Para Consumo Imediato

Textos fósseis adulterados

Mês: março, 2013

Três quartos de hora

A chuva começou de repente naquela tarde de março. Até gosto de me molhar, mas o conteúdo dos meus bolsos não me permite desfrutar tal prazer. As águas sempre caíram sobre homens que não se importavam muito com elas, mas chegou o tempo em que todos são obrigados a andar com as roupas recheadas de documentos, notas de dinheiro e celulares. Certas dádivas do céu são esquecidas com o avanço do que as pessoas costumam chamar de progresso.

Naquela praça sem abrigos, em uma rua sem acolhedoras lojas abertas ou toldos convidativos, escondi-me dos pingos sob um ponto de ônibus. Não era o melhor lugar para quem queria se esconder da chuva, mas achei perfeito. O vento às vezes jogava água lateralmente, respingando sobre meu rosto e pescoço. Após o calor sufocante de horas antes, cada gota que graciosamente se colocava em minha pele era como um pequeno inverno de alívio. No Hades equatorial de Porto Velho, a chuva é como uma concessão de Abraão, inesperadamente cedendo ao clamor do rico perdido.

Fechei os olhos, levantei o queixo, e deixei que as gotículas frias de água me refrescassem mais. Abri os olhos, entretanto, e vi que já não estava sozinho. Havia um homem ao meu lado. Não tinha visto sua aproximação, e pensei que não havia ninguém na rua naquele instante. Um pequeno susto, sem dúvida, já que não entendia como ele podia estar ali após fechar os olhos por tão pouco tempo. Completando a estranheza da situação, ele escrevia em um pequeno caderno já úmido devido aos respingos.

Não sei o motivo, mas resolvi lhe falar. Talvez por achar que era inesperado um encontro sob o mesmo ponto de ônibus àquela hora, sob aquela chuva, daquela forma. Alguns de nós tem impressão que todas as coisas têm uma razão de ser, e isso dita nossos atos certas horas. Acredito que sou uma dessas pessoas, e entendi que o fato de aquele homem estar ali significava que eu devia falar com ele.

– O que está escrevendo? – dispensei saudações e apresentações, buscando algo óbvio para iniciar o diálogo, que, por seu início, prometia ser bastante tosco.

– Sobre a juventude – disse ele olhando para o caderno. – Sobre a juventude perdida, para ser mais exato.

Estranhei bastante a resposta. Mas também passei a estranhar bastante aquele homem. De certos ângulos se diria que ele era um jovem em seus vinte e poucos anos. De outros pontos de vista, parecia ter mais de trinta. Era impossível dizer sua idade.

– Mas você está no auge da juventude! – tentei ser simpático.

– Auge? O que determina a juventude? A data de nascimento? Os aniversários? As roupas? Os acessórios?

Apenas olhei e não respondi. Esperava uma conversa mais superficial. O homem não se preocupou com meu silêncio e estupefação. Neste instante parecia bastante jovem, quase adolescente.

– Jovens são aqueles que vivem seu tempo com intensidade. Eu vivi, digo a você, mas não o meu tempo. Eu vivi tempos remotos, tanto atrás quanto à frente. E os vivi sem entrega, distante. Vi mil anos em vinte, mas em relevância foram como cinco, fracos e pálidos. Formei-me no passado idealizado, e me projetei no futuro utópico. Isso fez de mim pouco mais que um espectro no presente.

Já a esse momento eu me encontrava profundamente incomodado. Queria sair, mas esperei um pouco em silêncio, por educação. Observei por alguns segundos os pingos da chuva movendo a água das poças. Não conseguindo esperar por mais tempo, levantei e me despedi, sem obter resposta. Poucos passos à frente voltei-me para o ponto onde estava. O homem me encarava de uma maneira perturbadora.

– O que eu disse assusta você? – perguntou ele, para minha completa surpresa. Dei mecanicamente um passo para trás, e terminei tropeçando e me desequilibrando, quase indo ao chão. Procurei a pedra que tinha me feito tropeçar, mas não a encontrei. Penso que tropecei em meu próprio assombro. Olhei novamente para ter certeza. Tive a impressão de que conhecia aquele homem mais do que queria.

Com o coração e a respiração acelerados, voltei os olhos para a rua. Alguns vagos pensamentos confusos me ocuparam durante algumas inspirações e expirações. Quando olhei novamente o homem não estava mais sentado no banco do ponto. Não estava caminhando pela calçada ou pela rua. Tinha desaparecido completamente.

Parei por um tempo pensando em tudo o que tinha acontecido. Notei, entretanto, que ainda chovia. Esquecendo-me do que tinha presenciado, do telefone celular em meu bolso e dos documentos que portava, segui até minha casa, completamente molhado e sentindo as gotas caindo sobre a cabeça e ombros. Alegrei-me ao ver o Sol deslizar para o oeste a partir das nuvens de chuva ainda no céu. As luzes daquele fim de tarde tornavam impressionantes as cores das folhas encharcadas das árvores, tornando os verdes mais vivos e brilhantes.

Vivi um pôr-do-sol de fato, e uma chuva por completo. E tudo pareceu muito mais que três quartos de hora.

