Schadenfreude
Há um estágio do incômodo provocado pela balbúrdia em que os sons não fazem mais nenhum sentido aos ouvidos, e cumprem exclusivamente a função de incomodar. Em um ambiente apropriado a tal extremo, os gemidos repetitivos de dois cantores sertanejos apunhalavam a compreensão de Fausto, enquanto pequenos alfinetes eram inseridos embaixo das unhas de sua paciência por duas vozes femininas que fechavam as duas pontas do arco do qual ele e Nei formavam o centro, em um canto meio escuro do bar. Por vezes Nei, gritando para ser ouvido pelas duas mulheres, acrescentava sua voz aguda e dolorida ao caos.
Em intervalos de tempo aleatórios, Nei e a mulher na outra ponta se entregavam a algum agarramento qualquer, o que geralmente dava a Fausto alguns minutos de alívio parcial, mas parecia incomodar a jovem loira ao seu lado. A loira tentava trocar algumas palavras, mas a conversa geralmente morria em alguma resposta monossilábica. Após o término de um curto período de beijos e conversas ao ouvido um do outro, Nei e a outra mulher notaram a situação e, já um pouco tarde, buscaram intervir.
– Amiga! – a parceira de Nei chamou a atenção loira. – Vá pra cima, acho que você vai ter que dar conta desse menininho tímido! – terminou gargalhando. Fausto irritou-se desproporcionalmente, como ele mesmo admitiria. Pensou em severos insultos à quase desconhecida por semelhante comentário, embora não tenha dado nenhum indicativo externo da sua revolta íntima.
– Esse aqui, minha filha, só se ele cantar em alemão pra mim agora – disse a loira, descendente de alemães e quase falante do idioma de seus avós, fatos que a deixavam bastante orgulhosa. Seu tom era esnobe – calculadamente, como denunciava o leve sorriso.
Todos riram. Até Fausto permitiu um movimento suave no canto direito da boca que escondia uma terrível explosão interior. A falta de conversa com a loira não era por desinteresse. Pelo contrário, Fausto estava bastante interessado, só que não queria que a loira não exibisse o mesmo desejo (mesmo que até para olhos pouco atentos, depois soube por Nei, ela realmente demonstrasse insistentemente). Mas as expressões de desdém daquele impecável rosto branco o tiraram ainda mais de seu estado normal. Não aceitou que ela aparentemente o rejeitasse. “Quem esse verme pensa que é para me considerar inferior, esfregando sua suposta ‘europeiazisse’ em cima de mim? Esnoba, rejeita e ainda me propõe desafios!”, pensou, nem tentando imaginar que a brincadeira da jovem pudesse indicar uma intenção inteiramente diferente.
Logo Fausto começou a cantar baixo, entre os dentes. Nenhum dos outros deu uma atenção especial ao fato. Segundos em seguida, as punhaladas de música pop cessaram, e os versos que Fausto cantava se fizeram notar.
– … Menschen werden Brüder,
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Os outros três se voltaram pra ele ao mesmo tempo, um pouco incrédulos. A música ambiente não voltou antes que pudessem ouvir ainda uma repetição.
– Deine Zauber binden wieder,
Was die Mode streng getheilt;
Alle Menschen werden Brüder,
Wo dein sanfter Flügel weilt.
Ao término, a loira arregalou os belíssimos olhos claros, e sorriu.
– Que bonitinho! – disse a loira, com as mãos nas bochechas. – Desculpe se fui grossa. Você me surpreendeu – disse entusiasmada enquanto tomava as mãos de Fausto.
Fausto notou a satisfação na expressão da jovem, e deu seu próprio sorriso de satisfação, mais uma vez de canto de boca. Os olhos e o sorriso da loira por um instante quase fizeram Fausto desistir de seus propósitos. Mas abandonando o instinto, voltou ao que conhecia como razão, aumentou o sorriso, e tirou suas mãos das mãos da loira.
– Sua vez – disse.
– Como? – a loira ainda sorria.
– Sua vez de pagar o preço.
A expressão da loira se tornou de dúvida.
– Ora essa – continuou Fausto com um calculado tom de sarcasmo. – Você me pede para cantar em outro idioma como preço para seu, digamos, carinho… você me fez pagar um preço por você, embora zombando de mim, tendo-me por um qualquer, um mero baladeiro idiota que quer apenas alternar ao longo dos fins de semana a cerveja que causa a ressaca e a mulher que dá prazer. Mas eu ganhei, e me provei acima. Completei seu desafio, e tenho pelo menos um beijo por direito, tendo visto inclusive que agora você estava disposta a tanto. Mas, claro, eu não sou gratuito, já que você não se mostrou gratuita. Cante uma música no idioma de meus ancestrais italianos. Sabe alguma?
A loira fechou a boca e olhou firmente para ele, bastante séria. Fausto a encarou por alguns segundos.
– Não? Veja, facilito pra você. Não precisa cantar, só recite uma estrofe qualquer de uma poesia italiana.
Os olhos da loira brilharam, e era perceptível sua raiva. Nei e a outra mulher assistiam calados e imóveis.
– Reduzo o desafio para meros dois versos – Fausto simbolizou o número dois com o polegar e o indicador. A loira reagiu imediatamente, e levantou, pisando tão duro quanto seu salto permitia.
– Entschuldigung – gritou Fausto. A loira parou e escutou, de costas, esperando o anunciado pedido de perdão. Fausto montou uma expressão quase sádica no rosto antes de prosseguir.
– Não sabia que só eu devia pagar. Não sabia que você era esse tipo de mulher. – A loira pensou por um instante, abriu a boca como se fosse responder, mas acabou deixando apenas ar passar pela garganta. Saiu rápido, com uma mão na altura dos olhos, quase correndo. A outra mulher se levantou com pressa e seguiu a amiga.
– Meus parabéns e muito obrigado, retardado. O que você ganha com isso? E não pensou em mim, seu egoísta? Eu estava me dando bem. Agora ferrou pra você e pra mim. – disse Nei, em um tom mais de desânimo que de irritação.
– Mas meu orgulho segue intacto – respondeu Fausto. “Sou desafiado, canto Schiller à Beethoven para essa vadia e ela me diz ‘bonitinho’… pelo menos venci”. De relance, trocou um rápido olhar com a loira ao longe, que desviou o rosto transtornada, e se afastou ainda mais com a amiga. “Schadenfreude“, pensou sozinho, rindo. “Será que ela sabe o que isso significa?”.