésimo quinto andar e subiu resmungando o último lance de escadas até o terraço.

Uma fila enorme começava próxima à porta do terraço e serpenteava até uma borda que dava para o oeste. Ninguém queria ver o pôr-do-sol: era nove da manhã, e a fila se dispôs assim porque ninguém quis ter o sol no rosto, apesar dos ótimos óculos escuros presentes nas faces. O desconhecido que acompanhou João na subida passou à sua frente e tomou um lugar na fila. Apesar dos olhares repreensivos em protesto, o homem sequer corou, e João conformou-se com seu último lugar. Não demorou, entretanto, para mais gente chegar e entrar na espera.

No final da fila estavam um padre e um pastor, um à esquerda e outro à direita. Na sua vez, cada um solicitava os serviços de um dos ministros, recebia uma bênção e uma advertência sobre o inferno, depositavam uma quantia em uma caixa próxima e pulavam. Sem qualquer afetação dos presentes, passava-se ao próximo da fila.

Após seis ou sete pulos começou uma murmuração entre os que aguardavam. Ricardo, que se identificou como ateu, exigia o direito de não ser atendido por um padre ou pastor ao final da fila.

– Ninguém é obrigado a ser atendido. Ao chegar aqui, nos ignore e faça como achar melhor – disse o padre.

– A presença de vocês aí é constrangedora – replicou Ricardo. Nós somos livres em nossas convicções, ou pelo menos deveríamos ser. Ter sacerdotes no final desta fila fere a igualdade de direitos e de crença. Exijo uma palavra com o responsável da fila.

Um olhava para o outro, e ninguém lembrava da existência de um responsável pela fila. Alguém sugeriu eleger um, e como Ricardo tinha levantado sua voz e sido o mais notado por todos, acabou sendo eleito por uma apertada diferença. Sua primeira determinação como responsável pela fila foi criar uma fila nova para os ateus e mover a remanescente para um canto escondido, onde os ministros não seriam vistos pela maioria, impedindo possíveis constrangimentos.

A fila dos religiosos continuou enorme, mas agora terminava atrás de uma antena, em um lugar bem escondido. A fila dos ateus só contava com Ricardo, que exaltou a própria liberdade um pouco antes de pular.

Entre os que permaneceram na fila original começaram outras reclamações. Um muçulmano exigiu uma fila de atendimento exclusivo para sua fé. O responsável pela fila, Ricardo, já estava vinte e cinco andares abaixo, em pedaços, então tiveram que eleger outro, que após barganhar algumas posições na fila com os eleitores, conseguiu criar uma fila atendida por um sacerdote islâmico.

Seguiu-se uma série de pedidos de fila com atendimento exclusivo. Foram criadas dezenas de filas, umas com dois ou três na espera, outras com dez ou até quinze, cada uma com um ministro. Um cristão bastante esclarecido pleiteou o direito de restaurar a fila dos ateus, baseado nos ideais de Ricardo. O espaço para a fila foi reservado, mas ninguém o preencheu definitivamente. Vez ou outra alguém aparecia e pulava naquele espaço, geralmente por ter errado a fila que lhe cabia.

Com as filas em pleno funcionamento, um grupo de homossexuais subiu ao terraço, e exigiu o direito de ter seus membros atendidos pelos ministros de qualquer religião. Gays e mulheres grávidas se uniram, já que havia recusa em se permitir que mulheres pulassem com a criança. O pastor, o padre e o sacerdote islâmico negaram o pedido dos dois grupos,e acabaram empurrados do terraço. Foram substituídos por líderes progressistas, tão à frente de seu tempo e das pessoas ali presentes que se jogaram antes de todos. Houve caos, e ninguém ouviu os deficientes exigindo atendimento preferencial.

Após a confusão, todos se jogaram aleatoriamente, se espatifando no chão ou em cima dos outros cadáveres. Quando não restava mais ninguém no terraço, um oficial de justiça afixou na porta e em uma parede próxima uma ordem judicial suspendendo as atividades do local por irregularidades no atendimento ao público. Uma equipe de TV chegou para gravar um documentário sobre a luta contra a intolerância. O jornal local publicou no dia seguinte que o Nacional Essence Wood Boulevard era um lugar mais adequado ao suicídio. Entrevistaram João, que não tinha conseguido se jogar porque esqueceu o dinheiro da taxa que deveria ser depositada na caixinha.