Aguarde Sua Vez

– A morte precisa ter estilo – ensinava João a um desconhecido que, como ele, subia as escadas do prédio VI do Brasil Shining Sunset Palace, um condomínio muito bem localizado, com uma vista interessante para quem quer ver algo pela última vez, como se dizia por lá.

O prédio tinha vinte e cinco andares e era muito bem acabado. Os elevadores funcionavam perfeitamente, mas João preferiu subir as escadas para aproveitar o momento especial. No quarto andar desistiu da ideia e solicitou um elevador, que não demorou a chegar. Queria morrer, mas espatifado no chão, não de ataque cardíaco ou cansaço.

– Morte sem sangue é para mocinhas – ensinou em sua segunda lição, que foi mais curta, já que o elevador não fez paradas. Desceu no vigésimo quinto andar e subiu resmungando o último lance de escadas até o terraço.

Uma fila enorme começava próxima à porta do terraço e serpenteava até uma borda que dava para o oeste. Ninguém queria ver o pôr-do-sol: era nove da manhã, e a fila se dispôs assim porque ninguém quis ter o sol no rosto, apesar dos ótimos óculos escuros presentes nas faces. O desconhecido que acompanhou João na subida passou à sua frente e tomou um lugar na fila. Apesar dos olhares repreensivos em protesto, o homem sequer corou, e João conformou-se com seu último lugar. Não demorou, entretanto, para mais gente chegar e entrar na espera.

No final da fila estavam um padre e um pastor, um à esquerda e outro à direita. Na sua vez, cada um solicitava os serviços de um dos ministros, recebia uma bênção e uma advertência sobre o inferno, depositavam uma quantia em uma caixa próxima e pulavam. Sem qualquer afetação dos presentes, passava-se ao próximo da fila.

Após seis ou sete pulos começou uma murmuração entre os que aguardavam. Ricardo, que se identificou como ateu, exigia o direito de não ser atendido por um padre ou pastor ao final da fila.

– Ninguém é obrigado a ser atendido. Ao chegar aqui, nos ignore e faça como achar melhor – disse o padre.

– A presença de vocês aí é constrangedora – replicou Ricardo. Nós somos livres em nossas convicções, ou pelo menos deveríamos ser. Ter sacerdotes no final desta fila fere a igualdade de direitos e de crença. Exijo uma palavra com o responsável da fila.

Um olhava para o outro, e ninguém lembrava da existência de um responsável pela fila. Alguém sugeriu eleger um, e como Ricardo tinha levantado sua voz e sido o mais notado por todos, acabou sendo eleito por uma apertada diferença. Sua primeira determinação como responsável pela fila foi criar uma fila nova para os ateus e mover a remanescente para um canto escondido, onde os ministros não seriam vistos pela maioria, impedindo possíveis constrangimentos.

A fila dos religiosos continuou enorme, mas agora terminava atrás de uma antena, em um lugar bem escondido. A fila dos ateus só contava com Ricardo, que exaltou a própria liberdade um pouco antes de pular.

Entre os que permaneceram na fila original começaram outras reclamações. Um muçulmano exigiu uma fila de atendimento exclusivo para sua fé. O responsável pela fila, Ricardo, já estava vinte e cinco andares abaixo, em pedaços, então tiveram que eleger outro, que após barganhar algumas posições na fila com os eleitores, conseguiu criar uma fila atendida por um sacerdote islâmico.

Seguiu-se uma série de pedidos de fila com atendimento exclusivo. Foram criadas dezenas de filas, umas com dois ou três na espera, outras com dez ou até quinze, cada uma com um ministro. Um cristão bastante esclarecido pleiteou o direito de restaurar a fila dos ateus, baseado nos ideais de Ricardo. O espaço para a fila foi reservado, mas ninguém o preencheu definitivamente. Vez ou outra alguém aparecia e pulava naquele espaço, geralmente por ter errado a fila que lhe cabia.

Com as filas em pleno funcionamento, um grupo de homossexuais subiu ao terraço, e exigiu o direito de ter seus membros atendidos pelos ministros de qualquer religião. Gays e mulheres grávidas se uniram, já que havia recusa em se permitir que mulheres pulassem com a criança. O pastor, o padre e o sacerdote islâmico negaram o pedido dos dois grupos,e acabaram empurrados do terraço. Foram substituídos por líderes progressistas, tão à frente de seu tempo e das pessoas ali presentes que se jogaram antes de todos. Houve caos, e ninguém ouviu os deficientes exigindo atendimento preferencial.

Após a confusão, todos se jogaram aleatoriamente, se espatifando no chão ou em cima dos outros cadáveres. Quando não restava mais ninguém no terraço, um oficial de justiça afixou na porta e em uma parede próxima uma ordem judicial suspendendo as atividades do local por irregularidades no atendimento ao público. Uma equipe de TV chegou para gravar um documentário sobre a luta contra a intolerância. O jornal local publicou no dia seguinte que o Nacional Essence Wood Boulevard era um lugar mais adequado ao suicídio. Entrevistaram João, que não tinha conseguido se jogar porque esqueceu o dinheiro da taxa que deveria ser depositada na caixinha.